A cidade cosmopolita

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A cidade e a sua evolução foram e sempre vão ser preocupação dos artistas, pois mostrar às próximas gerações as mudanças que ocorreram numa determinada sociedade é um legado crucial, para compreender a forma de pensar de uma época. Com este pensamento em foco foi feita a exposição “Ser Cidade”, uma representatividade da criação e da sua forma de ver Luanda.

A cidade e a sua evolução foram e sempre vão ser preocupação dos artistas, pois mostrar às próximas gerações as mudanças que ocorreram numa determinada sociedade é um legado crucial, para compreender a forma de pensar de uma época. Com este pensamento em foco foi feita a exposição “Ser Cidade”, uma representatividade da criação e da sua forma de ver Luanda.
Para este trabalho, exposto até o próximo dia 27, na galeria do Banco Económico, foram convidados os artistas plásticos Cristiano Mangovo, Nelo Teixeira, Ricardo Kapuka e Paulo Kussy. Cada um com um olhar diferente e uma visão própria do que é Luanda, os criadores mostraram, em diferentes tons, o quão importante é dar ao público uma noção das actuais mudanças sociais.
Sob a curadoria de Sónia Ribeiro, a exposição surge também como um desafio para os próprios artistas, que têm de propor reflexões sobre o seu conceito existencial de cidade. Os focos são direccionados para os seus desafios, contradições e demagogias de uma cidade moderna, que está em constante mudança.
As várias conexões que podem surgir entre os indivíduos da zona urbana também ganham destaque em muitos dos trabalhos expostos. Cada um dos visitantes vai poder observar a interacção entre estes, assim como os traços que os distinguem e os tornam peculiares na evolução do próprio conceito de cidade.
Com entrada gratuita, a exposição pode ser visitada de segunda a sexta, das 12h00 às 19h00, ou sábados das 10h00 às 13h00. “Ser Cidade” reúne mais de 28 obras de pintura, desenho, instalação, escultura e videoarte. O objectivo é levar o público a questionar o que significa a cidade para eles, o que é ou o que a torna tal. Será o modernismo, a estrutura urbana, ou há “algo” mais que a torna uma cidade.
Mas o que é SER cidade? Para Cristiano Mangovo criar está exposição é fazer um exercício do equilíbrio de poder, assim como das suas contradições, entre uma sociedade que está em constante mudança e o questionamento da mesma. “Desenvolvimento e evolução não são forçosamente sinónimos, mas não se contradizem”, justifica.
Para Ricardo Kapuka, “Ser Cidade” é a representação das diversas realidades da vivência humana e do seu quotidiano. A exposição, contínua, é uma forma de levantar questões pertinentes, mas não verdades absolutas, usando os meios visuais e plásticos, na criação de conteúdos que documentam o meio em que o artista se insere.
Por sua vez, para Nelo Teixeira, Luanda é, devido ao desenvolvimento económico nas últimas décadas, uma cidade que se distingue pelos seus edifícios altos e estruturas modernas a contrastarem muitas vezes com a degradação das restantes infra-estruturas e com a degradação do meio ambiente. “O lixo visível faz parte do cenário e do quotidiano da população.”
“Ser Cidade” para Paulo Kussy é também olhar para as várias transformações estruturais que Luanda sofreu nos últimos anos. Para o artista são mudanças que trazem o lado cosmopolita de uma cidade em desenvolvimento, mas que simultaneamente criam um afastamento.

OS AUTORES
Cristiano Mangovo representa uma nova geração de artistas socialmente focados em contribuir para uma África melhor e cada vez mais auto consciente. Inspirado por um país que ainda está a forjar a sua própria posse e identidade pós-colonial depois de muitos anos de conflito, o seu trabalho é cada vez mais inovador para um comentário social convincente com fortes elementos psicanalíticos.
Comprometido com as principais questões específicas do contexto em que opera, como a protecção ambiental, os direitos da mulher, ou o consumismo, os valores humanos, as relações sociais ou o urbanismo, Cristiano Mangovo tem como base a paisagem urbana e as cenas da vida quotidiana.
Como criador Ricardo Kapuka procura que a mensagem seja directa e objectiva, daí o uso do figurativo. As abstracções no seu trabalho são muito subliminares, pois ele dá maior atenção ao desenho. Tecnicamente falando, tem a pintura e a ilustração como base de expressão, utilizando vários materiais, como tecidos, colagens, acrílico. O graffite e o uso do stencil são igualmente recorrentes. O audiovisual também faz parte do seu trabalho.
Nelo Teixeira vive no Musseque e é um artista da sua actualidade. Rodeado de casas fabricadas pela população, muitas vezes transformando, intervindo, adaptando, reinventando objectos encontrados n o musseque, encontra ali o seu lar. Mas é na apreciação global das suas instalações que se apercebe o paralelismo que este tenta representar. Prédios altos, modernos, com pequenas, ou menos pequenas, janelas onde a realidade é vista de cima e em desapego aos outros, por oposição aos musseques, construções alternativas e ilegítimas.
As obras de Kussy transportam-nos para espaços arquitectónicos e surrealistas, nos quais corpos escultóricos, estilizados e alongados, surgem inusitadamente numa conquista pelo protagonismo pictórico. Nestes espaços, nenhuma acção ocorre de um modo normal, previsível. Ora um torcer, ora um alongamento, uma perfuração, todos os cenários são equacionados de um modo biomecânico.

A SELECÇÃO
Em relação a este trabalho, a curadora Sónia Ribeiro elogiou o esforço dos criadores em apresentar propostas únicas, capazes de “cativar, impressionar e educar” o público. “O papel do artista não é o de representação - para isso temos as máquinas fotográficas - mas de propor uma reflexão, criar diálogos e emoções. A arte em Angola está a viver um dos momentos mais fervilhantes de sempre e são vários os exemplos dos artistas nacionais que estão a ser cada vez mais valorizados, reconhecidos e premiados internacionalmente”, defende.
A selecção dos artistas foi bastante criteriosa, como conta, e procurou, acima de tudo, reunir criadores com visões diferentes sobre um mesmo ponto. “Mangovo, por exemplo, acaba de ser galardoado com o Grande Prémio ENSA Arte, e o Ricardo já ganhou este prémio em 2016. O Nelo Teixeira expôs na Bienal de Veneza, em 2015, e dois destes artistas - Cristiano Mangovo e Nelo Teixeira - vão estar representados numa feira de arte internacional em Joanesburgo, a FNB Joburg Art Fair, que é realizada em Setembro”, concluiu
Este trabalho, que trouxe algumas das mais experientes “vozes” da nova vaga de artistas contemporâneos nacionais, contou com a participação especial da galeria de arte This is Not a White Cube Gallery (TINAWC).

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