União Amazonas do Prenda " O Carnaval tem de volta às escolas"

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Um dia, já lá vão quase 50 anos, dois jovens, António Salvador (Kunhum) e Fernando Domingos (Muxima), desceram o bairro Prenda e foram assistir um filme no cine Corimba, ali no bairro Azul. As heroínas do filme eram umas mulheres vestidas de verde, montadas a cavalo, mulheres batalhadoras a lutar pelo seu território. Depois da independência de Angola, os dois jovens, já maduros, inspiram-se nessas mulheres guerreiras e fundam, no dia 17 de Fevereiro de 1987, o grupo carnavalesco União Amazonas do Prenda.

União Amazonas do Prenda
União Amazonas do Prenda Fotografia: Jornal Cultura

O cine Corimba está intrinsecamente ligado à história do Amazonas do Prenda e dos seus foliões. É o caso da alcunha atribuída a Domingos Pereira, o secretário-geral. É mais conhecido em todo o Prenda por Mboloy. Ele próprio conta à nossa reportagem, enquanto as mulheres do União Amazonas nos servem um expressivo mufete de carapau regado com um palheto de garrafa. Domingos tinha ido ao cinema. Como não tinha dinheiro para entrar, ele e um primo treparam ao terraço do prédio contíguo. Dali via-se o filme sem pagar. Só que o território circundante ao cine Corimba estava bem marcado por um ST (Serviço de Tropas, hoje Polícia Militar), mais conhecido por Mamboló, por causa do pão que se vendia no rés-do-chão (do quimbundo: mbolo). Mamboló era mau como as cobras. Fazia esquemas com as senhoras da bilheteira do cinema e revendia os bilhetes a quem não quisesse ficar na bicha. Subiu ao terraço, constatou a presença dos dois intrusos e atestou-lhes uma carga de porrada. Domingos, ainda adolescente, ficou em estado de coma. O primo dele, esteve pendurado pelo braço do parapeito do terraço, prestes a ser arremessado ao solo. Foram as vendedoras do pão que rogaram ao deus Mamboló que não acabasse com a vida do pobre jovem. Até hoje, este tem o braço defeituoso. E Domingos Pereira tem a alcunha de Mboloy.

TRAJES E ADEREÇOS

Depois de explicar a semântica do nome do grupo, José da Conceição Pedro (Zeca Bangão,) presidente do Amazonas desde o pretérito ano de 2009, continua a remover as brumas das lagoas do passado. Ele começou como apanhador dos papelões, “aqueles luandos onde as velhas dormiam e com os quais aqueciam os batuques”.
Se atentarmos para as cores e imagens que o Amazonas exibe, nota-se a relevância do verde. “Nós vimos no filme que as amazonas se vestiam de verde, pois tinham de se camuflar na floresta. Por isso, na nossa indumentária, não falha o verde”, explica Zeca Bangão.
Porém, hoje, já se notam outras influências. Os bailarinos masculinos usam cartolas, chapéus românticos vermelhos. “É a inovação do tempo”, diz o presidente do grupo. “No início, usávamos todos panos à pescador e púnhamos bubus. Na medida em que fomos crescendo, diversificamos as cores e as vestes.”

RENOVAR COM A ESCOLA

Mboloy, o secretário-geral, pega a palavra com a força da sua imponência corporal e narra: “Entro no Amazonas em 1989, na altura tinha 13 anos. Entrámos juntos, eu e o Zeca Bangão. O Zeca entra como transportador de batuques e eu era o homem que carregava os candeeiros. Ao longo do tempo, fomos ganhando experiência. Destacávamo-nos no grupo, em termos de disciplina. Mesmo antes, já trabalhámos com o falecido Kunhum e com o Muxima. Depois veio aquela tragédia, em 1999, que levou o Kunhum e, em 2006, vem outra tragédia, do Muxima, realizámos a assembleia geral, na qual foi eleito Zeca Bangão como presidente e eu como secretário-geral. Isto na função administrativa. Na função cultural, o Zeca é vocalista e eu sou percussionista.”
No que respeita à passagem do testemunho às gerações mais novas, Mboloy explica que “nós aqui temos os filhos, as nossas esposas, os netos, irmãos e amigos. Há aqui até quem está a forjar enlaces matrimoniais. Em 2004, fundámos o grupo infantil. Este é o viveiro. Está ali o nosso rei, o João Pascoal, que veio do grupo infantil.”
“Eu acredito que o carnaval angolano vai continuar, mesmo depois de nós desaparecermos da face da terra”, afirma Mboloy. O nosso interlocutor desvenda que possui um disco onde se compara o carnaval do tempo colonial, aquele que os mais velhos criaram, e o de hoje, e tem constatado uma inovação permanente. “As crianças estão a beber do nosso trabalho. O conselho que dou às autoridades culturais angolanas é o seguinte: é preciso voltar a meter o carnaval nas escolas. Eu mesmo que estou aqui, sou maior de idade, sou fanático do carnaval porque conheci o carnaval na escola primária, com o professor Inácio. Eu fui da ala dos índios. Depois de sair do professor Inácio, fui dançar nos Feijoeiros. Dancei como padeiro. Ainda estava lá o mestre Geraldo. O Amazonas ainda não existia. Mas eu já estava a dançar como aluno da escola do Posto 15, aqui na entrada do Petroff. Dali, ganhámos a paixão. Todas as escolas, a nível do país, tinham o carnaval. O Kunhum fazia “maiado” e, com a máscara dele, nos dava corrida, gritando “Kum, kum”. Dai a alcunha.”

