Estrela Pequenina

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Poesia de Maurício de Almeida Gomes

Tocadores, vinde tocar
marimbas, n’gomas, quissanges
vinde chamar nossa gente
p’rábeira do grande Mar!

Sentai-vos, irmãos, escutai:
precisamos entender
as falas da Natureza,
dizendo da nossa dor,
chorando nossa tristeza.

Ora escutai; meus irmãos:
aquele sol no poente,
vermelho como uma braza
não é sol somente. Não!
é coágulo de sangue
vertido por angolanos
que fizeram o Brasil!

Ouvi o mar como chora,
Ouvi o mar como reza…

Olhai a noite que chega,
veludo negro tecido
de mil pedaços de pele
arrancados a chicote,
ai! Cortados a chicote,
do dorso da nossa gente,
no tempo da escravatura…

Noite é luto
de que Deus cobre o mundo
com dó de nós…

Disco de prata luzente
sobe ligeiro no espaço.
Sabei que a Lua fulgente
Contém lágrimas geladas
Por pobres negros choradas…

pergunta-me a multidão,
sentada à beira do mar:
- agora dizei, irmão,
Aquela pálida estrela
Tão pequenina e humilde
Que brilha no nosso céu
qual é o significado?

Talvez seja finalmente
Deus a olhar para a nossa gente…
(1920)

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