Dois poemas de Agostinho Neto

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Poemas de Agostinho Neto

Dois poemas de Agostinho Neto
Dois poemas de Agostinho Neto

BOOGIE-WOOGIE

Canta, Calloway
geme os teus sons roucos
que se vão estrangular no
vácuo da vida
Canta, Armstrong
grita em músicas alegres
tuas finais de choro.
Canta, Robeson
tua música ambígua
triste, alegre, triste.
Saxofones,
clarinetes de Harlem
África
multidões, cantai!
Contai a vossa história
em audazes ritmos
de antifonias soluçantes.
Cantai
mostrai-me os fragmentos
de corações quebrados
nas síncopes musicais
captadas
das florestas do Congo.
Cantai
vossos ritmos
respirados ao luar
quentes como a luz sensual
das fogueiras
tristes como o vosso drama.
Entoai
vossas orgias de sentimento
história triste duma raça.
Ó mágicos do som,
contai a nossa história.

BAILARICO

Vamos dançar
dançar
dançar
que amanhã é feriado
ninguém trabalha.
Haja alegria,
alegria.
Mais uma rumba
uma conga
um semba
nada de valsas
não queremos slows.
Venha o ritmo
do nosso batuque
no som da orquestra de Xavier Cugat.
Tudo dança
minha gente.
Não há cerimónias
podem dançar sem gravata
sem casaco.
Não há aqui ninguém
para nos acusar de selvagens.
Vamos descansar um pouco
dancemos à vontade.
Dancemos
até os nossos sentidos
só perceberam a dança
e o perfume do nosso par
e o ritmo do nosso batuque
no som da orquestra de Xavier Cugat.
Só dança
só alegria.
A vida são dois dias
e amanha
podemos ir a São Tomé.
Vamos Maria Rosa
remexe-me
essas cadeiras
rapazes da música
rebentem-me com aquele samba
do outro dia.
Alegria!
Rapaziada, animar!
Tudo dança
Minha gente.
Dançar até as oito horas da manhã
Ao ritmo do nosso batuque
que hoje é o dia da alegria
alegria
alegria
só alegria.

    1948
(do livro AMANHECER

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