Entre Veteranos e Estreantes

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Disputa renhida na classe B na busca por um lugar ao sol

Entre Veteranos e Estreantes
União Cassule Fotografia: Jornal Cultura

Palmas para a classe B. Desde estreantes, como o Unidos do Zango, até veteranos, como o Angola Independente, com três títulos na sua galeria, os grupos provaram que estão aptos a ocupar um lugar ao sol no desfile central do Carnaval, em 2018.
Como aconteceu, no sábado, dia 25, no desfile da classe C (infantil), a disputa pelos melhores começou horas depois do horário previsto. A organização voltou a justificar a decisão pelo calor que fazia. A maioria chegou horas antes, porque tinham noção que o desfile começaria às 15h30. A pausa durou uma hora e meia. Neste tempo, os ensaios e últimos acertos foram feitos.
Com experiência de “outros carnavais”, aonde se impôs, o União Angola Independente foi o primeiro a passar. Os hábitos e costumes do Bengo foi o tema escolhido, em parte, disseram os membros do grupo, porque a maioria dos habitantes do KilambaKiaxi têm as suas raízes assentes nesta província, assim como o seu “patrono”, António Agostinho Neto.
A ideia, pela letra da canção, era ensinar as pessoas a preservarem mais as suas origens, assim como investigar e divulgar os costumes de cada zona. Luanda, justificaram, é uma província com muita diversidade étnica e linguística. Nesta era moderna, acrescentam, os seus habitantesprecisam ter um maior conhecimento desta, de forma a garantirem as suas culturas num futuro vindouro. Em 20 minutos, o grupo soube justificar as semanas de ensaio.
O grupo seguinte na ordem do desfile seria o União Domant. Porém, devido a problemas técnicos com o seu transporte, não conseguiram chegar a tempo. A organização teve de alterar a ordem e chamar os Jovens do Mukwaxi, da Maianga, para o substituir e dar continuidade à festa.
Outrora um dos grandes, os Jovens do Mukuaxi mostrou a sua grandeza, num tema onde chamou a atenção da sociedade para a importância de recordar os país, as suas riquezas e potencial. Com o tema “NguilembalalaNgola”, o grupo deu um espectáculo à sua altura na pista da Marginal.
O DimbadyaNgola foi o grupo seguinte, dando continuidade à ordem do desfile. Este ano decidiram render homenagem ao Presidente da República, José Eduardo dos Santos, pelo seu contributo no crescimento do país, assim como apelaram para uma distribuição equitativa das suas riquezas.
Com uma ala das peixeiras e zungueiras e outra de bailarinas, o grupo levou uma alegoria onde saudou o Governo da Província de Luanda, lembrou a actual fase de reconstrução que o país atravessa, apesar das dificuldades financeiras, com novas escolas, pontes e maternidades.
Chamar a atenção das pessoas para a discriminação social das pessoas deficientes foi o “grito” de alerta do Giza, do Rangel, que fez ainda menção à segregação feita aos seropositivos e a todas as pessoas portadoras de doenças. “Cada um tem a sua maneira de viver” era o refrão da letra do grupo, como forma de avisar as pessoas para respeitar mais o seu próximo e as suas decisões, apoiando-os quando necessário. A “campanha social” do Giza levou o público a os apoiar, aquando da sua passagem pela pista, com o seu semba. No final ficou o “recado” do grupo que incluiu na sua lista os obesos e todas as pessoas criticadas pela sua maneira de ser.
Depois foi a vez do grupo estreante desta edição, o Unidos do Zango, mostrar o seu valor. Para tal, o grupo fez uma homenagem às mulheres lavadeiras, que com esforço e empenho ajudam muitos lares do país, principalmente da capital, a manterem-se unidos e sustentáveis.
Ao lembrar de uma “ocupação” pouco valorizada no país e cujas fazedoras chegam às vezes a serem descriminadas, o grupo prestou o seu tributo às mulheres angolanas, pela coragem de lutar todos os dias pelo bem da sua família. Vestidas de bessanganas, peixeiras e zungueiras, o Unidos do Zango lembrou também o dominó, um estilo de dança do Carnaval de Luanda, há muito esquecido.
As obras no país e os ganhos da reconstrução foi o tema escolhido pelo Café de Angola para conquistar o título este ano. O grupo foi à Marginal “com tudo” e nas suas cores vivas recebeu inúmeras ovações da plateia durante a sua passagem.
Hospitais novos, estradas reabilitadas, mais escolas e pontes melhores foram os pontos dominantes de um grupo que procurou ainda enaltecer o esforço dos angolanos na sua preparação do futuro das gerações vindouras. Apesar das dificuldades financeiras que tiveram durante os seus ensaios, o grupo mostrou o seu “amor pela festa do povo”.
