Garantido o legado do Carnaval

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Que futuro se pode esperar da “festa do povo”? A resposta foi dada não pela bandeira, alegoria, ou corte, mas sim pelo que cada “cassule” mostrou sobre o ritmo da cabecinha, kazukuta e sembana pista da Marginal da Praia do Bispo, no passado dia 25 de Fevereiro.

Garantido o legado do Carnaval
Cassules deram mostras de amadurecimento Fotografia: Jornal Cultura

Desde a Ilha de Luanda até Viana, passando pelo Sambizanga, Rangel, Prenda, KilambaKiaxi, Samba e Cazenga, cada um deles justificou a aposta das suas zonas. As tradições e os problemas sociais que as afligem foram os temas dominantes nas canções. Em cada uma delas, os “cassules” procuraram deixar uma mensagem: “é preciso maior atenção com as crianças”.
Encantador, assim se pode descrever o espectáculo que as crianças dos vários grupos da capital mostraram ao público. O brilho não ficou somente pela indumentária, ou a agilidade destas nos compassos de kazukuta, semba ou cabecinha, mas também na garantia de um legado assegurado ao Carnaval de Luanda.
A vontade e a determinação em fazer melhor e estar entre os três primeiros ficou bem vincada na passagem de cada um dos 15 grupos, assim como na dos seus mentores, que, mesmo depois de chegarem à “pista do desfile”, e horas antes de começar, ainda estavam a fazer acertos constantes.