UM REI MUITO NOVO

O séquito real do União Amazonas do Prenda mistura o entusiasmo dos jovens e a maturidade dos mais velhos. “A rainha é mais velha que eu,” revela João Pascoal, um rei bastante jovem, “fui escolhido porque os meus dirigentes assim o decidiram. Danço desde os nove anos no Amazonas.”
Quem o levou pela mão foi o antigo comandante. “Eu via o grupo aí na Marginal e o meu sonho era fazer parte do Amazonas. Hoje cá estou, concretizei o meu sonho. Ser rei é algo simbólico que carrego dentro de mim. Também ensino o séquito real do grupo infantil. Mas na vida real, sou vendedor de roupa num estabelecimento comercial.
O comandante do Amazonas responde pelo cognome de Suker (João Manuel). Desde o ano de 2013 que dirige as “tropas”. Mas antes, ganhou experiência como monitor, aquele que reúne todas condições para que a dança tenha êxito na Marginal. “Montamos a dança nos dois grupos, o dos adultos e o infantil, a coreografia, os passos, a coordenação entre os dançarinos”, descreve Suker. Suker explica que a dança do Amazonas é uma simbiose entre o Semba e a Varina. Por isso se chama Semba-Varina. As passadas baseiam-se nos movimentos dos pares.

BESSANGANAS

Beatriz é uma das muitas bessanganas que o União Amazonas possui. De 50 anos, dança o carnaval ali mesmo no Prenda, desde muito pequena. “O Amazonas foi fundado no meu quintal”, revela. “Os meus pais, os meus irmãos, todos dançaram no Amazonas. A minha casa era o centro onde faziam os ensaios do grupo. Depois do Prenda, fui morar no Rangel, fiquei por lá muito tempo e deixei de dançar no Amazonas. Voltei para o Prenda há 4 anos e agora voltei ao meu grupo.
Dona Morena tem 50 anos. Só dança há quatro anos. “O carnaval é um símbolo da nossa Cultura”, corrobora. “Quando era pequena, vivia no Sambizanga. O meu irmão não me deixava ir dançar o carnaval. Era muito ciumento. Agora, já mais velha, estou a desforrar”, sorri Morena, que sai para o desfile central vestida com os panos, o balaio com frutas na cabeça.
Avozinha Cambuta, 49 anos, dança há 8 anos. “Gostei do grupo”, explica. “Quando era pequena, ia na Marginal, mascarada, com os meus pais.”
Adelina, 44 anos, é dançarina há 8 anos. Quando era candengue, dançava nos Jovens da Cacimba, junto ao Nzamba 2. Foi fundadora do grupo da Cacimba. Os 5 filhos dela admiram-na e também dançam com ela no desfile. “O carnaval tem futuro”, diz Adelina.
Tia Jú é recente no Prenda. Quando foi mais moça, vivia na Petrangol e dançou no Cabocomeu. Tinha para aí uns dez anos. “A dança, para mim, é tudo”, diz. “Quando chega o tempo do carnaval, em casa já não paramos. O meu filho Adilson é que faz a comida. O Adilson diz assim para mim: A mamã ama a dança!”

MASSINGA, O BATUQUEIRO

Rosalino Octávio foi jogador de futebol no Desportivo de Saurimo, em 1991, ido do Ferroviário de Luanda. “Um dia, os meus colegas disseram-me: viste o jogo Camarões-Argentina? Viste o número 15? Aquele madié é mesmo tudo, tudo, você! Assim fiquei Massinga.”
Tocar batuque é de geração. A mãe provém de uma família de Kalundús, da Ilha de Luanda. “Eu era o caçula e ia nas costas da mãe, que foi membro do União 54. A minha mãe tocava banheira. Fui crescendo e fui me inspirando, ganhando o gosto pela percussão. Formávamos um trio de irmãos. vivíamos na Comissão do Rangel, na altura, e tocávamos banheira, tarolas e bateria de lata. Quando venho para o Prenda, fui convidado a entrar para o Amazonas, há 4 anos”, diz o tocador de batuque, cheio de orgulho.

