3 poemas de William Carlos Williams

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O DESCENSO

Convoca-nos o descenso
como nos convoca a ascensão.
A memória é um acaso de cortesia,
uma renovação,

- e mais: uma  iniciação:
os espaços
que abre são novos lugares
povoados por tribos errantes
até então inexistentes,
novas espécies
movendo-se  para  novos  objetivos
(os mesmos
que antes haviam abandonado.)

Nenhuma derrota
é eternamente derrota:
o mundo que abre é sempre
um lugar antes insuspeitado.
Um mundo perdido é um mundo
que nos convoca aos lugares originais:
nenhuma brancura
(perdida) é tão branca
como a memória da brancura.

Ao anoitecer, o amor desperta
– ainda que as sombras,
altivas pela lei do sol,
esvoacem agora
e se desprendam do desejo.
O amor agora sem sombras
fortalece-se e
conforme a noite avança
desperta.

O descenso
feito de desesperos
pelo não cumprido
nos cumpre: é um novo despertar,
reverso
do desespero.

Aquilo que não pudemos cumprir,
o que ao amor foi negado,
perdido na antecipação,
cumpre-se num descenso,
sem fim: indestrutível.

O PARDAL

A meu pai

Este pardal
que vem saltitar
por sobre o peitoril da minha janela,
mais que um ser natural
é uma verdade poética.

O seu canto,
as suas danças,
os seus hábitos –
o prazer
com que sacode as asas
na poeira –
tudo o demonstra;
claro que o faz
para se espulgar
mas o alívio que sente
incita-o
a gorjear com veemência:
algo
mais próximo da música
que o próprio silêncio.

Onde quer que se encontre
no despontar da primavera,
rua vagabunda
ou palácio,
prossegue
imperturbável
os seus namoricos.

Principia no ovo,
o sexo é o seu talento:
Há presunção
mais inútil,
endeusamento maior
de nós mesmos?
É algo que nos arrasta,
quase sempre, ao abismo.

Nem o pequeno galo nem o corvo
com suas vozes desafiantes
superam
o seu gorjeio
incessante.
Certa vez
no El Paso,
até ao anoitecer,
vi (ouvi)
dez mil pardais.

Vinham do deserto
para dormir
e cobriram as árvores
de um pequeno parque.
Os humanos,
zumbindo-lhes os ouvidos,
fugiram
sob a tempestade de dejetos.

Deixaram livre o terreno
aos lagartos que vivem na fonte.
A sua imagem
não é menos familiar
que a do aristocrático
unicórnio – pena
que haja menos azémolas agora
a comer aveia:
isso facilitava-lhe a vida.

Não importa:
seu breve tamanho,
seus olhos aguçados,
seu bico eficiente
e sua truculência
garantem-lhe a sobrevivência
– para já não falar
da sua inumerável
descendência.

Até os japoneses
o conhecem
e têm-no pintado
com simpatia,
com profunda intuição
das suas características
mais insignificantes.

Nada
menos subtil
que os seus galanteios.
Agacha-se
perante a fêmea,
arrasta as asas,
valsa,
atira para trás a cabeça
e, por fim,
provoca um alarido.

O impacto é terrível.

O seu modo de limpar o bico
batendo-o
contra uma tábua
é contundente.
Como, de resto,
tudo o que faz.
Cor de cobre, as sobrancelhas
dão aquele ar
de ser ele sempre
o vencedor
– porém
eu vi, certa vez,
uma das suas fêmeas,
empoleirada com determinação
na borda
de um cano de água,
agarrá-lo
pelo cocuruto de penas
(para que não guinchasse),
prendê-lo,
suspenso das ruas,
até
que o recalcou.

E tudo isso

para quê?
Perplexa,
ali está ela agora suspensa
da sua própria façanha.

Ri-me com vontade.
Prático até ao fim,
o que de pois triunfou
foi o poema
da sua existência:
uma nódoa de penas
incrustada no chão,
as asas simetricamente
estendidas, como se voassem,
a cabeça desfeita,
o negro escudo de armas do peito
indecifrável:
a imagem de um pardal,
reles pasta seca de penas,
e ossos, e sangue,
ali deixada para dizer
– e diz
sem ofensa, duma forma exemplar:
Isto era eu,

um pardal.
Fiz
e dei
o meu melhor,
adeus.

ENTREMUROS

ao fundo
na ala
do hospital
onde
já carvão
nada despontará
verdes
brilham os cacos
de uma garrafa
partida

(Tradução de Zetho Cunha Gonçalves)

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