A migração dos muros

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Poema de James Noël

Não é todos os dias que se fala de muros Atenção, é um tema tabu, toda a gente finge dormir
Têm cabeça dura e estão avançados em relação à sua época O que nos dá material suficiente para montar, sem ajuda, um pesado dossier sobre a questão dos muros
A civilização dos muros chegou ao término Para que se tornem de novo viáveis, devem cair
Os muros têm um comprimento de avanço em relação a nós Não vale a pena procurar o número de pés que tem um muro Busca sem nível com uma bolha em profundidade O homem, transformado na imprecisão do seu polimento esfolado, pode empenhar-se em medir os muros com a alna do próprio fémur, para compreender a sua evolução e o seu caminho na história
Diante dos muros, as partes de muros, os muros para nada, os muros em massa os muros em declive elevado como uma piada, o mundo enreda-se rola a sua barca na farinha e enterra-se gravemente na teoria da argamassa e a prática da gravilha estrita A Terra desfunda e torna-se areia espalhada no asfalto
A proliferação de muros, a pluralidade de muros é um facto singular que exige um interrogatório expresso de todos os proprietários do mundo, todos os proprietários, pequenos e grandes Pluralidade de muros, atenção facto singular
Aquele que assumir um tão alto problema por baixo, acabará por resolver tudo sobre a questão dos muros Por osmose e desabamento inversos, chegará à condenação à morte do plano de estaleiro e poderá gravar a palavra gravilha, a palavra argamassa sobre uma estela
Os muros não têm moral Construíram um sistema fixo de base totalitária, como para fazer uma entrada estrondosa na humanidade em bloco, misturando todas as geografias, separadas em grupos de ilhas, ou numa amálgama incontinente de arquipélagos Em qualquer sentido, os muros não têm moral
Sólida ausência de laços, sólida ausência de cimento social das espécies e dos espaços Fortemente crítico o caso clínico do mundo aos pés do muro Desse lado duro da realidade dos muros, é a vida, à partida, que fica esmagada
Abordemos o capítulo do mundo, no fundo, é só uma história de muros
Quem disse que o esquadro era a infância dos instrumentos Um instrumento marcado desta maneira, ao milímetro, saberia ter uma infância
Um dia chegará um povo de pedreiros da última hora que se há-de virar num gesto único, em reptilário boomerang contra os muros Um povo de pedreiros, como novo instigador da destruição dos muros
Um povo de pedreiros caídos de pára-quedas das gruas no cio, para pôr fim aos impasses improvisados dos muros Um povo de pedreiros para acabar com a provisão de todas estas mãos que erguem os muros como cães-polícias, alçados com arame farpado à volta do pescoço
Um povo de pedreiros para acabar com a superpopulação dos muros, acabar com o seu striptease, a sua ideia fixa e outras alianças consolidadas com o aço Acabar com a arrogância de todos esses muros que tomam o arame farpado por colares de prata.
No reino dos muros, não faz falta alguém mais pequeno que nós, daí terem uma curta visão dos pregos
Contra os muros podemos opor bulldozers, mas outros pequenos muros nos esperam ao virar da esquina Um muro, mesmo não estando maduro, faz pequenos muros Uma existência coriácea e precoces, mesmo demasiado precoces, a existência coriácea dos muros
Existe uma nova migração muito mais forte que a dos fluxos que levam o sangue a mexer nas linhas em todos os sentidos dos hemisférios Uma sólida migração que massacra o campo livre do coração com golpes de barras de ferro
Os muros têm agentes duplos e quadros muito bem colocados no mercado Os muros não pensam, mas possuem um lote de crimes cegos cujos autores intelectuais chocam contra a miopia da justiça Os muros podem então dispensar-se de pensar com tantos autores intelectuais

James Noël é um escritor, actor, cronista e poeta prolífico, nascido no Haiti em 1978. A sua notoriedade precedeu a publicação do seu primeiro livro, graças a um poema: "Bon nouvèl, La Bonne nouvelle", uma homenagem aos pés das mulheres; musicado pelo cantor Wooly Saint-Louis Jean, o poema teve um enorme sucesso no Haiti.

Sentido da obra
Ele escreve, segundo diz, “para livrar o corpo de todas as palavras, de maneira a avançar no tempo mais leve que o papel.” As suas publicações valeram-lhe inúmeras distinções e convites um pouco por todo o lado. James Noël é considerado uma das vozes maiores na poesia contemporânea de expressão francesa. James foi apresentado como a revelação do ano em 2008, na antologia l'Année Poétique 2008, Edições Seghers.
Colaborou com revistas como Point barre (revista), Casa de las Americas, Exit, La Sœur de l'ange, Europe (revista), etc...
Poeta visionário, sabe ler nas entrelinhas: "Escrevo para ter notícias minhas ", excerto de um texto publicado na antologia 144 poètes autour du monde publicada pelas Edições Seghers em 2009.
Muitas vezes homenageado e lido em público, este poeta migrador encoraja igualmente a criação dos outros; animou oficinas de escrita em Port-au-Prince, em Paris, em Vincennes, em Nouméa e nas prisões, mais recentemente na penitenciária de Nanterre. Os seus textos são lidos e musicados por numerosas vozes das quais se destacam Wooly Saint-Louis Jean, James Germain, Robenson Auguste, Pierre Brisson e Arthur H no seu espectáculo intitulado L'Or Noir.
Com uma pena de dois gumes, as imagens difusas de James quebram vidros e espelhos. Uma poesia incisiva, com palavras talhadas para rachar. Entre um comprometido hino ao amor e uma cólera tempestuosa, desprende-se da sua poesia, como ele gosta de referir, "a metáfora assassina".
Fundou, juntamente com Pascale Monnin, a revista IntranQu'îllités, que é uma derivação de Passagers Des Vents, primeira estrutura de residência internacional no Haiti, criada com o objectivo de oferecer hospitalidade aos imaginários do mundo inteiro.

Obras em francês
Poèmes à double tranchant, Edições Farandole 2005, prefaciado por Frankétienne / Le chasseur abstrait 2009
Le Sang visible du vitrier Edições Vents d'ailleurs 2009
Rectoverso em colaboração com Dominique Maurizi, Edições Albertine
13
Des Poings chauffés à blanc 14, Edições Bruno Doucey
Kana Sutra Edições Vents d'Ailleurs, 201115, prefaciado porAnanda Devi
16
La Migration des murs 17, em colaboração com Fanette Mellier (designer), Villa Médicis, Setembro de 2012
Le Pyromane adolescente Edições Mémoire d'Encrier, Janeiro de 2013
18

Obras em crioulo
Kabòn 47, Edições L'action sociale, Port-au-prince, 2009 Haïti.
Bon Nouvel, Edições L'action sociale, Port-au-prince, 2009 Haïti.

Álbuns da juventude
La fleur de Guernica (primeira ficção sobe o sismo de 12 de Janeiro no Haiti), ilustrada por Pascale Monnin, Edições Vents d'Ailleurs.



James Noël, Julho de 2012

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