A voz igual

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Poema de Agostinho Neto, patrono da Academia Angolana de Letras

A voz igual
Agostinho Neto

Neste amanhecer vital
para os acontecimentos extraordinários
por montes e rios, por anharas e preconceitos
caminhamos já vitoriosos
sobre a condição moribunda

Um amanhecer vital
em que se transforma as sensações orgânicas
sobre o solo pátrio

As flores apenas pétalas e aroma
os homens apenas homens
o lavrador possuindo a terra em associação perene
o operário da fábrica consciencializado a máquina
e a nossa voz gritando igual no seio da Humanidade
na mesma hora em que a mentira
se esconde na covarde violência

Os homens saídos dos cemitérios da ignorância
das ossadas insepultas dos arrabaldes das cidades
nas sanzalas e nas terras estéreis
são os eleitos
os participantes efectivos no festim da nova vida
e das suas vicissitudes

Os homens
cuja voz descansou sob a condição e sob o ódio
e construíram os impérios do Ocidente
as riquezas e as oportunidades da velha Europa
mantendo os seus pilares sobre a angústia pulsátil dos braços
sobre a indignidade e a morte dos seus filhos
os homens sacrificados nos traços paralelos das vias férreas
cujo sangue se encontra nas argamassas
lançado com pontes e estradas
também prenderam as águas nas barragens
com as suas mãos formidáveis e com os seus mortos
deram ao brilho das metrópoles ouro e diamantes
e das entranhas da terra mungiram óleos e farturas
para os sorrisos ingratos
e na sua bondade na sua visionária esperança
pediram às estrelas
apenas o complemento espiritual do dia escravo
Povo genial heroicamente vivo
onde outros pereceram
de vitalidade inultrapassada na História
alimentou continentes e deu ritmos à América
deuses e agilidade nos estádios
centelhas luminosas na ciência e na arte

Povo negro
homens anónimos no espírito da triste vaidade branca
agora construindo a nossa pátria
a nossa África
e no traço luminoso dos dias magníficos de hoje
definem a África solidária e esforçada
contra os desvarios duma natureza incongruente
na independência
num mundo novo com a voz igual

chegada a hora das transformações cósmicas
que atingem a terra e catalisam os fenómenos
o raio mortífero da revolução
pulveriza a submissão do homem
e na força da amizade se encontram as mãos
se beijam as faces

Na hora das transformações humanas
o chilreio infantil da mocidade feliz
cantando em rodas ensaiadas pelos avós
falando nas nossas línguas a tradição da nossa terra

harmonizando as vozes na hora da independência
reconquistando o solo pátrio
para o nosso homem
preenche-lhe o vazio
Cantam nas praças e nos templos da sabedoria
as raparigas os poetas o brilhos das estrelas
mergulhadas as raízes no húmus ancestral da África

Chegados à hora
fervilha a impaciência nos corações que lutam
pelo fumegar das fábricas e chiar dos guindastes
homens e rodas, suor e ruido
conjugados na construção da pátria libertada
conscientemente na construção da pátria
sem que o germe da exploração lhe penetre
sem que a voz nauseabunda do capataz
anuncie o cair do chicote
e os homens felizes na incomodidade de hoje
nos campos de batalha, nas prisões, no exílio
construindo o amanhã, para uma terra nossa uma pátria nossa
independente
Construção
e
reencontro
Chegados à hora
caminha o povo infatigável para o reencontro
para de novo se descobrir e fazer
nas melodias e nos cheiros ancestrais
na modificação progressiva dos sacrifícios aos deuses
nas violências sagradas e nos ritos sociais
na revivificação e na carinhosa adoração dos mortos
no respeito do vivos
nas orgíacas práticas do nascimento e da morte
na iniciação da vida e do amor
no milagroso pacto entre o homem e o cosmos

Reencontrar a África no sorriso
no choque diário com os fantasmas da vida
na consagração da sabedoria e da paz
livres do constrangimento livres da opressão livres
Reencontrar-se nos campos de trabalho
na socialização
na entreajuda gloriosa nos campos
nas construções
nas caçadas
na colectivização das catástrofes e alegrias
na congregação dos braços para o trabalho
reencontrar-se nas tradições e nos caminhos feiticeiros
no medo no furor dos rios e cataratas
na floresta na religião na filosofia
a essência para a nova vida de África

Ressuscitar o homem
nas explosões humanas do dia a dia
na marimba no chingufo no quissange no tambor
no movimento dos braços e corpos
nos sonhos melodiosos da música
na expressão do olhar
e no acasalamento sublime da noite com o luar
da sombra com o fogo do calor com a luz
a alegria dos que vivem com o sacrifício gingado dos dias

Reencontrar
nos sagrados refúgios das horas de angústia
os homens perdidos nos labirintos alcoólicos
vícios da escravidão
e socorro extremo para a fome crónica
dos dias de frio e de calor de tristeza e de alegria
dos dias de farra e dos dias de rusga
dos minutos importantíssimos da existência imediata
imprevisível indispensável
com ódios amizades traições riso choro força
fadiga energia ânimo desânimo silêncio
ruídos de terramoto soltos pelas mãos
ansiosas de êxito e de esquecimento
e de sonoras palavras nas letras das músicas desesperadas
lançadas nos bailes de sábado sobre as poeiras dos quintais
e o desejo incontido de se realizar
de ser homem
de encontrar o calor supremo na superfície carnal do outro
a voz amiga na laringe longínqua do outro
afagando um pouco a vida
num artifício monstro da liberdade ansiada

Reencontrar nos álcoois
No sangue demoníaco das entranhas feiticistas da terra
onde se espelham os horizontes infernais da morte
e se cruzam razão e loucura
bílis amaríssima no encarceramento da prudência
e da capacidade
buscar nos álcoois
o amor à cultura à investigação à criação
à explicação do cosmos
o domínio da seta veloz sobre a vida do antílope
da água sobre as chamas ateadas pelo raio
a forma e o âmago
do estilo africano de vida

Do caos para o reinício do mundo
para o começo progressivo da vida
e entrar no concerto harmonioso do universal
digno e livre
povo independente com voz igual
a partir deste amanhecer vital sobre a nossa esperança.

Arquipélago de Cabo Verde
Ponta sol
Dezembro de 1960


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