O União Imbondeiro do Cazenga foi o grupo seguinte. O saneamento foi o seu tema, por ser uma preocupação que afecta todos os luandenses. Com uma coreografia bonita, onde o verde despontava, o grupo fez uma chamada de atenção à sociedade para a importância de se dar maior atenção a este tema.
A alegoria do grupo foi uma prova da importância do seu tema. O assunto que hoje tem sido bastante debatido pela sociedade angolana, devido à implantação da taxa do lixo e ao facto de a falta de higiene ter consequências graves, foi bem recebido pela plateia.
O grupo seguinte fugiu um pouco da “rotina” dos demais e, ao invés dos problemas sociais, preferiu falar da escravatura. Com este tema, que durante anos, afligiu milhares de africanos, em geral, e angolanos, em particular, o União Unidos do KilambaKiaxi fez a sua entrada pela pista da Marginal da Praia do Bispo.
A escravatura, justificaram na sua letra, foi um dos males que muito assolou o país e o continente, com milhares dos seus “filhos” a serem levadas para as Américas e outros continentes, onde, apesar do sofrimento, conseguiram manter as suas culturas, assim como influenciar as vigentes, um marco conquistado num dos piores actos perpetrados contra os africanos.
Por coincidência ou não, o grupo seguinte a desfilar após os Unidos do ­KilambaKiaxi apresentou uma temática aproximada à destes: a liberdade. Era a vez do Domant, que tinha de ser o segundo na ordem do desfile, justificar o seu atraso e tentar compensar os pontos perdidos, com uma coreografia singular e um tema baseado num poema de Agostinho Neto.
A liberdade, disse Nuna, que estava preocupada em se desculpar e começar logo a desfilar, é um direito único que trouxe inúmeras benesses aos africanos. O sonho de liberdade, acrescenta, deu a independência à maioria dos países africanos. Para ela existem momentos e sentimentos que não podem ser esquecidos pela próxima geração.
Embora tenha sido enquadrada em nono lugar na ordem do desfile, o grupo que ocupava a posição seguinte após o Unidos do KilambaKiaxi, o União Kwanza, entendeu e num gesto de solidariedade deixou o Domant desfilar primeiro. Porém, passado o momento do Domant, de Cacuaco, foi a vez do União Kwanza, no estilo cabecinha provar o seu valor. O grupo, o único executante da cabecinha no desfile da classe B deste ano, fez um elogio ao país, num tema onde mostrou a importância das pessoas terem Angola no coração.
Para o grupo, esta fase de novas tecnologias e de fácil aculturação dos jovens são temas que os ajudam a reflectir sobre o valor da cultura e da tradição, bem como da sua preservação e maior divulgação.
A reconstrução do país também foi o tema do Twafundumuka, o grupo seguinte no desfile. O tema, que serviu para a maioria destes elogiar os ganhos desta reconstrução na vida da maioria dos cidadãos, teve boa recepção entre o público, facto testado pelos assobios aquando da passagem do grupo.
Uma peculiaridade no desfile do Twanfundumuka foi a homenagem que fizeram àAngop, a agência de notícias nacional, em particular, e todos os órgãos de comunicação, no geral, pelo seu papel na difusão da actual grandeza do país. A Angop, explicaram, recebeu uma atenção especial, porque foi o seu patrocinador oficial.
A traição, um tema muito frequente na sociedade angolana moderna, foi a canção escolhida pelo Geração Sagrada para convencer o júri e o público. Baseado na história de um homem cuja mulher o engana, o grupo alertou as pessoas para o fenómeno e a sua preocupação pelo facto deste estar a tornar-se maior e a ter proporções alarmantes entre os jovens.
Com o semba no pé, o antepenúltimo grupo a passar pela Marginal da Praia do Bispo fez ainda um enfoque para as consequências deste fenómeno na vida das pessoas, em especial os jovens.
O penúltimo grupo, vindo de Viana, foi o Juventude do Kapalanga. Alunos da escola do mestre Desliza, o grupo alertou sobre o ritmo da kazukuta, o crescimento do fenómeno “mata aulas”. O objectivo foi sensibilizar as pessoas a ajudarem a combater este mal que “assola” a maioria das escolas e é praticada maioritariamente por adolescentes e jovens, o que é preocupante por serem os futuros quadros do país. Para o União Juventude do Kapalanga é preciso a sociedade prestar mais atenção a educação das crianças e jovens, de forma a termos quadros melhor preparados para os desafios que o país irá enfrentar.
A responsabilidade de encerrar o desfile da classe B coube ao União Geração do Mar. Dançarinos do semba, o grupo abordou a problemática da fuga à paternidade. Para o União Geração do Mar o tema é actual e tem sido a principal causa de fragmentação de muitas famílias angolanas. Como um problema social crescente, a fuga a paternidade, explica o grupo na sua canção, tem sequelas únicas, que, às vezes, podem tornar-se dramáticas.

