Abdullah Ibrahim no Festival de Jazz de Luanda

Envie este artigo por email

Vários músicos negros norte americanos ligados ao jazz, têm, nos últimos anos, alterado os seus nomes depois de se converterem ao islamismo, como forma de afirmarem a sua identidade afro-americana, usando como suporte o facto de 20% dos escravos arrancados de África para o Novo Mundo terem sido muçulmanos.

Abdullah Ibrahim no Festival de Jazz de Luanda

Eis alguns exemplos: o pianista Argonne Thornton mudou o nome para Sadik Hakim; o saxofonista Edmund Gregory passou a chamar-se Sahib Shihab; o trompetista Leonard Graham e o chefe de orquestra Kenny Clarke transformaram-se respetivamente em Idrees Sulieman e Lisquat Ali Salaam; os pianistas Fritz Jones e Walter Bishop Jr. são hoje conhecidos por Ahmad Jamal e Ibrahim Ibn Ismail; os saxofonistas Gigi Gryce e Jackie McLean, por Basheer Qusin e Omar Ahmed; o organista Larry Young, por Khalid Yasin; o pianista McCoy Tyner passou a identificar-se como Sulaimon Saud e o saxofonista William Evans como Yusef Lateef; o multi-instrumentalista cego Roland Kirk acrescentou Rahsaan ao seu nome de batismo; o saxofonista Curtis Porter passou a ser conhecido como Shafi Hadi e o baterista Robert Patterson como Rashied Ali; o baterista Art Blakey adotou o nome de Abdullah Ibn Buhaina, mas não usava o nome muçulmano por já ser muito conhecido como Art Blakey. Todavia, era chamado pelos músicos e amigos de "Buh" (de Buhaina)...

Em 1968, também depois de se ter convertido ao islamismo, o compositor, pianista e saxofonista de jazz Adolphus Brand (Dollar Brand) fugido ao regime do apartheid e radicado, desde 1962, em Zurique, com a sua esposa, a cantora Sathima Bea Benjamin mudou o nome para Abdullah Ibrahim.

Este músico sul africano, paralelamente, ao saxofonista camaronês Manu Dibango, que já esteve em Angola, deverão ser, certamente, as grandes figuras da música africana a participar no próximo Festival de Jazz de Luanda.

Após o Newport Jazz Festival, em 1965, Dollar Brand foi viver para os EUA a convite do consagrado pianista e diretor de orquestra norte-americano Duke Ellington e só após a queda do apartheid voltou, em 1990, à África do Sul, dividindo hoje o seu tempo entre New York e Cap Town, a cidade onde nasceu, em 1934.

Iniciou os seus estudos de piano aos sete anos de idade e tornou-se músico profissional, em 1949, quando tocava em conhecidos grupos do seu país, como os "Tuxedo Slickers" e a "Willie Max Big Band".

Em 1959, passou a integrar os "Jazz Epistles", uma das primeiras bandas de jazz a surgir na África do Sul, onde também participava o trompetista Hugh Masakela e o saxofonista Kippi Moeketsi. É com estes músicos e com o pianista americano John Mohegan, que grava o seu primeiro trabalho discográfico intitulado Jazz in Africa.

Em Zurique, tocava regularmente no Africana Club e apresentava-se em trio associado ao baterista Ntshoko e ao contrabaixista Johnny Gertze, quando foi, pela primeira vez, ouvido por Duke Ellington. Este ficou de tal forma impressionado que, em 1963, apoiou a gravação, do disco Duke Ellington Presents The Dollar Brand Trio para a editora Reprise.

Em 1965, após a participação de ambos no Festival de Newport, o ainda Dollar Brand passou a tocar temporariamente na orquestra do Duke Ellington, simultaneamente, no "Elvin Jones Quartet", no grupo do saxofonista argentino Gato Barbieri e ainda com o trompetista norte-americano Don Cherry.

Em 1983, formou o septeto "Ekaya" (o mesmo que casa ou lar) onde deu largas à sua criatividade e lançou pela editora Enja o álbum Zimbabwe, onde numa das faixas dedica um tema ao saxofonista americano John Coltrane.

Afirmam os grandes especialistas, que Abdullah Ibrahim é um músico hipnótico que, no plano da harmonia, cultiva os chamados acordes de mão cheia (oitavas e nonas intercaladas com terças, quintas e sétimas alteradas), uma característica também observada em Ellington e Billy Strayhorn.

Recorre também a dissonâncias ao estilo Thelonious Monk e até aos clusters (cachos de notas), que fazem lembrar um outro pianista não menos famoso: Cecil Taylor. É este grande músico africano que, em Luanda, teremos a oportunidade de ouvir e aplaudir.

Comentários

Newsletter


Colabore com o Jornal Cultura - Envie-nos os artigos da sua autoria.

Colaboradores Ver todos