INVESTIMENTO E PATRIMÓNIO

“Quando abrimos, ainda não tínhamos esta estrutura física que temos agora”, explica o secretário-geral, Mboloy, fazendo com a mão uma vénia larga que abarca todo o recinto da sede do União Amazonas do Prenda. “Graças aos nossos prémios, fomos investindo na sede”.
O grupo tem no seu palmarés três primeiros prémios: 1989; 1992 e 2015. “Mas o que mais marcou a nossa história”, diz Mboloy, “foi o prémio de 1992, no desfile central. Em 2015, além do galardão máximo, arrebatámos o prémio da melhor canção, feita por Pedro Damião.”
O grupo carnavalesco possui rendimentos próprios, porque, às vezes, a sede é alugada e os valores arrecadados servem para custear algumas despesas. Em ternos de patrocínios, há três empresários generosos – Pinto Conto, Fernando Gomes e Beto Reis – e também um morador que os apoia em termos de saúde, que é o médico do bairro, Dr. Tomás Cassinda.
A sustentabilidade do Amazonas provém, em grande medida, “do bocado que o Estado nos dá e que serve para adiantarmos os preparativos da participação no desfile central. Sem o apoio do Governo, não haveria carnaval”.

EMULAÇÃO

Existe uma grande emulação entre os grupos. A competitividade, a luta pelo lugar cimeiro, é enorme. “Nos grupos, cada um bebe do que os outros apresentam”, explica Mboloy. “Ao vermos um grupo com uma imagem, claro que temos de criar outro elemento. Não copiamos cegamente. As letras nas nossas coroas representam o nome do grupo. Cada coroa tem uma letra. O funileiro que nos faz os capacetes, fui eu quem o descobri a fazer candeeiros de lata de salsicha. E eu disse: se você faz esses candeeiros, então você pode fazer o trabalho que eu preciso. Fui lhe dando as latas e ele conseguiu fazer estas coroas.”
Antes do desfile, tudo é uma incógnita. Não se faz espionagem dos outros grupos. As alegorias são feitas em segredo. “Você só as vê na Marginal”, relata Mboloy. “A cada ano, há uma inovação, de acordo com o tema. Em 2016, homenageamos o discurso do saudoso camarada Agostinho Neto no Cazenga, proclamado em 1978. Também já nos inspirámos em factos que acontecem aqui no Prenda. Já fizemos homenagem ao hospital do Prenda, já homenageámos as nossas mulheres aqui do Prenda e já falámos na canção Mukwá Sanzala das confusões e dos conflitos aqui no bairro. Dos irmãos, por causa da kibela, ou seja, dos terrenos herdados.” Ali, onde a luz é mediada pela sombra alta dos muros dos becos, o vocalista Nelito Bangão canta: “Ó kibela kyá papá/watuxisa o nguma!” (Os terrenos do nosso pai, nos deixaram inimizade).

MÚSICA DO CORAÇÃO

O presidente Zeca Bangão reclama: “É inadmissível, um grupo que ganha o prémio BAI da Canção, e a sua música faz um ano sem tocar na rádio. A canção cai no esquecimento. Contém uma grande harmonia musical, uma mensagem forte. É preciso ser mestre compositor para cantar e instrumentalizar um semba-varina. Queremos que o ministério da Cultura olhe um pouco mais para esta questão. Quando há um evento, mesmo que não convidarem o grupo completo, pelo menos uns quantos elementos representativos.”
Mboloy corrobora com a proposta do seu presidente: “Há tempos, o Zeca fez uma música dedicada aos pais que vivem no Beiral e foi acompanhado pela banda Acapaná. Essa música provocou muita admiração. As músicas de carnaval podem ser cantadas em estilo semba ou outro, por qualquer cantor da nossa praça.”
E é com o concerto musical, no ensaio para a homenagem do grupo, acompanhados pelo grupo tradicional Semba Muxima, que deixámos nestas páginas os ecos do refrão em quimbundo, cantado quase ao declinar do sol sobre o mar da Samba, na sede do Amazonas do Prenda, ali à rua da Capela:
“Enu mu kwa sanzala/ wandala ku tu jiba/ wandala ku tu beta/ mukonda dya ku kina.” (Vocês da sanzala/ querem nos matar/ querem nos bater/ por causa da nossa dança)

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