CARNAVAL 2017: O adeus simbólico ao Presidente José Eduardo dos Santos

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Às 16 horas do dia 28 de Fevereiro, sentava-se na tribuna oficial do Carnaval de Luanda, na Nova Marginal, o Presidente José Eduardo dos Santos. Estava a começar a festa de despedida simbólica do Povo Angolano ao Presidente da República que permaneceu seis horas na tribuna oficial, acompanhando o desfile dos quinze grupos carnavalescos que brincaram na maior festa do povo angolano. A presença do PR na tribuna oficial completa todo o cerimonial do Entrudo da capital. Transmite um sentimento geral de partilha de emoções festivas entre o Poder e o Povo. Neste ano de 2017, ano de eleições, e quando José Eduardo dos Santos manifestou a sua intenção de se retirar da governação, o grupo União Recreativa do Kilamba foi o porta-voz do adeus ao cidadão que encarnou o espírito da Paz e das conquistas já alcançadas na edificação da nação angolana.

CARNAVAL 2017: O adeus simbólico ao Presidente José Eduardo dos Santos
Presidente da República diz adeus ao Carnaval 2017 Fotografia: Jornal Cultura

DO LARGO DA PORTUGÁLIA
À NOVA MARGINAL

De caminho a pé até à Nova Marginal, deparámo-nos com um personagem muito ­caricato. Seu nome é Pacheco, motorista de táxi candongueiro. Traz a cabeça emplumada por uma peruca colorida e no rosto uma máscara. É taxista há dois anos. “Gosto do Carnaval, porque é movimento”, diz Pacheco, sob o olhar vigilante do seu cobrador, que nos olha da outra janela do Hiace.
No passeio ao lado, está Toya, de 32 anos, zungueira há 18, que nos diz: “Se mascarei hoje por causa do Carnaval. Gosto muito do Carnaval. No meu bairro Piaget, lá em Viana, não se dança o Carnaval. é um bairro muito vazio”. Por isso, veio até à Baixa, a aproveita para vender máscaras, fantasias e perucas, que compra no S. Paulo.
Já na entrada da rua estreita que dá para a Praia do Bispo, deparámo-nos com Pedro Bravo, 31 anos, coberto de verde e transportando um barquinho verde na mão. A sua fantasia é inspirada no mar, pois é pescador. “Vou desfilar na Marginal”, informa, “gosto muito de ver a dança...”
Pelo caminho, fomos admirando os aficionados do Carnaval da rua, velhos, adultos, jovens, crianças todos convergindo para a Nova Marginal, a euforia subia de tom, apesar do calor infernal de Fevereiro, nas margens da estrada, as barracas de comes e bebes e de venda de adereços de carnaval, as zungueiras de bolas de Berlim, os polícias atentos, algumas alegorias já em pré-disposição combativa e, já perro das tribunas, os jornalistas a postos, os membros do júri comandados por Carlos Lamartine na sua tenda enorme a almoçar, as imensas coisas pequeninas que fazem dançar um povo.
Por volta das 15 horas, os dirigentes chegaram à tribuna oficial, já o ar quente daquele 28 de Fevereiro de 2017 era posto ao rubro com a frenética batucada que começou a sair dos altifalantes da tribuna da imprensa, sob a batuta de Afonso Quintas.

UNIÃO AMAZONAS DO PRENDA

O som do ngoma evoca as grandes tempestades. A chuva chorando. O chuvisco vindo devagar. Às vezes, o orvalho tem feitio de hungo e humedece o concerto. A dikanza lembra o descascar do milho, o estalar das espigas no fogo da noite dentro da cubata. A puita é sinal de pássaro no oco imbondeiro. Os 17 percussionistas dos grupos Hidi Makaji e Semba Muxima, ali presentes na homenagem ao Amazonas do Prenda, trazem todos esses sons para a Nova Marginal. So a brincar se faz um Carnaval. O mar quieto da Chicala sabe sentir o ritmo dos corações embalados frente à tribuna. A cimeira do Memorial Dr. António Agostinho Neto observa, lá do alto, o vaticínio “ao nosso Carnaval, havemos de voltar”, desvanecer-se no Agora. “Aiué, mu kua sanzala mamé, wandala ku tu jiba, wandala ku tu beta”, assim começa a canção do grupo homenageado.
Entram no desfile, primeiro os pioneiros de branco, ordenados pelo mestre Mboloy. A seguir, vêm os jovens à pescador, com, lenços, panos cruzados no tronco e panos amarrados à cintura, às riscas rosadas. Ao lado, as raparigas multicolores.
“Mu ngongo mumu, wavula o jita uá, mu ngongo mumu, wavula o jisunji”, continua a voz do cantor. Vermelho, branco, verde fluorescente, chapéus laranjas, são as cores dominantes, bolinhas multicolores nas saias das mulheres, e a fechar, lá vêm as quitandeiras da fruta, besanganas de panos de um rosa desmaiado e quimones e lenços azuis. Outras trazem blusas amarelas, roxas, rosa-claro, verde, e bacias de fruta enfeitadas de panos às cores. No final, já esquecidos do semba, entra a falange de apoio.

