A voz perfumada, a voz poeirada e o rio

Envie este artigo por email

Dianne, Nneka e Totó no JAZZING.

A voz perfumada, a voz poeirada e o rio
Dianne Fotografia: Paulino Damião

No dia 24 de Setembro, quando o relógio marcava exactamente 21 horas, o mar esbelto que banha a cidade foi outro mero espectador do espectáculo musical que aconteceu na Baia de Luanda: Jazzing. Foi a primeira edição deste projecto musical de estimável qualidade e que promete trazer duas vezes por ano artistas do melhor que há, tanto de África como do mundo. O angolano Totó foi o anfitrião de uma noite que prometia Dianne Reeves, cantora americana detentora do Grammy de Melhor Álbum de Jazz Vocal de 2015 e que já leva na bagagem mais de 15 álbuns lançados, e Nneka, a nigeriana que Luanda não esquece devido aos seus incontornáveis sucessos que são transversais no continente berço e por ser também um exemplo excelso que a actual África gera no mundo.

Voz perfumada
A voz de Dianne Reeves é mais do que um canto, é uma marca distinta que fica gravada no coração. Por isso, quando abriu o espectáculo, decidiu oferecer-nos a sua singela presença começando com uma breve performance vocal sua, feita a partir dos bastidores, enquanto o quarteto que a acompanhava ia se instalando intimamente no palco. Mal soou o seu canto, nada mais se fez silêncio, tudo parecia cumprir uma regra sonora. Havia ordem, cantava como quem construía. Parece-nos não muito dúbio adivinhar que Dianne traz na garganta uma flor aromatizante e que o seu canto não é mais senão do que o perfume desta flor a desabrochar, a exalar directamente o coração como se fosse o único destino do seu canto. Apenas ao coração, levado na gravitação de todas as suas memórias e sentimentos sob o som perfumado da sua voz. A americana não ficou apenas nas pitadas de jazz torradas à medida que o sibilante saxofone dava às pessoas a inverosímil sensação de que o corpo levitava à força da sua melodia, misturou no seu canto um pouco de bossa nova.

Voz poeirada
Nneka não é uma flor, embora se pareça. Fez-se pedra. É uma pedra atirada nas águas do rio calmo da alma, para a consciência despertar sob a mais incómoda sedução deste nota cujos espinhos que retira das mazelas da África ateou o seu canto empoeirado pelas estradas ainda não asfaltadas que fazem as artérias para o mato África, e como criança que brinca de desenrolar um novelo composto de imagens desfiguradas, Nneka solta de dentro para fora um canto de voz poeirada. Do êxtase do reggae, com ´Book of Job´ começou como quem se debatia por questões espirituais, levou-nos a uma sensação de agonia existencial, enquanto a figura da artista, diante do seu canto dolente e quebrado, ainda conservava nas feições e no sorriso a imaculada inocência das crianças. Mas também quebrou-se com ´My Love´, ´Babylon´, ´Shiningstar´, ´Heartbeat´ e outros que lhe fizeram voltar à alma, ser sopro de um canto em prece para um continente, como foi em ´Pray for You´.

O rio
Numa passagem pelos sucessos que o fizeram uma voz promissora nas músicas de fusão entre soul e R&B, refazendo de modo calmo registos como ´Abre a Porta Tânia´, para grande delírio dos presentes, Totó fez-se mais rio nesta noite em que ganhou mais afluentes. Vamos ver aonde desaguará.

Comentários

Newsletter


Colabore com o Jornal Cultura - Envie-nos os artigos da sua autoria.

Colaboradores Ver todos