A festa era da rádio

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A informação em Angola nos anos 1960-74

A informação em Angola nos anos 1960-74

Nos anos sessenta e setenta do passado século, a rádio era o grande meio de comunicação social em Angola, como aliás continua a ser.

Pode até dizer-se que a própria televisão que aqui se faz atualmente continua a revelar o dinamismo muito próprio do tipo de rádio que então se fazia, o que acaba, paradoxalmente, por lhe dar alguma qualidade, que as estações portuguesas não conseguem, tão preocupadas que estão na sua tabloidização.

Não será difícil perceber porque é que se passava isto em Angola. Por um lado, a rádio começou a ser feita por pura carolice, nos chamados rádios-clubes que foram aparecendo pelo menos nas capitais distritais, hoje capitais provinciais, onde os mais interessados na cultura começaram a dar os sinais da sua graça.

Por outro lado, contou também muito a influência brasileira que sempre se fez sentir, quer ao nível de livros – era fácil, por exemplo, arranjar em Luanda os livros proibidos do Jorge Amado – quer de revistas - a Manchette e o Cruzeiro eram as mais vendidas.

E não podemos esquecer que mesmo noutros campos da cultura havia um inter-relacionamento mais desenvolvido do que aquele que acontecia entre a então chamada erradamente Metrópole e o Brasil.

Depois, e talvez seja o mais importante, nos anos cinquenta passaram pelo Huambo, então denominada Nova Lisboa, homens como o Fernando Curado Ribeiro, um profissional de reconhecida qualidade cultural, que teve no Sebastião Coelho um digno seguidor, o qual fez a rádio angolana alcandorar-se a um grande nível, como seu programa Café da Noite.

Não esquecer, entretanto, o papel de pioneiros como Mesquita Lemos, Sara Chaves, Cremilda de Figueiredo, Maria do Carmo Mascarenhas, Joaquim Berenguel e Norberto Franco, nem de outros profissionais como Alexandre Caratão, Santos e Sousa, Carlos Meleiro, Arlete Pereira, Joana Campinos, José Manuel Frota, Cecília Victor, Carlos Moutinho, Adriano Parreira, Rodrigues Costa, Augusto Pita Grós Dias, Fernando Marques, Teixeira Júnior, Gioconda Ferreira, Norberto de Castro, Maria Dinah e Ferreira Arouca.

Nos últimos anos da presença portuguesa, vale a pena citar o Manuel Berenguel, o Francisco Simmons, a Luisa Fançony, hoje a grande animadora da LAC, a Wanda Maria, e evidentemente o José Maria de Almeida, do Luanda 74, e o Emídio Rangel, que revolucionaram ainda mais a rádio angolana como seu profissionalismo e competência, qualidades que depois estender a má rádio portuguesa depois do regresso, inovando e renovando a maior parte das estações, onde alcançaram lugares ímpares, como é o caso de Fernando Alves e de Alberto Ramos, entre muitos outros.

Já agora convém lembrar que a radiodifusão em Angola, cujos expoentes além dos rádios-clubes, foram a Emissora Oficial de Angola, hoje Rádio Nacional de Angola, a Rádio Eclésia, Emissora Católica de Angola e a Rádio Comercial, foi iniciada por um amador devidamente autorizado em28 de Fevereiro de 1931, Álvaro Nunes de Carvalho, o CR6AA, motivo porque é considerado como o pai da rádio angolana.

Está claro que a primeira emissão em circuito aberto foi feita em Benguela, a cidade que queria ser pioneira em tudo, até foi lá que se realizou igualmente a primeira emissão de televisão em Angola, pela mão do conhecido fotógrafo Luís de Camões.

Acrescente-se ainda o aparecimento de a Voz de Angola, criada em 1968, que utilizava um emissor de Onda Curta de 10KW e outro de Onda Média, com 100 Kw de potência.

Na realidade, a Voz de Angola não chegou a existir como emissora autónoma, uma vez que emanava da Emissora Oficial de Angola, EOA, constituindo como que um desdobramento de emissão. No entanto, funcionava nas instalações da EOA, se bem que com estúdios e pessoal de produção próprios.

Assumidamente dirigida à população autóctone, privilegiava as línguas nacionais mais usadas e a música angolana. Por isso chegou a ter bons níveis de audiência, sobretudo na capital, embora os ouvintes se apercebessem claramente que era um órgão político por excelência, como controlo direto da PIDE.

