30 anos a trabalhar um sonho

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Parabéns Horizonte Njinga Mbande

30 anos a trabalhar um sonho
Pepetela cuidou em estar presente na estreia e comemorar com o grupo a adaptação para o teatro de um dos seus romances

Mel Gamboa, Eduza Chindecasse, Sisco, Sebem, Luís Kifas, Adérito Rodrigues “BI”, Tatiana Durão, Celma Pontes, Emílio Lukombo, Marlene Musa, Waldemar Francisco “Vlad” são, dentre outros muitos aqui não ditos, alguns nomes da safra de 30 anos a trabalhar um sonho em prol do teatro angolano. Dos prémios conseguidos, destaca-se o terceiro lugar no FENACUL de 89, participação no FITEI de 92 e Prémio Nacional de Cultura e Artes de 2007.

Nascimento do Horizonte NjingaMbande
Corria o ano de 1986 e não faziam ideia naquilo em se estavam a meter. O grupo é formadocom intuito de fazerem uma tele-estória, como chamavam naquele tempo. Reuniram o elenco e o guião de “Regresso Marcante”, que era o título da tele-estória. Enquanto esperavam o deferimento da Televisão Pública de Angola, que demorava um pouco, resolvem avançar para um projecto teatral. Estavam envolvidos a direcção da escola, na pessoa do então director Zé Leitão Ribeiro, a JMPLA, implementada na escola através dos professores Paulino Sobrinho e Zeca Dunji, e alguns alunos. Contudo, o grupo que hoje temos nasce das ideias de Adelino Caracol e Ezequiel Issenguele, cuja data histórica de 8 de Outubro daquele ano ganha peso nos anais da arte e cultura angolanas como dia da fundação da Companhia de Teatro Horizonte NjingaMbande. Por mais irónico que agora possa parecer, dado o sucesso actual, que muito longe estava do prognóstico do grupo, a primeira peça a ser levada em palco intitularam-na “Previsões Erradas”. Esta peça e outras que se seguiram tinham como pano de fundo as adversidades da vida estudantil. O grupo tinha como temática embrionária a vida escolar, do sítio em que estavam: a escola NjingaMbande.
Adelino aponta a solidariedade da época como grande virtude para a consolidação do grupo que nascia, visto que os alunos de toda a escola também contribuíram com conselhos e ideias fortes. Começou a tornar-se num grupo de todos da escola. O projecto passageiro deixa de existir e a ideia do Horizonte NjingaMabnde como grupo de teatro vinca. Ainda não tinham um nome, porque todos chamavam de “grupo dos alunos do NjingaMbande”. Um dia decidiram fazer eleição para escolha do nome a dar ao grupo. Foi a então actriz Selmira Pinto da Cruz, hoje engenheira, que apresentou como sendo mais lógico que o grupo se chamasse “Horizonte NjingaMbande”, ainda em 86. Consegue a sua primeira distinção num concurso organizado pela JMPLA. O concurso aconteceu no Bairro Popular, na sala Saidy Mingas. O resultado foi digerido com alguma surpresa, a contar que neste período destacavam-se os grupos Experimental Teatro, Horizonte 2000, Kudilandos da Fapa, e 26 de Agosto, ligado à tropa fronteiriça. Atenção que Ezequiel Issenguele “Kiel” e Adelino Caracol chegam a trabalhar neste 26 de Agosto, antes de pensarem o Horizonte Njinga Mbande. Kiel era membro efectivo do grupo e Adelino não passava de colaborador. Mas sentiam-se irmãos, andavam juntos a toda hora.

O período da tropa
O país não era esse que temos hoje. Socialmente, a tríade do teatro angolano surge num período difícil e triste da História de Angola. Adelino conta que havia vezes que tinham em mão um actor bem preparado mas que depois viam-se obrigados a perde-lo porque tinha de ir cumprir o serviço militar fora de Luanda. "Era muita matemática, sempre sobre quem iria ou não", lembra. O elogiado da época, Elias Casanova era um desses, e chega a cumprir o serviço militar. Para Adelino, eram períodos que trouxeram grandes lições de vida, principalmente a tese de que as grandes obras começam aprendendo que as dificuldades são para serem ultrapassadas.