Aos organizadores

Se um alerta social encerrou, no domingo, 26, os desfiles competitivos da classe B do Carnaval de Luanda, outro deve ser deixado para os responsáveis pela organização da maior “festa do povo” para que o próximo ano tudo corra melhor.
Depois de semanas de ensaio este ano, assim como aconteceu noutros, os atrasos na entrega do material e das verbas voltou a acontecer. Apesar da responsabilidade não recair apenas aos organizadores, mas também aos gestores dos grupos, é preciso que sejam criadas “medidas melhores” para atenuar tais situações, pois a maioria dos grupos trabalham quase sem nada e depois começa o jogo de “apontar o dedo” ao culpado.
A questão abertura do desfile que este ano foi adiada para as 17h00, devido ao calor, uma decisão acertada, mas tardia, porque muitos grupos já estavam a “derreter”, com este mesmo calor, na pista da Marginal, deveria ser tomada mais cedo. Alguns responsáveis dos grupos acreditam que, caso tivessem sido informados da alteração mais cedo, poderiam ter criado condições apropriadas para os dançarinos, assim como a sua preparação.
Outro senão passa pela educação cultural das pessoas. Durante os dois dias dos desfiles da classe C e B era visível a ausência de público. A falta de interesse retira parte do brio e esforço de quem ensaia com afinco por meses para mostrar o seu talento e amor pela cultura na Marginal e acaba por não ter uma “plateia de respeito”.
A questão da logística é outro ponto negativo a ser superado, mas esse não passa pela organização do Carnaval, mas sim dos grupos. Cabe a estes prestarem maior atenção aos seus dançarinos e dar a devida atenção a estes, porque é o trabalho deles que garante o êxito de todo o grupo.
No desfile da classe C, principalmente, era comum ver várias crianças a dançarem descalças. Um erro que não pode voltar a acontecer.

Elogios e pontos

Apesar de falhas a festa também teve muitos pontos positivos da parte da organização. Aspectos como a iluminação e a segurança das pessoas e dos grupos foi garantida. Os serviços de bombeiros, a Polícia Nacional e as unidades de saúde móveis merecem nota máxima, assim como toda a estrutura responsável por esta edição do Carnaval, que deram também mais oportunidades aos pequenos negociantes. Os balneários móveis voltaram a ser uma realidade, assim como os pontos de venda de comida e bebida. Os serviços de fiscalização também lá estiveram para assegurar que os menores não consumissem bebidas alcoólicas ou ocorressem falhas administrativas na estrutura montada pela organização do Entrudo.

ADRIANO DE MELO |

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