Contos da hora H

Quando a maioria dos grupos chegou no sábado, dia 25, a Marginal da Praia do Bispo, ainda faltavam minutos para começar o desfile. Alguns tinham saído as pressas e tentavam aprontar tudo mesmo ali. O calor não perdoava. Estava muito quente. Mas, isso não os impediu, em especial os Cassules do Kazukuta do Sambizanga, os primeiros na ordem do desfile, de se aprontarem.
Para ajudar os grupos, a organização do Carnaval decidiu atrasar o início do desfile para as 17h30, altura em que o calor já tinha reduzido bastante. O único porém, numa medida acertada como está, foi o atraso nesta decisão, uma vez que a maioria das crianças já estava no local. Portanto, para muitos foram duas horas sufocantes. Para os responsáveis dos grupos, caso a decisão tivesse sido tomada mais cedo teriam sido evitado muitos desconfortos e inclusive poderiam ter tido mais tempo para se prepararem, uma vez que os motoristas dos autocarros os pressionaram bastante, a partir das 13h30, e chegaram mesmo ameaçar ir embora caso estes demorassem mais.
Mas, entre dissabores e descontentamentos, a maioria esqueceu todos os contratempos quando a partir das 17h05 a organização informou que iriam começar os desfiles. O foco, desde aquele momento, foi outro: vencer a qualquer custo e com o que tinham.
O primeiro a passar na pista da Marginal da Praia do Bispo foi o Cassules do Kazukuta do Sambizanga. Este ano, o grupo, que faz da kazukuta a sua “arma” para vencer, falou sobre a inimizade, numa canção aonde chamou atenção das pessoas, em especial das crianças, para a crescente falta de amor ao próximo na actual sociedade moderna. A história de dois irmãos que se odeiam por inveja foi o foco da canção. “É também uma forma de mostrar que apesar dos inúmeros estilos do Carnaval de Luanda não devemos nos odiar, mas sim vivermos em harmonia, especialmente os fazedores de cultura”, disse Manuel António Gonçalves, o responsável pelos futuros executantes da kazukuta.
As dificuldades, contou, foram várias. “Tivemos problemas até com a logística. Os apoios, alguns, ficaram mesmo na promessa, os outros não foram suficientes para resolver todas as necessidades dos dançarinos e de preparação do grupo.”
Depois foi a vez da Geração Sagrada mostrar ao público o que preparou. A escola foi o seu tema. José Armindo “Ti Zé”, o encarregado dos cassules, disse que este ano deram especial atenção as crianças que querem aprender, mas são impossibilitadas pelos pais. “Algumas só precisam do apoio dos pais, mas estes estão ocupados com outras coisas. É uma realidade muito comum actualmente”, disse, acrescentando que teve dificuldades para transportar todos os seus dançarinos, com receio de chegarem atrasados. “Éramos os segundos na ordem de desfile. Os motoristas também pressionaram bastante. Quando ouvimos que começaria mais tarde ficamos arrependidos, mas já era tarde”, contou.
Um tributo ao Herói Nacional, Agostinho Neto, pelos seus feitos e a importância destes serem transmitidos à próxima geração foi o lema do Cassules do Juventude do KilambaKiaxi. “É um marco memorável da história do país que não pode ser esquecido e merece sempre ser divulgado”, disse Pedro Agostinho,vice-presidente do grupo, que lamentou o facto de os autocarros não os terem deixados no local certo e terem de ir a Marginal sem uma falange de apoio. “Mas aqui estamos para honrar a memória do nosso patrono, com os dançarinos do grupo.”
O quarto grupo na ordem do desfile foram os Cassules do Fogo Negro que este ano fez uma homenagem às artes. As suas referências, explicou Gilberto Ndala, ou “Rastukah”, foram o Complexo das Escolas de Artes (CEART) e também o Instituto Superior de Arte (ISART), as únicas a ajudarem, através da formação adequada, a criar futuros quadros nas áreas da dança, música, teatro e belas artes.
“É preciso lembrar feitos como a criação destas instituições em manifestações como o Carnaval, que é o resultado de uma junção de artes”, disse. Para Rastukah o pouco apoio financeiro continua a ser o “mal” que assombra a direcção dos grupos. A sua alegoria, defendeu-se, poderia ter sido melhor, mas as despesas foram tantas e os obrigou a fazer contenções. “Temos de comprar de tudo um pouco, incluindo a água para as crianças beberem e hoje o dia esteve muito quente.”
A kazukuta voltou novamente à pista da Marginal da Praia do Bispo, mas desta feita pelos Cassules do Hoje YaHenda, que buscaram nos acidentes na estrada o seu tema. Como uma realidade crescente a cada dia no país e que atinge adultos e crianças, as mortes nas estradas são, para Antónia Ebo, a responsável pelo grupo, um mal a ser combatido urgentemente. “Temos de fazer mais para começar a reduzir os altos índices de mortes por acidentes na estrada. Este é o nosso alerta social.”
Antónia Ebo informou ainda que foi muito difícil chegar até a Marginal, porque não obteve valores financeiros suficientes para pagar as contas, incluindo uma dívida com o alfaiate, que reteve uma parte da roupa do grupo, por estes não lhe terem pago. “Foi um dos muitos problemas, mas quem está na chuva é para se molhar. Viemos prontos para tudo, porque o ano passado já não conseguimos desfilar”, rematou.
O Mundo da Ilha é mesmo outra realidade. Como um dos “grandes” do Carnaval de Luanda na classe de Adultos, o grupo provou que o futuro dos infantis também está a ser assegurado. Este ano, os “cassules” decidiram falar dos salva-vidas e do seu papel. António Custódio, o seu responsável, considerou actual e essencial o tema, uma vez que tem sido a morte de muitas crianças. “Muitos deles fogem de casa para ir à praia e como vão sem um adulto correm muito perigo. Os salva-vidas devem ter um papel importante neste processo, em especial num país tropical aonde a maioria das pessoas vai à praia nos finais de semana ou feriados.”
No meio da canção o público ainda foi sensibilizado sobre a importância do mar e das suas tradições, não só para os ilhéus, mas todos os caluandas. “Trouxemos surpresas como o Zorro, uma das figuras simbólicas do Carnaval de Luanda”, destacou.
Para o sétimo grupo a desfilar, as parteiras, pelo seu trabalho, mereceram todoo enfoque. Fundamentais para a vinda ao mundo de muitas crianças e da sua salvaguarda, a maioria delas são esquecidas pela sociedade. Porém, os Cassules do Twafundumuka decidiram prestar-lhes homenagem. Manuel Joaquim, o responsável, disse que a homenagem é pequena, em especial para essa profissão nobre, numa era de modernismo onde o enriquecimento é a base de tudo e os cursos permitem atingir o sucesso mais rápido dos predilectos. “As crianças foram quem escolheram este tema entre os muitos propostos”, justificou.
