Uma moeda sem perdão Poema de Paulo Figueiredo

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(Telegrama urgente para Angola)

Uma moeda sem perdão Poema de Paulo Figueiredo
Uma moeda sem perdão Poema de Paulo Figueiredo Fotografia: Macieira

Era uma vez um eu, muito branco.
Era uma vez um menino negro, muito magro.
Era uma vez uma fisga e uma moeda.

Era uma vez um piquenique.
O meu Pai caçava,
A minha Mãe cozinhava,
E eu com coisa alguma brincava.

E o tempo passava.

Quando entretanto,

Do meio do capim apareceu um menino,
Com a melhor fisga que eu já vira,
Toda envolta numa longa fita de borracha,
Da mesma cor de quem a tinha.

Propuz comprar-lha,
Pediu-me um escudo.
Aceitei o preço,
Pedi à minha Mãe uma moeda.

O menino voltou para onde viera,
E eu por ali fiquei.
Brinquei com a fisga,
Com a mesma pontaria de sempre.
Nenhuma.

Nunca consegui caçar nada com ela,
Como com fisga alguma,
A não ser o tempo que passava,
Enquanto com elas brincava
Com a esperança de acertar
algum dia.

Partiram-se as borrachas da funda,
Que eu substituia sempre,
Com a que ia tirando da que tinha.

Até que vi a ponta de uma moeda escondida.
Desenrolei mais,
e descobri uma moeda de metade de um escudo.
Gritei pelo menino sem nome,
Mas ele não voltou.
Fiquei com a moeda comigo,
E a fisga mais barata do que me custou.
Se alguém encontrar esse menino por aí,
Ainda menino como eu,
Diga-lhe que ainda tenho a moeda dele,
Entalada na minha garganta,
Já lá vão quarenta e cinco anos.

Ele ainda deve ser pobre,
Muito mais do que eu.

Deve fazer-lhe falta,
E basta-me levar os dedos à boca,
Para aliviar a minha revolta,
E lhe dar o que nunca foi meu.

14 de Abril de 2014
(cerca de 45 anos atrás, no meio do mato,
algures na proximidade da estrada Lobito - Benguela)

Paulo Jorge Figueiredo

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