Uma Quissama

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Poesia de Cordeiro da Mata

Uma Quissama
(A Carlos D'Almeida)

Em manhã fria, nevada,
n'essas manhãs de cacimbo
em que uma alma penada
não se lembra de ir ao limbo;
eu vi formosa, correcta,
não sendo europeia dama
a mais sedutora preta
das regiões da Quissama.

Mal quinze anos contava
e no seu todo brilhava
o ar mais doce e gentil!

Tinha das mulheres lindas
as graças belas, inAindas,
d'encantos, encantos mil!...

Nos lábios — posto que escuros
viam-se-lhe risos puros
em borbotões assomar...

Tinha nos olhos divinos
revérberos cristalinos
... e fulgores... de matar!...

Radiava-lhe na fronte
como em límpido horizonte
radia mimosa luz —
da virgem casta a candura
que soe dar a formosura
a graça que brota a flux!...

Embora azeitados panos,
lhe cobrisse os lácteos pomos
denunciavam os arcanos
de dois torneados gomos...

Da cintura a palmo e meio,
bem tecidinho, redondo,
descia-lhe em doce enleio
um envoltório de hondo.*

Viam-se-lhe a descoberto
— com arte bem modeladas —
(e que eu mirava de perto)
umas formas cinzeladas.

*Hondo, fibra d'embondeiro de que os quissamas fazem vestuário

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