A propósito das artes plásticas angolanas

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Breve relance sobre a legitimação do discurso criativo  durante os 41 anos de independência

A propósito das  artes plásticas angolanas
Ângelo de Carvalho Fotografia: Arquivo

Como é sobejamente sabido, a arte reflecte - ou refracta?- a realidade social em que o artista está inserido nas suas mais variadas manifestações: a literatura, a dança, a música, o cinema e o teatro. As artes plásticas não poderiam escapar ao jogo da regra desta caracterização genérica, objectivadas nas mais variadas modalidades em que se escora a presente exposição colectiva para saudar o 41º aniversário da independência nacional, onde avulta a pintura, sem prejuízo da escultura, a gravura e a tecelagem. O que equivale a dizer a quadratura do “circulo vicioso” da espontaneidade, que desemboca, grosso modo, no CÍRCULO VIRTUOSO da criatividade que a produção espiritual dos artistas plásticos angolanos, que não deixam de estar, “in limini”, de parabéns pela perseverança e a entrega demonstradas, de corpo e alma, no cultivo do belo que a verdadeira arte condensa.
No fundo, no fundo, os artistas plásticos aqui representados captam as agruras de um real quotidiano atroz, traduzidos no caos social e cultural resultante de uma crise que sobre si de forma assaz se abate, anunciando o fim do ciclo da monocultura dos petrodólares, para o início de um novo ciclo mais coerente e conforme a racionalidade de transformação de um novo mundo, de uma nova geografia emocional como resposta da virulência que se lhe apresenta no seu horizonte sombrio. Mas nem tudo são espinhos, no caminho escarpado e pedregoso que tem de percorrer, pé ante pé, rasgando um itinerário de perspectivas e expectativas. Mais do que desesperos, desventuras e desesperanças, o artista plástico dialoga consigo próprio na tela e na peça escultórica, estabelecendo um nexo de intertexualidade, decorrente de contextos similares que lhe são dados a viver de forma profunda e intensa com os seus “...inter pares”. O artista plástico em presença não desarma com o pincel ou outra ferramenta disponível e “pega teso no trabalho”, como diria Amílcar Cabral, apesar dos constrangimentos e escolhos que se lhe colocam na sua démarche criativa, como que operando respostas dos estímulos pavlovianos que o seu meio circundante induz, enquanto ser social por excelência e demiurgo da cultura por vocação e talento.
Tendo como pano de fundo a independência, a busca da identidade cultural e o signo da liberdade, bem como da afirmação de uma dignidade individual e colectiva perpassa, aqui e ali, na tela, em homenagem a um percurso que o traz ocupado na legitimação de um discurso nosso, em contraposição aos ventos avassaladores da modernidade que ameaçam os valores positivos da tradição em nome de uma pretensa globalização, ou aldeia global que não respeita a grelha axiológica da aldeia local, unidade social imediata de afirmação de uma racionalidade clânica ou mesmo étnica que corporiza, lá longe, a racionalidade estatal em formação, sedimentado por um corpo social em reconstituição naquilo que tem de mais sublime o tecido humano, é dizer, o homem angolano, produtor e produto de cultura, que caracteriza o seu “proprium africanum”.
Dito de outro modo: a linguagem da plasticidade plasmada nesta exposição mais do que o talento manejado pelo autor individualmente considerado, será a expressão da identidade colectiva nacional, que encontra na angolanidade a sua expressão plástica, linguagem gestual e corporal, sons, harmonia, ritmos, tons, tonalidades e cores, ora quentes, ora frias, na horizontal, na vertical ou na transversal, linhas transfiguradas num traçado característico e original, que emprestam a força de um indisfarçável e assumido enraizamento telúrico por mais intimo ou lírico que seja a narrativa do proponente, na ocorrência, o pintor, o gravurista, o escultor ou a(o) tecelã(o).
Os artistas plásticos aqui representados, bem como os seus companheiros de rota, esquematicamente enquadrados em duas ou três gerações, são os herdeiros das mais vivas e ricas tradições histórico-culturais locais, que encontram nas artes angolanas uma das suas formas de expressão mais vibrantes, caldeadas nas suas leituras partilhadas no seu tirocínio pela sociedade e pelo mundo afora, vivências, experiências e conhecimentos, numa palavra, saber adquirido, impregnado no rico filão espiritual onde vão beber – qual tinteiro virtual!- a ousadia e mesmo a irreverência do seu questionamento temático e da sua reinvenção estética e(ou) estilística, pois como dizia o filósofo, “criar não é inventar”, mas sim recriar sentimentos, aspirações e anseios de um povo sob o signo recorrente da liberdade.
Enfim, as temáticas vertidas nas obras expostas, além de evidenciarem a postura estética e o compromisso social dos autores com o seu público, como demanda outro artista africano “engajado” à entrada do sec.XXI, compaginam a História de um país em franca reconstituição da sua tessitura social, simbolizada num dia especial- o 11 de Novembro- apesar dos acidentes de percurso de que os nossos cultores da UNAP não estão alheios nem indiferentes, mas atentos no seu OLHAR crítico, lúdico e até idílico, animados de uma perspectiva dinâmica de reencontro com os caminhos ascendentes do futuro que brota da aurora da manha anunciado uma nova jornada ou do crepúsculo, ainda que nebuloso: dois sugestivos micro-climas feitos motivos artísticos no final das contas, que um bom fazedor da arte pega freio no dente para seguir sempre em frente, não voltando o sentido da luta implicado no grande desafio que tem de vencer no dia a dia do seu labor oficinal, ciente de que caminhante faz caminho pintando ou esculpindo e ensaiando mais sub-géneros artísticos, que fazem a riqueza na diversidade destas distintas propostas que tendes ante os vossos sentidos cinestésicos (odores, sabores, visões, incluindo o barulho do silêncio e etc…)
Portanto, que venham cada vez mais obras deste quilate no firmamento da afirmação da nossa incontornável idiossincrasia, - dir-se-ia, resumidamente falando, a angolanidade que é a expressão viva e revivificada da historicidade da autêntica linguagem plástica do povo angolano, problematizando a todo tempo, a todo gás, quiçá, a todo transe, não o céu e as estrelas, mas o indigente meio circundante- O CAOS URBANO, onde se perdeu, pelo menos aparentemente(?) a noção do nervo central e da desterritorialização simbólica da periferia (os-sem-tecto é um facto paradigmático, a par da nudez, da ignorância, do medo, a fome e da sede pela água potável), sendo que, como dizia Maikoviski, “sujos mexilhões estão agarrados ao nosso casco”, feitos sanguessugas da espinal medula plantada ao nosso dorso…verticalmente (a)levantado com a classe da ARTE que não se deixa vergar sob a trave mestra da inegociável independência(cultural). Amén!

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