Intencionalmente, só agora refiro a presença de outro profissional brilhante que muito fez avançar a rádio em Angola: Paulo Cardoso. Autor do famoso slogan “Se não quer que noticie, não deixe que aconteça”, Paulo Cardoso estaria à frente do primeiro projeto de televisão comercial em Angola, a TVA, a qual, apesar de não autorizada pelas autoridades, chegou a ser “inaugurada”, em1973, pelo General Costa Gomes, antes de abandonar o cargo de Comandante em Chefe das Forças Armadas em Angola.

Convidado a visitar oficialmente as instalações da estação, na então Rua Luís de Camões, hoje Rua da Missão, ao lado do Hotel Trópico, Costa Gomes só aceitou fazer uma visita “clandestina”, mas as coisas estavam de tal maneira preparadas e de tal modo formalizadas, que no final da visita foi-lhe ofertada uma bobine coma reportagem da sua visita, devidamente montada e registada.

De qualquer modo, foi o primeiro reconhecimento “oficial”.

No entanto, o braço de ferro que a PIDE opunha a qualquer tentativa de instalação de TV em Angola, só vem a ser amainado em27de Junho de 1973, coma autorização da constituição de uma sociedade anónima para a exploração desses serviços em Angola, que criaria a Radiotelevisão Portuguesa de Angola, cuja sigla, RPA, para não ser confundida com a da proclamada República Popular de Angola, mudará para TPA, Televisão Popular de Angola.

No tocante à imprensa, nos últimos anos da presença portuguesa, excetuando a revista Notícia, um projeto profissionalizado com pessoal competente, mas defendendo, antes de tudo, uma Angola portuguesa, mesmo com independência, o panorama não era muito animador.

A Província de Angola, embora jornal privado, podia ser considerado, se não oficial, o diário oficioso, raramente ousando questionar os problemas reais. É preciso termos em conta, por exemplo, que quando um dos seus colaboradores, o António Pires, se meteu a denunciar a poderosa Diamang, a direção do jornal foi obrigada a despedi-lo, para poder continuar a ter os anúncios daquele potentado.

Este jornalista, que também se armava por vezes em literato, viria a fundar o semanário Atualidade Económica, que conheceu algum êxito. Nos últimos anos, a Província de Angola tinha como fundista um tal Humberto Lopes, que vivia em Benguela, onde aliás a delegada Maria Virgínia de Aguiar se via às aranhas para conter os vários interesses contraditórios dos empresários locais.

O oásis era ao domingo, comum suplemento cultural coordenado pelo Carlos Ervedosa, filho de um dos proprietários, que conseguia fazer conhecer a pouca literatura que se ia fazendo, apesar de ter de aguentar os folhetins do Reis Ventura, por sinal vastamente lidos. De salientar que Carlos Ervedosa foi o autor da primeira sinopse de literatura angolana, intitulada Roteiro da Literatura Angolana, editado pela Sociedade Cultural de Angola, 1972.

O Comércio de Luanda, cuja publicação foi várias vezes suspensa, era mais bem feito, primeiro pela acção de um profissional como Ferreira da Costa, comprometidíssimo como regime colonial, e depois pela ação do secretário-geral, José Maria Araújo, que fez muito bem a ponte com o último proprietário, António Champallimaud.

Ficaram célebres neste jornal as crónicas de Alfredo Bobela-Mota, tão sarcásticas quão certeiras. Depois de ter reaparecido em Maio de 1974 com um certo equilíbrio, o apoio editorial à tentativa de golpe de Estado em Moçambique, em Setembro daquele ano, ser-lhe-ia fatal.

Havia também dois diários vespertinos: o Diário de Luanda, da União Nacional, e o ABC, fundado e dirigido por Machado Saldanha, republicano da velha cepa. Ambos cumpriam o seu papel, a seu modo e como a férrea censura da época os deixava, isto é, o primeiro sem ser muito agressivo, e o segundo com muitos entraves.

Como o Estado deixou de publicar anúncios no ABC, por vingança de algumas ferroadas que conseguia ir dando, este começou a debater-se com dificuldades financeiras, que já não eram cobertas pelo lucro proveniente da Livraria ABC na Baixa, próximo da Versailles. Por isso, o ABC acabaria por desaparecer enquanto o seu antigo suplemento, a Tribuna dos Musseques, que se emancipara aindanadécadade60, continuou em circulação.