Reconhecimento
Se sente-se ou não reconhecido, Adelino aponta Deus como grande parceiro do grupo, destacando em segundo lugar o público. Reconhece que as pessoas sempre demonstraram afecto pelo Horizonte, mesmo fora dos palcos. Pessoas singulares estão sempre a dizer-lhes: “Obrigado. Eu reconheço o vosso trabalho”. A ver no seu todo, diz Adelino: “Fruto de uma gestão ainda não concreta, eu acho que a cultura precisa de se organizar. Nós precisamos nos organizar, corrijo. Digo sempre que saímos da cultura da guerra e já estamos na cultura da paz, em que o artista sinta-se dignificado por aquilo que faz. Falta essa organização. Individualmente, cada um vai lutando à sua maneira. Mas falta ter políticas concretas de reconhecimento, de valorização e da dignificação e credibilidade. Para que as novas gerações possam dizer que podem ser cantor, escritor ou actor, e não ter medo de que esteja a fazer uma posta falível". Retirando um exemplo de outras esferas da sociedade, lembra que no passado os pais diziam muito mal de quem escolhesse jogar futebol, afirmando até que os homens pensam com a cabeça e não com os pés. Os tempos mudaram e o futebol se tornou uma indústria. Actualmente é regozijo ver os filhos nas escolas de futebol. Acredita que a cultura, a nível nacional, também se transforme nisso. Defende:"Não vale a pena comparar, mas há países que lutaram para que a sua cultura se tornasse uma indústria, para trazer benefícios para o país. Nós ainda pensamos que a cultura não passa de mero lazer. E as vezessomos os palhaços e mendigos sociais. É importante pensar na cultura noutra dimensão, reavaliar a economia cultural".

Diplomacia cultural
Quando os grupos vão representar Angola no estrangeiro, como são amparados? Não sabe se de facto as embaixadas têm capacidade de apoiar os grupos. Mas lembra uma ida feliz ao Brasil em que tiveram a sorte de serem muito bem acompanhados pelo adido cultural de angola, que identifica apenas como sendo um bom músico a cumprir missão no Brasil, e assim fazemos fé que seja Carlos Lamartine. Reclama que noutros pontos, nem se dignaram em ir saber se é ou não um grupo angolano. Gostariam, pede Adelino, pelo menos de receber apoio moral e cumplicidade de afectos, para que os artistas se sentissem um pouco “tidos e achados” quando elevam o nome de Angola além-fronteiras. Também considera importante que a Associação Angolana de Teatro, junto da ministra da Cultura, discuta que dinâmica dar a essa questão. Aponta que outro entrave seja a conveniência. Explica-se: “Porque pessoas há que só se fazem presente ou mostram interesse caso for um grupo da sua conveniência. Ainda não separamos as conveniências das competências”.

Os irmãos Caracol
Adelino acredita que um dia os irmãos Caracol voltarão a estar todos juntinhos. Neste momento falta apenas Sebem, a recuperar da doença. Adelino, David e Jeremias trabalham juntos no grupo. Todos os rapazes da família Caracol em algum período trabalharam no grupo. As irmãs é que não são muito dadas, e apenas uma chega a experimentar a arte cénica. Conta Adelino, o mais velho, que o regozijo da mãe Caracol era enorme, que sempre encobria os filhos, visto que o pai não concordava de todo.Ao início de carreira, a mãe avisava Adelino: “Filho, queres fazer teatro, faça. Mas é importante que estudes, porque isso em Angola ainda não é uma coisa séria e irás passar por várias dificuldades”. Já ambos falecidos, a mãe Caracol foi professora e enfermeira, e não cansava de alertar o filho Adelino que devesse levar o teatro muito a sério, dado também que arrastava para aquela profissão mais membros da família.

Festividades dos 30 anos
Há um programa gigante que se estende de Outubro a Novembro. Primeiro, pretendem apresentar uma sala que lhes confira maior dignidade. A sala sofreu alterações de restauro e merecerá uma reinauguração. Também adianta a intenção, enquadrada nas festividades, da realização do Fórum Nacional do Teatro e Fórum Internacional. E justifica: "Por sentir que falta formas de discutir aquilo que fazemos e podermos traçar metas, para identificar os problemas comuns e inserirmos Angola dentro da universalidade das artes. Por outro lado, eu continuo a achar que não é um mercado consistente, não temos consumidores consistentes, por mais que se diga que a música já deu passo. Porque eu penso, e é bom que se diga, temos uma vida aparente, de luxo na miséria. Parecemos que está tudo bem, mas não".
Os seus cálculos indicam que chegou a alturade se assumirem como uma companhia semiprofissional, trinta anos depois. Se é ou não modéstia exagerada, responde que é melhor assim, para que possam construir bases sólidas, não dar passos em falso. Também reservam a apresentação oficial do grupo infantil, que há muitos anos é adiada por falta de um projecto consistente. Outro objectivo é o de começarem a montar espectáculos profissionais. Esclarece: “Acontece que nós participamos em festivais, mas sentimos que estas presenças quase que não trazem retorno para o grupo, além da experiencia e bom currículo. Mas, em termos de gestão financeira, causam grandes problemas. Há festivais profissionais em que é um mercado aberto. Queremos nos preparar para sermos um grupo profissional a concorrer de igual com qualquer outro grupo do mundo. Esses prémios individuais que a cultura vai conseguindo, tanto na música como no teatro, penso que devem surgir como vontade de despertar nalguma coisa em que nós não abraçamos como desafio”.
Outrossim,reúnem esforços para produzirem os seus anúncios publicitários, de pelo menos filmes de um minuto, que combinará com o projecto de formação em teatro, televisão e cinema.

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