UNIÃO RECREATIVA
DO KILAMBA KIAXI

Pela primeira vez no Carnaval, o Uniaõ Recreativa do Kilamba Kiaxi, entra com dez xinguiladoras, secundadas por gentios e jovens vestidos de azul dourado. Trazem um comandante bem alto de barba rala como nos filmes de aventuras no deserto, com um traje real, beije com galões e fitas douradas, quepe de aviador e um apito que faz circular os dançarinos de branco com fitas douradas. Este vem à frente do carro alegórico de onde sobressai a figura do Presidente José Eduardo dos Santos, um avião da TAAG e a pomba da Paz. Os dignitários vestem as cores tradicionais, e há outra ala de dançarinos bem faustosos nas suas vestes, às cores laranja forte, azul, amarelo, rosa com aventais coloridos, cartolas também coloridas nas cabeças.
A rainha do Kilamba é alta, vestido largo, branco no peito e arco-irisado na saia, com mangas amarelas, cabelo desfrisado, a segurar uma coroa. As baiularinas trazem espelhos redondos nas mãos e a dança faz o retorno entrecruzando-se com os idos, qual flores ao vento, lá vem a orquestra e, no final, as quitandeiras à besangana com banheiras de metal e de plástico, vendendo peixe seco e frutos da terra, de abanos nas mãos. É a hora de ver entrar uma dúzia de rapazes a dançar no slogan “kuduro não morreu”. A canção cita da crise, mas, mesmo assim, “etu tu kina ngó” (dançamos só). No final entra uma falange de corneteiros e operários, duas motas do tipo “avó chegou”, uma lanchonete, e a voz de Patrícia faria, a cantar o refrão “o ku kina ngó”, brinde deste grupo fundado em 27 de Junho de 2015.

UNIÃO KAZUKUTA
DO SAMBIZANGA

O tema dos kazukuteiros do Sambila é o Beiral, os velhos e o abuso do poder dos filhos. No princípio há um guarda-chuva preto, na mão esquerda de um jovem solitário vestido de fato branco, na mão direita a bengala da praxe da kazukuta. A alegoria é paupérrima. Para amenizar o sofrimento, entram dois dançarinos grávidos de cartola preta e bangala, o grupo só traz um gentio secundado por um menino de vermelho. O azul predomina nos casacos. Os chapéus azuis, as calças azuis com listas brilhantes.
Logo a seguir vê-se uma chuva de guarda-chuvas pretos e arte de dançar kazukuta enche os olhos da multidão. A corte real tem 9 dignitários, elas todas de véus compridos, nas saias e aventais os símbolos grandes de copas e mota de Angola, mais dois para-médicos, à guarda está outro gentio, repleto do pó das muitas guerras do kwata-kwata.
Um pelotão de dançarinos de saias samacaca e blusas amarelas, impõe o símbolo do carnaval clássico luandense. Na banda musical vem o infalível corneteiro vestido de amarelo às bolinhas pretas e as imprescindíveis quitandeiras da fruta com panos castanhos a sobressair. Bem no final vem a falange de apoio, tão extensa como o peito obscuro e luminoso do Sambizanga.

UNIÃO SAGRADA ESPERANÇA

Com o semba a estilar, e o tema do Processo dos 50, chega do Rangel uma xinguiladora vermelhíssima de panela cheia de carvão na mão. Pula que pula. Seis mamãs e uma jovem xinguilam na peugada da primeira. Uma quianda roda a bandeira do grupo. Traz saia varina esalto alto e um sorriso a matar. A alegoria é fraca, com a cadeia de S. Paulo muito vazia de ilustração, lá de trás surgem os dançarinos vestidos de vermelho e branco.
O séquito real tem quatro elementos. Surgem outras dançarinas com saias aos folhos de cor amarela, branca, verde, azul brilhante. Os reis a seguir, com seus generais de branco. Uma terceira avalanche de dançarinos surge, enquanto o batuque ritima a entrada das quitandeiras de panos verde explícito ou de um branco manchado de rosas vermelhíssimas, trazendo à cabeça quibutos, além das tradicionais banheiras e bacias.
No fim entra a falange de apoio com a memória do bairro Rangel agarrada aos pés.

