Sophia de Mello Breyner Andresen

Envie este artigo por email

«A poesia não me pede propriamente uma especialização pois a sua arte é uma arte do ser. Também não é tempo ou trabalho que a poesia me pede. Nem me pede uma ciência nem uma estética nem uma teoria. Pede-me antes a inteireza do meu ser, uma consciência mais funda do que a minha inteligência, uma fidelidade mais pura do que aquela que eu posso controlar.

Pede-me uma intransigência sem lacuna. Pede-me que arranque da minha vida que se quebra, gasta, corrompe e dilui uma túnica sem costura. Pede-me que viva atenta como uma antena, pede-me que viva sempre, que nunca me esqueça. Pede-me uma obstinação sem tréguas, densa e compacta. Pois a poesia é a minha explicação com o universo, a minha convivência com as coisas, a minha participação no real, o meu encontro com as vozes e as imagens. Por isso o poema não fala duma vida ideal mas sim duma vida concreta: ângulo da janela, ressonância das ruas, das cidades e dos quartos, sombra dos muros, aparição dos rostos, silêncio, distância e brilho das estrelas, respiração da noite, perfume da tília e do orégão. É esta relação com o universo que define o poema como poema, como obra de criação poética. Quando há apenas relação com uma matéria há apenas artesanato. É o artesanato que pede especialização, ciência, trabalho, tempo e uma estética. Todo o poeta, todo o artista é artesão duma linguagem. Mas o artesanato das artes poéticas não nasce de si mesmo, isto é da relação com uma matéria, como nas artes artesanais. O artesanato das artes poéticas nasce da própria poesia à qual está consubstancialmente unido. Se um poeta diz «obscuro», «amplo», «barco», «pedra» é porque estas palavras nomeiam a sua visão do mundo, a sua ligação com as coisas. Não foram palavras escolhidas esteticamente pela sua beleza, foram escolhidas pela sua realidade, pela sua necessidade, pela seu poder poético de estabelecer uma aliança. E é da obstinação sem tréguas que a poesia exige que nasce o «obstinado rigor» do poema. O verso é denso, tenso como um arco, exactamente dito, porque os dias foram densos, tensos como arcos, exactamente vividos. O equilíbrio das palavras entre si é o equilíbrio dos momentos entre si. E no quadro sensível do poema vejo para onde vou, reconheço o meu caminho, o meu reino, a minha vida.»

Sophia de Mello Breyner Andresen nasceu no Porto, a 6 de Novembro de 1919, numa família fidalga, de origem dinamarquesa por parte do pai. ?Frequentou o curso de Filologia Clássica na Faculdade de letras da Universidade de Coimbra, mas não o chegou a concluir. ?Em 1946 casou-se com Francisco Sousa Tavares, um jornalista e advogado, do qual teve cinco filhos que inspiraram muitas das suas obras infantis. ?Depois da Revolução de Abril, foi deputada á Assembleia Constituinte. (1975 – 1976). ?Ao longo da sua vida, ganhou importantes prémios, entre os quais o “Grande Prémio de Poesia”, em 1964, da sociedade Portuguesa de escritores pelo seu livro “Livro Sexto”, em 1999 foi distinguida com o “Prémio Camões” pelo conjunto da sua obra, em 2001 ganhou o “Prémio Max Jacob Étranger" e em 2003 o “Prémio Rainha Sofia”. ?Traduziu ainda obras de Claudel, Dante, Shakespeare e Eurípedes para Português, tendo ainda recebido uma condecoração do governo Italiano pela sua tradução de “O purgatório”. As suas obras encontram-se traduzidas em vários países, como França, Itália e EUA. ?Sophia veio a morrer em Lisboa, a 2 de Julho de 2004 deixando-nos um mundo de sonhos e de magia, demonstrados através das suas histórias, que marcaram uma geração.
ARTE POÉTICA II

Comentários

Newsletter


Colabore com o Jornal Cultura - Envie-nos os artigos da sua autoria.

Colaboradores Ver todos