A cor do surrealismo e o sussurro do impressionismo

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NKISI SHADOW II de Fernando Alvim

De sensibilidade nutrida e alheia à lógica inflexível aos recuos temporais, desfeito os tabus e outras paredes mentais cuja pragmática isoladora nos infecta, a exposição NKISI SHADOW II de Fernando Alvim abre pela segunda vez ao público de 9 a 30 de Novembro no Hotel Globo, resultado de um trabalho cinematográfico que o artista tem estado a desenvolver desde os anos 80, com objectivo de trazer 90 momentos do storyboard (organizadores gráficos em uma série de ilustrações ou imagens arranjadas em sequência com o propósito de pré-visualizar um filme, animação ou gráfico animado, incluindo elementos interactivos em websites) do filme com o mesmo nome e que deverá ser lançado entre fins de 2013 e princípios de 2014.

NKISI SHADOW é, em primeira instância, uma afronta e revindicação aos deuses que maneiam o tempo (dikumbi) difícil de ser digerida à primeira vista, próprio das manifestações vanguardistas, ao trazer como personagens as figuras mais bizarras da história mundial: "a ideia que eu tento transmitir é a de desmontar o preconceito.

Portanto, eu quero desmistificar. Eu escolhi as pessoas que foram as mais horríveis na história da humanidade, como por exemplo Adolfo Hitler, e reduzi-as à condição de uma pessoa vulgar, simples e aceitável. Eu quero desmontar completamente todo este lado maligno nestas personagens e fazer crer que é possível curá-los.

Mas, para curá-los tinha de ser no continente africano, sendo este o espaço do purgatório. África será o lugar onde as pessoas pagam pela maldade que fazem e depois ficam curados. Eu vou utilizar a nkisi terapia (terapia através do espírito) para curar estes personagens", justifica Alvim.

A ideia surge também, diz o autor, como alternativa à opinião dos média que, em muitos casos, converge na totalidade sem ser sincrética ou eclética."Eu pego nessa ideia e começo a desmontá-la, interpretando as referências mais negativas e, ao invés de enxovalhar, procuro tratá-las, fazendo de África o continente capaz de desculpar e perdoar coisas tão violentas como perdoou o apartheid".

Impressionismo e surrealismo

Os sete quadros, de técnica mista sobre tela, expostos no auditório do Hotel Globo suscitam, à mistura do automatismo fugaz do impressionismo e da erosão dos diálogos surrealistas, uma fruição da arte como antídoto revitalizador e oportunidade de fuga e que faz, em leve poesia, trazer o cómico e o trágico disfarçados, tal como atesta o próprio Alvim: "É um pouco tudo o que nos aconteceu.

Não nos podemos esquecer que os angolanos saíram recentemente de várias tragédias. Portanto, há toda uma linguagem ao longo do último século que ainda fere. Mas a verdade é que eu trago um diálogo com muita poesia e um pouco de humor, para não ser muito difícil de tolerar. É um apelo àquilo que eu chamo de "estiga popular generalizada". Estamos numa sociedade onde a estiga é um dos sintomas culturais desta sociedade.

Ter essa capacidade de brincar, zombar ou gozar com o outro sem chegar aos limites do insulto e com uma certa criatividade que permita o retorno".

Bentiaba

Tendo como espaços de actuação Bentiaba e a Ilha de Santa Helena, onde todos os personagens estão presos sem serem maltratados, o filme que, segundo o autor, comporta o passado e o presente em simultâneo e traz a história como meio de acesso à cultura, traz também momentos que são plausíveis, mesmo até historicamente.

Momentos que o artista põe em evidência para caracterizar um pouco mais essa demência do mundo em relação à história africana".
Da escolha deste presídio, o autor diz: "dizem muita coisa desta prisão, mas ela apenas é a mais isolada.

Foi escolhida porque todos estes personagens, entre Hitler e Mussolini, entram pela Namíbia num automóvel Volkswagen que avaria no deserto e depois são salvos pelos mucubais e levados para Bentiaba".



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