UNIÃO KIELA

Velho grupo desde 1947, dança os feitos da Mulher na Sociedade Angolana, com passadas de semba: “Ta lenu ngó o kituxi ki ngabanguié!”, lamenta o refrão da canção. Nisso, uma dama avantajada abre o desfile, toda ela sensual montada numa mota. Uma mãe xinguila, um gentio afia a lança no vento e o cartaz diz que o grupo traz a dança das peixeiras do mercado do S. Paulo, deixando antever um carro simplesmente expressivo. Doze elementos da corte, os dançarinos vestem rosa-choque e azul entrecortado, a música de Lurdes Vandúnem faz-nos recordar que “Vale a pena ser mulher”.
A coreografia deste grupo é rodopiante, embalada pelo som cáustico da corneta. É a hora das quitandeiras de frutas, os panos que trazem recordam o dia 8 de Março, dia de todas as mulheres, quimones e lenços azuis e atrás dançam jovens à pescador de camisolas brancas.
A apoiar, vem toda uma candengagem entusiasta a exibir euforia, símbolo de uma Angola a mudar e passa uma carripana só para o corneteiro soprar a corneta alongada pela mangueira de plástico. É assim o União Kiela.

UNIÃO POVO DA SAMBA

“Ngongo yá mamã” retrata o sofrimento de uma mãe que perde o filho por doença, conforme retrata a alegria sobre o camião. Duas jovenzitas empunham a bandeira, passam pescadores de panos a tender para o castanho e o rosa desbotado, lenços e redes ao pescoço, mas um deles empunha um luando onde os pescadores gostam de se banquetear com os seus caldos. A dança mistura duas quitandeiras, um homem da corte real e depois surge o séquito real com alas de dançarinos de branco, depois é ver as mulheres de amarelo e branco, homens de branco com tiras vermelhas nas calças e punhos dos casacos e fitas dos chapéus. Há uma mulher de apito na boca a chefiar as quitandeiras de fruta, são elas besanganas exuberantes nos seus panos azuis entrecortados de óvulos cor de cinza.
Um mais-velho à pescador no centro dá largas à sua passada. é um mágico da massemba e põe asas nas mãos. Dança para a eternidade.
A vocalista principal é uma mais-velha de luto acizentado e óculos escuros: “Mamá udila ngó, ubanza ngó!”, os dançarinos se esmeram, chapéus vermelhos de verão com rodapé branco (elas), chapéus brancos com rodapé vermelho (eles). O dançarino solitário se esfrega no asfalto. A banda musical é composta de três batuques, duas latas de leite vazias.
Visto de cima, o desfile é uma nação que passa, é uma nação que dança, é uma nação que canta, é uma nação que sonha.

UNIÃO 10 DE DEZEMBRO

Tem como tema o registo eleitoral. Um grupo muito pobre. Safaram-se com o que tinham para as vestes de carnaval – quepes e coroas de papelão para os dançarinos, os casacos grudados com fitas de árvore de natal.
Com apenas oito quitandeiras, cada uma vestida à sua maneira, Pedro Vidal, o velho comandante ainda dá cartas. A coordenação é perfeita, na configuração dos passistas no terreno. Nota-se sincronização de movimentos, gestos e posicionamento. Pobres na indumentária, ricos na coreografia.
A dança do grupo 10 de Dezembro devia ser um dia apresentada num fórum das Nações Unidas ou da UNESCO, com adereços melhorados, é óbvio. Tem movimento e animação, corpus de uma alma que é a música e o ritmo.

UNIÃO 54

Nascido a 5 de Junho de 1954, o semba dançado faz homenagem ao próprio Carnaval. A batida peculiar do batuque cataloga nos céus a purac tradição. dez xinguiladoras à frente do carro alegórico pouco apetrechado e alguns gentios. Xinguilam 10 mulheres. O som mudou de rítmica. Agora é mais frenético. O movimento corresponde e é ver os dançarinos ondular sobre o asfalto como numa maratona de marcha acelerada. Predomina o vermelho escuro e baço das vestes, com algum branco e amarelo. As alas de dançarinos repartem com o séquito real contextos anímicos no palco do asfalto. A criatividade prima pela dinâmica dos gestos e o entrosamento dos dançarinos. O União 54 conseguiu preencher os 25 minutos com variações, levando os espectadores ao delírio. Três pares de jovens, frente à tribuna presidencial, fazem jus aos seus dotes de semba de salão.

