Angola Cinemas: Uma ficção da liberdade

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Ir ao cinema era um evento social; o que é feito dos edifícios desses cinemas? Quais as perspectivas para o seu futuro?

Angola Cinemas: Uma ficção da liberdade
Miguel Hurst (à direita) na sessão de venda e autógrafos acolhida na Fortaleza São Miguel

Foi na noite do dia 14 de Abril que o Instituto Cultural Alemão-GOETHE apresentou o seu livro de fotografias, com a cerimónia de apresentação acolhida na Fortaleza São Miguel, em Luanda. Editado a três mãos: Cristiane Shulte, Gabriele Stiller-Kern e Miguel Hurst, e contando com textos de Maria Alice Correia e F. João Guimarães e de Paula Nascimento, “Angola Cinemas” é o título de um livro de fotografias (da lente do fotógrafo angolano Walter António) que retratam pormenorizadamente o estado actual das várias salas de cinema dispersas por todo o país, muitas delas em estado de abandono. O propósito deste livro assenta na “preocupação do Instituto Goethe em levantar questões sobre o desenvolvimento, o crescimento, o futuro, mas também sobre o passado, sobre os limites do crescimento e sobre o património cultural, que significa espelho e memória da humanidade, sendo que a visão do passado é o ponto de partida para o presente e o futuro”, atesta a equipa de edição no prefácio à obra. Noutro ponto em que enfatiza o valor arquitectónico destas estruturas, realça um reconhecimento ao valor urbano, a importância histórica de um equipamento cultural único, quer despertar a consciência pública sobre um estilo arquitectónico singular e a intenção de estimular um discurso sobre as formas antigas e actuais de urbanidade, visando a reflexão sobre as possibilidades do futuro, quer relembrar as práticas culturais e os costumes sociais que o cinema potencializou.

Do espaço fechado ao espaço aberto

Cinemas, teatros, tertúlias, palcos de cultura, de informação, de entretenimento, espaços activos de cidadania, de contacto directo com a realidade dos tempos e com um futuro que se deseja. Os cinemas de Angola são o reflexo da história do país; neles tiveram palco os grandes espectáculos, as grandes estreias, o entretenimento e a propaganda de um regime colonial.
Os primeiros cinemas de Angola, construídos nos anos 30 do século XX, reflectem uma arquitectura típica do Estado Novo1, consistindo em espaços fechados repletos de mensagens nacionalistas e imperiais. A arquitectura e o urbanismo foram o veículo da mensagem política e identitária, expressando o pensamento de um Estado forte e autoritário.
O período que se segue à Segunda Guerra Mundial trouxe consigo um novo compromisso para as cidades, procurando a cidade funcional, na qual as necessidades do homem deveriam ser colocadas expressas e resolvidas. Os planos urbanos libertam a terra, criam espaços verdes e espaços públicos, as densidades são verticais e os edifícios elevam-se como se “flutuassem” sobre o território, obedecendo aos preceitos do Movimento Moderno que surgiu no início do século XX.
Os ideais da cidade do Movimento Moderno, publicados em 1942 na Carta de Atenas2, não são acolhidos na antiga metrópole, fechada, mas ganham força em Angola. Angola foi considerada um lugar de “experimentação”, ou seja, um lugar com poucas edificações definitivas e onde a sociedade com poder almejava boas condições para viver. Estas condicionantes facilitaram a implementação de novas edificações de acordo com as directrizes do urbanismo moderno.
Em Portugal isso não foi possível porque já existiam conceitos de cidade e havia também um grupo muito forte apoiado pelo poder que exigia uma arquitectura sem mudanças e tipicamente portuguesa. “É neste contexto que as colónias constituem um território disponível para a experimentação construtiva. São regiões menos pressionadas pela presença de sistemas construtivos tradicionais.”3
Deste modo, estavam abertas as portas para novos horizontes que proporcionaram postos de trabalho a jovens munidos de saber e dispostos a revolucionar cidades a jamais serem esquecidos pela dedicação ao trabalho e às suas responsabilidades. Vasco Vieira da Costa (Mercado do Kinaxixi, Torre Secil, Anangola) e Fernão Lopes Simões de Carvalho4 (Capela da Ressurreição, Rádio Nacional de Angola, Unidades de Habitação do Bairro Prenda), são dois dos arquitectos que procuraram Le Corbusier para se envolverem no Movimento Moderno. Estes, juntamente com tantos outros portugueses, como José Pinto da Cunha (Rádio Nacional de Angola, Unidades de Habitação do Bairro Prenda, Edifício Cirilo), os irmãos João e Luís Garcia de Castilho (Cinemas Restauração, Miramar, Karl Marx, N’Gola), António Campino (Hotel Presidente Méridien, Comando Naval) e Francisco Castro Rodrigues (Igreja do Sumbe, Cine Flamingo no Lobito), iniciaram o processo de concretização das doutrinas do Manifesto num território tropical.