A Tribuna dos Musseques, na fase de suplemento do ABC, era dirigida por Teófilo José da Costa, vulgo Cu de Palha, que foi um personagem que esteve na base do desenvolvimento do Carnaval de Luanda. Era irmão de Carlos Lamartine, uma das figuras principais da música angolana e que chegou a ser deputado pelo MPLA.

Depois, autonomizou-se e ficou com uma redação perto da Estrada da Cuca em pleno musseque Marçal e o Centro de Informação e Turismo de Angola, CITA colocou lá um branco, Albuquerque Cardoso, para controlar e como redatores Maria Eduarda e Jerónimo Ramos, ambos conhecidos como muito «mussequeiros » até porque eram casados com angolanos.

Fora de Luanda o único diário era O Lobito, dirigido por Mimoso Moreira, onde a extrema-direita campeava com uma incompetência de bradar aos céus.

Quanto aos semanários, fora o Jornal de Angola, uma interessante experiência da Associação dos Naturais de Angola, ANANGOLA, há que recordar o papel importante que teve o Intransigente, em Benguela, depressa debelado pela censura, e uns anos (poucos) do Jornal do Congo, dirigido pelo Acácio Barradas, que conseguia fazer verdadeiras diabruras aos acionistas.

O Jornal de Benguela e o Jornal da Huila limitavam-se a funcionar, embora este fosse mais a voz do dono, o poderoso Venâncio Guimarães Sobrinho, sogro do conhecido Eng. Cardoso e Cunha, que foi ministro de Cavaco Silva, célebre nos últimos anos pelas grandes confusões que arranjou à volta dos seus negócios em vários países africanos.

Lembre-se que este Venâncio Guimarães Sobrinho, que era deputado e membro do Conselho Legislativo de Angola, subsidiava sozinho uma curiosa publicação, a Revista de Angola, dirigida pelo fundador do Comércio de Luanda, Araújo Rodrigues.

E são ainda de referir a revista Trópico, pré-tablóide, do célebre Eng.º. Pompílio da Cruz, fundador da FRA, Frente de Resistência Angolana, em 1974, e que chegou a ser candidato à presidência da República em Portugal, assim como uma coisa que dava pelo nome de Semana Ilustrada, de Borges de Melo, vindo do semanário O Planalto, do Huambo, que pelo menos tinha uma boa “saúde comercial”.

É curioso analisar as capas da Trópico – eram só “belezas” europeias, como se Luanda não fosse a capital de um país africano onde as suas naturais “não pediam meças” às mais elegantes parisienses!

Além do Notícia, propriedade da Neográfica, que pertencia ao Grupo Vinhas, da CUCA, esta editou ainda uma revista de cultura e espetáculos, a Noite e Dia, onde colaborava o conhecido Domingos Van-Dúnem, ultimamente coordenada pelo Rogério Beltrão Coelho, que tem andado por Macau, e um semanário humorístico quase todo feito pelo crítico de teatro Angerino de Sousa, natural de Moçâmedes, que era diretor de uma companhia de seguros, e pelo Xico Orta, que ainda continua a ser um excelente gráfico – é ele que anima graficamente os Roteiros do TT Kwanza-Sul – irmão do conhecido encenador português Filipe La Féria.

Ainda no que concerne às revistas não pode ser esquecida a Prisma, ligada a católicos progressistas e que teve como diretor e principal animador António Palha, que foi casado com Joana Campinos, que pertencia a uma família que viria a estar ligada ao Partido Socialista.

Antes, Joana Campinos fora casada com o radialista e ator Fernando Curado Ribeiro e ainda viria a casar com Sebastião Coelho, uma das personalidades da rádio mais marcantes em Angola. Um dos acionistas principais da Prisma era Mota Veiga, um grande empresário de Angola, originário da região de Viseu.

Foi para evocar a mãe, que foi instituído o Prémio Maria José Abrantes Mota Veiga, cuja primeira edição foi ganha pelo livro Luuanda, da autoria de Luandino Vieira, que a seguir viria dar grande polémica ao vencer também o Prémio da Sociedade Portuguesa de Escritores, originando o seu encerramento compulsivo decretado pelo regime salazarista.

Evocamos, por último, os vários boletins que algumas instituições mantinham mensalmente, sendo os mais notáveis, pela sua qualidade, o Boletim do Museu de Angola, o Boletim do Instituto de Angola, o Boletim do Grupo “Amigos de Luanda”, e, claro, o Boletim da Sociedade Cultural de Angola, que se viria a transformar na revista Cultura, antepassada desta nossa atual.

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