A Fineza de Divergir

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De 16 de Dezembro a 8 de Janeiro o salão do Instituto Português em Luanda- Camões deixou as suas portas abertas para quem quisesse cruzar o olhar com "Divergente", título da exposição da artista plástica angolana Fineza Teta (ENSARTE 2014).

A Fineza de Divergir
Artista Fineza Teta

Os seus quadros chamam a atenção pela agitação de cores alegres espalhadas nas telas e do efeito que isso implica na sua leitura que, de tão intensas, apelam a um estado involuntário de alegria.
A sua discrição criteriosa em relação à composição feminina é outro detalhe que salta à vista, trazendo esta entidade sob várias formas e recorrendo a temas do universo feminino que divergem com sugestões ousadas de simbologias da memória angolana. Mas, como a Fineza veio a divergir nesta colecção de mais de três dezenas de obras? Afinal, “Divergir” é a exposição que estava a dever há muito tempo, que acontece confiante depois de ser premiada com o ENSARTE, porque sempre teve muita timidez em apresentar os seus trabalhos. Por outro lado, também porque teve alguma pressão das pessoas que gostam e conhecem o seu trabalho, como é o caso de Teresa Mateus, Directora do Centro Cultural Português-Camões.
Quanto ao acusado feminismo da sua obra, as pessoas estão sempre a associá-lo ao seu gosto de pintar mulheres. Mas, sempre que questionada, lembra, só para terem uma ideia geral dessa escolha nas artes plásticas, que oitenta por cento dos artistas pintaram mulheres: “Sigo, se calhar, por achar que têm formas muito mais adornadas e realces que os homens não têm, embora ambos sejam muito bonitos nas suas formas geométricas ou anatómicas de ser. E divergir é o que eu sou. Gosto de me aventurar em novas experiências. Escolhi assim para que a exposição não fosse muito carregada com coisas muito minhas, queria ter aqui um pouco de tudo de todos que guardo em mim: opinião, pessoas, ideias, história, ousadia, amor. Divergente é muito mais além e pode ser visto claramente em alguns hábitos da actual sociedade angolana, como a exemplo da conhecida figura da menina que mora no musseque e que usa saltos altos, criando à partida uma espécie de contraste contextual”.
De “Renovação do Kwanza”, uma das obras da exposição que cativa pela brandura, confirma que não é uma mulher, mas sim um rosto masculino com um lenço dobrado. “Não é uma crítica ou uma sátira, mas é, de certa forma, a forma como eu vejo. Eu gosto muito do Kwanza e acho que seria oportuna uma exposição a respeito da nossa moeda”.
Percebeu nas entrelinhas o efeito das cores alegres jorradas nas telas. Mas quando foi criando foi muito espontânea. Não pretendeu desenhar uma mensagem por via disso. As cores alegres foram se assumindo. Um “Pensador” foi outra obra que mereceu inquietações. E do quadro, no fino divergir, reparou que quando chegamos às entranhas dos nossos pensamentos não são muitas as vezes que damos conta da nossa expressão exterior.
Conta que em muitas das vezes quando emergimos, esquecemos que à volta existem pessoas que gostariam de partilhar essa viagem ao interior de nós: mas é impossível. “Nem com parceiro, a dita alma gémea, a gente pode conversar de todo o tipo mas nunca saberemos com profundidade. Aquilo fervilha dentro de outrem, uma barreira que o próprio mistério da maternidade não consegue atingir, porque a mãe nasce o filho mas nunca o coração do filho. O coração cresce sozinho. O pensador é isso. Eu queria que as pessoas tentassem entender a passividade da leitura profunda de outrem num momento de elevada introspeção. O quadro junta abstrato, molhado e realismo”.

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