Luanda, a capital de Angola, é particularmente marcada pelo Movimento Moderno, afirmado por alguns autores como Tropical5. Uma cidade estruturada por zonas residenciais, verdes, de instituções, de indústria e de espaço público. Grande parte dos edifícios são de planta e fachadas livres, por vezes elevadas, criando sombreamentos, com brise-soleils ou grelhas, procurando que cada um seja uma unidade funcional, devidamente adaptada ao ambiente tropical. E, pouco a pouco, essa filosofia urbanística passou para as restantes províncias de Angola, proporcionando qualidade de vida para os locais mais remotos do país. Os cinemas da década de sessenta são o reflexo do Moderno Tropical, são estruturas de betão armado, leves e abertas que se interligam com o espaço público, os espaços verdes e a paisagem. Os novos cinemas reflectem a importância da adequação da cidade às necessidades do homem. Assim, produziram-se edificações que privilegiavam a melhor ventilação e a menor insolação. Contudo, na escolha da melhor ventilação, as fachadas continuaram a merecer protecção; para tal, fizeram-se elementos leves em betão armado e não só, para possibilitar uma melhor protecção como o avanço das fachadas nos andares superiores, proporcionando sombreamentos nos andares inferiores e vãos largos. Em relação à altura dos edifícios, foram estudados os movimentos dos ventos e criaram-se edifícios de diferentes alturas de acordo com a ventilação, para possibilitar que a brisa marítima avançasse para a cidade, isto no caso concreto das cidades com baías.
Como no passado, os cinemas da década de sessenta reflectem o pensamento e a identidade da sociedade. Muitos dos que viviam e chegavam a Angola gritavam silenciosamente pela independência das colónias, mas tal só foi possível no final da década de setenta, após uma luta de constantes dificuldades.6 Em Angola surgiram diversas “salas de cinema” e “cine-esplanadas”. Até à independência, em 1975, contavam-se mais de meia centena, distribuídas por todo o país: de Cabinda ao Namibe, passando por grande parte das capitais provinciais.
Podem destacar-se, na província de Benguela, o Cine Flamingo e o Kalunga; na Huíla, o Sagres e o Arco-Íris; em Luanda, o Cinema Restauração, o Atlântico, o São Paulo, o Tivoli e o Miramar; no Namibe, o Cinema Estúdio e o Impala Cine. Estas estruturas são provas dignas de realce do progresso alcançado ao longo dos anos.
Foram criados cinemas para “brancos” e “pretos”: o Cine-Teatro Nacional, em Luanda, que foi edificado para os primeiros, e o Cinema Colonial para os segundos. Foram estes os cinemas da mudança. Importa referir que, em Luanda, o Cinema Restauração (actual Assembleia Nacional), o Império (actual Cine Atlântico), o Miramar e o Avis (actual Cinema Karl Marx) eram espaços elegantes com materiais nobres e arte de baixo e alto-relevo, que se destinavam à alta sociedade. O Cine-Bar Tropical era uma estrutura mais informal e destinada a um público de classe média. Por sua vez, o Cine Colonial, ou “Clô Clô”7, no Bairro de São Paulo, era destinado ao povo e, quando esgotava a sua lotação, as pessoas traziam as cadeiras de casa. Nas restantes cidades acontecia a mesma hierarquização que, por si só, e pelo custo do acesso aos cinemas, determinava o tipo de público que podia ou não frequentar essas salas. A maior sala de cinema é o Cine Miramar, em Luanda, com capacidade para 1.622 pessoas e, logo a seguir, o Cinema Atlântico, com capacidade para 1.489 pessoas. A nível das restantes cidades seguem-se-lhes o Cine-Teatro Monumental em Benguela com capacidade para 1.194 pessoas. As salas de cinema com menor capacidade em Angola são para 300 pessoas e são as salas de cinema de Calulo na Província do Kuanza Sul e do Tômbwa na província do Namibe.