UNIÃO MUNDO DA ILHA

O cartaz dos dançarinos da Ilha prega a diversidade da economia. Semba a abrir um gentio vestido de grande tábuas de peixe seco. O carro alegórico exibe o Cristo-Rei, a Fenda da Tundavala, as quedas de Kalandula, a fortaleza de S. Miguel, igrejas históricas, o edifício do BNA, uma zebra e uma palanca real. Outro mais pequeno exibe o espaço da Bela Mar, Casa de Peixe, com uma família de expatriadosa comer. O MUndo da ilha traz xinguiladoras de verdade, uma delas a se enrodilhar toda no asfalto, um Zorro todo preto com dois colts. O comandante é bonito de se vestir. fato branco com ombreiras reluzentes e luvas brancas. Os nobres do reino e os enfermeiros guardados por duas amazonas de lanças nas mãos.
A ala dos dançarinos de azul com enfeites e camisas brancas de mangas compridas e chapéus brancos são como o mar azul a espumar ao meio-dia.
Buébueré de quitandeiras de peixe bem fresco nas banheiras de plástico.
O ritmo é bem compassado e leva as dançarinas na passada do semba, com seus chapéus brancos e rodapés pretos. O comandante cobre toda a superfície da brincadeira de carnaval.
O Mundo da ilha traz na alma todo o ritmo das águas salgadas e das areias transmórficas da Ilha de Luanda, na sua homenagem aos pescadores que vêm em cardume, e as quitandeiras de peixe fresco, peixe seco e marisco cozido. Trazem panos a tirar para o roxo esbatido, umas às riscas cruzadas e outras às flores miríades, os quimones mais uniformes nos seus tons roxo e rosa. Mas um grupo de seis quitandeiras já mais-velhas se veste à sua maneira, com panos cruzadosa descair. Passa a juventude de camisas vermelhas e saias-calças e jogadores de futebol dos trumunos de sábado nos areiais finíssimos. Depois, fecha a brincadeira a maior falange de apoio.

UNIÃO OPERÁRIA CABOCOMEU

Outra vez a kazukuta, a levar à Nova Marginal o tema da falsificação do dinheiro. São os dançarinos da União Operária Cabocomeu, com a sua alegoria do BPC vestida de samacaca, o vocalista a solo, depois os guarda-chuvas pretos e os kazukuteiros na dança do rodopio, bengala a servir de eixo, sob a batuta de um comandante já mais-velho e sabido. Os dançarinos vestem calça branca com lista da cor da casaco aberto ao meio e seguro por uma cinta vermelha e chapéu preto.
O séquito real é composto de seis membros apoiados por duas enfermeiras. Surge uma ala de dançarinas com saias aos folhos largos em azul e branco, ou roxo e branco, camisas brancas, coletes azuis e roxos e chapéus brancos.
“Mu Angola uala ni ifumbe uolo banga o kitadi” (em Angola há monstros a fabricar dinheiro) vai cantando o refrão da música, enquanto passam as quitandeiras da fruta e legumes.
A noite entra, são 20 horas, o céu está fechado, as estrelas são os petizes que sorriem nas bancadas, os jovens de apoio não são lá muitos para a grandeza do Cabocomeu.

UNIÃO JOVENS DA CACIMBA

“Kamba dya muenhu” (amigo da vida) é o mote da canção deste grupo que traz meninos armados em genstios, saias de fios. O jovem comandante de calça vermelha super-brilhante, o carro alegórico nem por isso, doze elementos do séquito real vestidos de cores desbotadas. Os dançarinos de vermelho e branco, chapéus vermelhos reluzentes fazem uma grande roda móvel em redor dos reis. e a Nova Marginal torna-se imparável. Separam-se em três alas com os reis à frente. O som bate forte e faz tremer o vento.

ETUMUDIETU

Pondo semba na passada, este grupo traz uma homenagem ao povo da Ilha de Luanda, traz xinguilamento com fumo de afugentar maus espíritos, gentios munidos de catanas e lanças e índios com penachos na cabeça.
Um batuque seco e repetitivo encanta uma canção falada em jeito de rap.
Segue-se uma composição rítmica mais conjuntural e movimentada, a acompanhar, os dançarinos de camisolas brancas e panos roxos e as besanganas de vermelho deixam-se embalar na noite iluminada. Há vinte membros da corte, em cima de cada elmo trazem um peixe vermelho às riscas.
O séquito de apoio é extremamente longo.