O Amazonas do Prenda, que na classe de adultos deste ano é o homenageado, fez-se representar no desfile competitivo com os seus juniores. O código de estrada foi o tema escolhido pelo grupo para convencer o júri. João Manuel, o encarregado pelos cassules, disse que o objectivo foi pedir maior responsabilidade das pessoas quanto ao assunto. É, reforçou, uma mensagem que deve ser transmitida com regularidade, porque é através do respeito ao código de estrada que podemos evitar o crescente número de acidentes de viação, considerada, actualmente, uma das principais causas de morte em Angola.
“Como crianças e futuros adultos estas são as primeiras a serem moldadas, para que amanhã possamos ter uma sociedade segura, onde o amor e o respeito pelo próximo sejam os pilares”, declarou.
Provenientes do Rangel e já com um título na sua galeria, conquistado em 2015, os Cassules do Sagrada Esperança foram à Marginal com o sonho de voltarem a ter o troféu máximo consigo. Para tal feito decidiram falar sobre os hábitos e costumes, através de uma forte crítica contra a perda de princípios, devido à crescente globalização.
Manuel da Rocha, o responsável do grupo, acrescentou que é uma realidade a ser invertida urgentemente, porque os jovens têm estado a ser influenciados e escolhem comportamentos negativos, devido a este fenómeno, trazido, em parte, pelas novas tecnologias. Dificuldades, disse, foram várias. “É preciso mesmo uma verba mais alta, para que possamos ter um Carnaval melhor e com grupos mais preparados.”
Os problemas sociais também foram o enfoque dos Cassules do 10 de Dezembro. Provenientes da Samba. O grupo, sob a coordenação de Artur Vidal, foi à Marginal disposto a tudo para vencer. Com um passado histórico na classe de adultos, o grupo procurou mostrar a grandeza que os precede. Os cassules justificaram a fé e confiança do seu comandante ao executarem os compassos de semba.
Quando os Petrolíferos desfilaram pela pista da Marginal já era noite. As mulheres zungueiras foram o seu tema de eleição. Samuel Janga, o responsável do grupo, disse que são batalhadoras e como, às vezes, são pais e mães, mereceram a sua homenagem nesta edição. “São um exemplo claro de determinação e força de vencer”, abonou.
Para o responsável, a força da família angolana está muito concentrada nas mulheres e elas merecem, com frequência, homenagens, por todo o seu esforço em as fortalecer. “Não podemos fazer mais, porque este ano foi uma luta árdua para chegar até aqui. As cartas a pedirem apoio não foram respondidas, mas fizemos o melhor.”
Com a cabecinha como estilo, o 12º candidato ao título de melhor da classe C foi o vencedor da edição passada, o Viveiros do NjingaMbandi. Sobre comando de Toni Mulato, o grupo decidiu chamar a atenção da sociedade para os doentes na sua canção. Apesar de estarem a revalidar o título, os “cassules” tiveram dificuldades para chegar à pista do desfile. O autocarro avariou e foi difícil para um grupo que vem de Viana.
Toni Mulato garantiu que os ensaios regulares vão ajudar a manter o troféu em casa. “Foram meses de treino e a recepção do público foi favorável, o que nos deixa animados para reconquistar o prémio máximo.”
A criança descriminada foi o tema dos Cassules do 54, o antepenúltimo grupo a passar pela pista da Marginal da Praia do Bispo. Por ser o motivo que leva muitas delas às ruas, o grupo decidiu levar esse assunto para apreciação do público, sobre o ritmo do semba. Joaquim Manuel “Fita”, o responsável, explicou que o objectivo da canção foi também alertar para as consequências destes actos, geralmente associados a práticas como a feitiçaria, no futuro das crianças.
“São acusações que no momento podem até ser insignificantes, para quem as faz, mas torna-se um estigma para a maioria dos acusados, ao ponto de os transformar em seres marginalizados pela própria sociedade”, disse, adiantando que teve dificuldades para ter o grupo completo, já que muitas mães proibiram os filhos de virem à Marginal. Após semanas e meses de preparação essa decisão, de última hora, confessou, prejudica muito qualquer candidato ao título. “É preciso sensibilizar mais os pais no sentido da festa ter a sua continuidade garantida.”
O penúltimo grupo a passar foi o Cassules dos Jovens da Cacimba. Oriundo da Samba, o grupo trouxe o semba para a apreciação do público. O seu tema foi Angola livre. A sua a alegoria, com o mapa do país e os símbolos da República, foi uma amostra do que tinham preparado. O objectivo, contou o seu responsável, José Andrade, é alertar para as consequências das influências externas na governação do país. “Ao longo destes anos conseguimos proezas graças ao esforço do Executivo e dos próprios angolanos. Porém, agora sentimos com frequência a interferência da comunidade internacional. A canção é um apelo a estes para nos deixarem vencer com empenho próprio.”
Já passavam horas desde o início do desfile, quando o último grupo, o Cassules do Café de Angola passou pela Marginal da Praia do Biispo.
A importância da sabedoria do mais velho foi o seu tema. A ideia, contou o responsável, Lourenço Pedro, é ensinar as crianças a valorizarem mais os adultos e a não menosprezarem os seus conhecimentos, por serem parte de uma sociedade moderna.
“As novas tecnologias têm sido a principal fonte de alienação dos jovens nesta era de modernismo. A canção do grupo não procura ir contra estas, mas sim tentar educá-los a juntarem o tradicional e o contemporâneo”, disse.
Lourenço Pedro também reclamou a falta de apoios da parte dos empresários ou, no seu caso, da administração municipal do seu distrito. “Tive apenas um autocarro e por isso fui obrigado a deixar pessoas. Se fossem adultos poderiam vir de táxi, mas são crianças, precisam de um adulto para os supervisionar. Então vou fazer o melhor com o que tenho.”

Aposta na continuidade

No final do espectáculo da classe infantil, todos na Marginal ficaram com a sensação de termos, dentro de anos, bons dançarinos de kazukuta, semba e cabecinha. Alguns dos responsáveis dos grupos já garantiram mesmo terem dançarinos aptos para participar no grupo de adultos, na classe B ou A. O único sençao é que ainda falta uma maior atenção para estes futuros dançarinos.
Para tal se tornar uma realidade é preciso que os pais dêem mais espaço aos seus filhos de mostrarem o seu talento, assim como reforçar a aposta e o interesse pela formação. Os empresários têm também de ajudar mais os grupos carnavalescos, em especial os das suas circunscrições.

ADRIANO DE MELO

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