A partir de 1913 iniciou-se a produção cinematográfica em Angola, pelo cineasta Artur Pereira, com o filme o “Caminho de Ferro de Benguela”. Nos documentários produzidos manifestava-se o gosto pelo conhecimento do país nas suas vertentes históricas e culturais comparadas aos feitos portugueses. Era uma forma de manifestação do desenvolvimento e da acção do colonialismo, mostrando a “evolução” entre o exótico e o natural existente, e as novas cidades, à semelhança da cidade europeia. Foi nos anos 40 que surgiu a primeira longametragem
com o filme “O Feitiço do Império” de António Lopes Ribeiro, o primeiro filme de ficção.
Nos anos 70 é que surge outro tipo de filmes baseados nas obras de escritores angolanos como “Monangambê” (1971) e “Sambizanga” (1972) de Sarah Maldoror, inspirados nas obras do escritor Luandino Vieira, ou “Esplendor Selvagem” (1972) de António Sousa, que espelhavam a realidade que se vivia em Angola. O filme “Monangambê” mostrava os contratados e as dificuldades por que passavam os homens para conseguir algum dinheiro para melhorar as suas vidas.
Havia uma censura que determinava os filmes que as pessoas podiam ver, mas a partir de 19618 os cidadãos eram, de uma maneira geral, respeitados. Num período anterior, os angolanos não podiam ver todos os filmes. Devidamente organizados, definiam-se as idades e os horários adequados para cada um poder frequentar o cinema. Muitas meninas tinham que calçar sapatos de saltos altos, e maquilhar-se para parecerem mais velhas, ou mesmo levar consigo o bilhete de identidade para poderem assistir a certos filmes9. Os preços praticados variavam, já nos anos 70, entre os 10 e os 25 escudos, o que para os menos abastados era considerado um valor elevado. Em anos remotos os valores eram mais baixos, mas a qualidade dos filmes e das salas de cinema eram inferiores. Contudo, era o meio que as pessoas encontravam para a diversão, para namorar, para rever amigos e se mostrarem presentes, e uma forma de provar que se era assimilado, para garantir um espaço melhor na sociedade.
Era costume ir-se ao cinema diariamente, mas os menos abastados iam frequentemente ao domingo, e vestia-se sempre o melhor traje para se estar apresentável no cinema. De uma forma geral, os horários mais comuns para as sessões eram: às 15:00, horário para as crianças, às 20:00 para maiores de 18 anos e às 22:00 para maiores de 21 anos. Os cinemas localizados em bairros mais humildes eram compostos apenas pela sala de cinema e, no exterior, na entrada principal, era o local onde se adquiriam as guloseimas, entre as quais eram mais comuns o pirolito, o estica, o baleizão, e eram comercializados por populares devidamente autorizados e com cartão de sanidade; dentro dos cinemas dos bairros mais nobres havia um Snackbar com refrigerantes como a Coca Cola, a Pepsi Cola, a Dussol, a Mission-maçã, a Coco-pina e a Quicky. Também havia as pipocas e guloseimas, café e outros produtos frequentes nos cafés da actualidade.
Os cinemas de Angola são espaços abertos, são intervenções nas quais diversas artes, como as artes cénicas e as artes plásticas, se interligam com a arquitectura, cada vez mais identitária e independente. A “experimentação” duma arquitectura nova e moderna em Angola possibilitou ambientes diferentes e interessantes. Nos intervalos dos filmes assistia-se a grupos de música e dança, que aproveitavam o momento para as suas exibições, uma maneira de se tornarem conhecidos. Por vezes, organizavam-se exposições de pintura, fotografia ou escultura, que eram visitadas antes ou depois de se ver os filmes. Por isso os cinemas eram considerados espaços para a divulgação da cultura. Foi no Cinema Avis, em Luanda, que se realizou o concurso Miss Angola onde a Riquita, uma filha do Namibe, foi eleita Miss, a primeira Miss Angola que não era branca nem nascida em Portugal. Realizaram-se também no Cinema Avis espectáculos de Amália Rodrigues, Charles Aznavour, Roberto Carlos, Percy Sledge, Ray Charles, e dos Boney M10.