UNIÃO JINGA MBANDI

É o único na dança cabecinha. São 21 horas quando entra o seu carro alegórico, com o tema do registo eleitoral, carro muito reduzido em termos conceptuais e de montagem figurativa.
Seis membros da corte real, dois para-médicos, quatro alas de dançarinos em fila indiana, eles de azul e vermelho, de saias curtas aos folhos e elas de camisas e saiotes tecidos às cores a envolventes.
O rei organiza a dança frente à tribuna, fazendo soar o apito, traz um casaco branco com palas douradas, saiote às cores, sapatos e meias brancos.
Os grupos misturam-se em razão dos sexos e formam três alas que variam da dança de roda à dança reversível (idas e vindas num mesmo ângulo da avenida). Mas a dança cai numa certa monotonia. A banda sonora atravessa a pista com dois enormes batuques. O comandante conduz agora as quitandeiras de fruta (o maior desfile jamais visto no Carnaval, com mais de 200 mamãs de quimone e pano à cintura, de tom amarelo claro preenchido de pinceladas azuis verdes) levando à cabeça vegetais e muita banana: “É preciso trabalhar, é preciso produzir”.

UNIÃO 17 DE SETEMBRO

O tema da canção é uma homenagem ao próprio semba. O cantor aparece isolado, vestido de casaco vermelho, calças pretas, seguido do placard que diz :# O semba não é só dos kotas”. O 17 de Setembro tem gentios, tem dançarinos e dançarinas de branco e vermelho, com saias compridas brancas de roxos motivos, blusas e casacos brancos. A corte apresenta dez membros, com os véus a esvoaçar porque o vento é mais comprido, já são vinte e uma e trinta, os holofotes varrem as sombras do recinto, o batuque, aliado à dikanza, faz as damas rodopiarem as ancas e os homens arrancar passadas saltitantes alternadas com o mover da cintura.
Poucas quitandeiras, cada uma com a sua indumentária se misturam com as bacias de fruta e legumes à cabeça. O rei e seus pares são os que mais dançam frente à tribuna presidencial. O comandante barbudo parece saído do filme “Os Piratas das Caraíbas”, com um casaco verde-sal.
Dança-se com paixão outra vez na Nova Marginal. É o que fazem duas quitandeiras de panos riscados e blusas multicoloridas. Do outro lado, três operários chineses sorriem. Parecem nosso povo. Um deles veio de camisola “parte-os-cornos”. Este o sortilégio do Carnaval: criar empatia universal. Só não o levamos lá fora, talvez por causa do petróleo que, esse, sim, vai longe.
Lá atrás, na falange de apoio, há brincadeira a sério. Mascarados, descamisados, sacudidos, são largas à sua folia, numa alegria contagiante. Passa na escuridão um dronezito fílmico.

UNIÃO TUABIXILA

São 21:45 h, quando é enunciado o último grupo do desfile competitivo, que dança dizanda e traz a canção sobre “Eleições kima kiambote” (as eleições são coisa boa). É o União Tuabixila, de Viana, que avança com um dançarino prateado com espelhos no chapéu e uma panela de fogo a fumegar. O carro alegórico representa a Comissão Nacional Eleitoral. Muito fraco.
Os dançarinos estão bem trajados, reluzentes, cores de esmalte fluido, vestem saias de varinas e camisas com cristais luzidios, lenços translúcidos na cabeça e alguns com boinas pretas.
Oito membros da corte, com elmos singulares e dois paramédicos, bailarinos jovens de um azul lavado das vestes aos lenços, onde sempre imperam os espelhos circulares.
A seguir, as besanganas de azul riscado e florido, mas sempre azul desbotado. Este grupo fugiu das cores berrantes. Pedem-nos um olhar diáfano.
A rítmica é forte, a voz feminina que canta é persuasiva, lá atrás um dançarino de pernas finas dança com as mãos no asfalto. Os dignitários da corte vestem trajes de um azul e ouro profundo, cores sóbrias mas imponentes. A cantora vem vestida a modos de mukixe, com capim seco solto sobre as vestes e os pés.
Fecham o cortejo as besanganas de bandeiras brancas, a simbolizar Paz eterna nos corações.
E eram 22 horas, quando o júri começou a depositar os boletins na urna, mas o Carnaval ia continuar com dois novos blocos de animação: os Unidos do Primeiro de Agosto e o Bloco Laranja da UNITEL.

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