Apesar de não ser muito frequente, faziam-se algumas festas nas salas de cinema. Em algumas localidades, eram apresentadas festas de fim de ano de várias escolas ou realizadas por madres católicas e pela comunidade. Cada pai levava o seu filho ao espectáculo, pagava a entrada, e os valores serviam para ajudar famílias mais desfavorecidas. Isso acontecia nas localidades mais pequenas, como vilas no interior de Angola. Nas grandes cidades como Luanda, Benguela, Malange, Nova Lisboa (Huambo), Novo Redondo (Sumbe), Marechal Carmona (Uíge), Sá da Bandeira (Huíla) e Moçâmedes (Namibe) realizavam-se espectáculos musicais e teatrais com profissionais angolanos, portugueses e brasileiros.
O caso mais evidente na promoção de artistas angolanos foi, sem dúvida, a prestação de Luís Montez, que foi um homem que se notabilizou na promoção de novos talentos ao nível da música angolana. Escolheu o Cine N’Gola, em Luanda, para promover a música angolana, procurando novos talentos, como os cantores Luís Visconde e Urbano de Castro11. O grande objectivo era também proporcionar divertimento para as massas e trazer a Angola figuras de destaque, como o moçambicano Gabriel Estêvão Monjane, o homem mais alto do mundo daquela época.12
Havia uma consciência em relação à arquitectura, porque os cinemas eram considerados locais agradáveis, espaçosos e belos. Todos voltavam, não só pelo filme, como também pelo convívio que o espaço proporcionava.
Os filmes da época mais vistos foram “Paragem de Autocarro”, o primeiro filme nos anos 70 no acto inaugural do Cinema São Paulo, em Luanda; “Ben Hur” (1959), um filme para maiores de 21 anos que passou no Cinema Restauração; “A Ponte do Rio Kwai” (1957), um filme que foi exibido no Cinema Miramar. Os filmes “Trinity”, “007”, “My Fair Lady”, “Sansão e Dalila”, “Os Três Mosqueteiros”, “Os Malucos no Supermercado”, “Robin Hood”, “Casablanca”, “Zorba o Grego”, “Chica da Silva”, “Não Sou Digno de Ti” e tantos outros, chegavam a Angola e encantavam o público. Foram exibidos sobretudo filmes de Hollywood, portugueses e brasileiros. Os filmes de Hollywood eram os mais famosos e os que tinham melhores resultados de vendas nas bilheteiras.
O cinema português também marcou presença com filmes como “As Pupilas do Senhor Reitor”, “Amor de Perdição”, “Aldeia da Roupa Branca”, “Pátio das Cantigas”, “O Leão da Estrela”, “O Costa do Castelo”, “A Canção de Lisboa”, com actores famosos como Beatriz Costa, Vasco Santana, António Silva e Maria Matos.
A música esteve sempre patente nos filmes, sendo um complemento importante. O cinema era entendido como um acto cultural alargado. As salas de cinema, ou os cine-esplanadas, foram palcos de espectáculo e divertimento e a maioria deles funcionou ainda depois da independência, pelo menos até à década de noventa. O conflito armado levou ao abandono dos cinemas, visto que uma boa parte dos técnicos deixou o país. O contexto nacional, agora independente, associava-se a novas realidades e a novos contextos. Estabeleceram-se fortes relações com regimes de génese socialista como Cuba, União Soviética, República Democrática Alemã, Jugoslávia, Polónia e Checoslováquia. Esta nova dinâmica trouxe consigo outro conhecimento, novos modelos de vivência e de apropriação do espaço da cidade e das suas instituições singulares.
Os cinemas passaram a ser frequentados por todos, sem qualquer distinção, mas os filmes eram comercializados pelos países com os quais Angola tinha relações. Antes de cada filme ser exibido havia a censura, ou seja, um grupo de técnicos idóneos, funcionários do Estado, indicavam quais as idades adequadas para assistir a determinado filme. Em alguns filmes existia alguém que pertencia à censura e que dava uma explicação sobre o filme, para facilitar uma melhor compreensão antes da sua exibição.
Pode-se afirmar que as salas de cinema passaram a ter um público mais simples e modesto, e muitos dos que frequentavam os cinemas antes da independência deixaram de os frequentar, porque consideravam que os filmes de Hollywood tinham melhor qualidade e que outrora existiam outras condições no atendimento. Havia mais rigor: nenhuma criança ia ao cinema sem um acompanhante mais velho e existia um fiscal que controlava o comportamento de todos.
À medida que o tempo foi passando, notou-se que os filmes eram quase sempre os mesmos, que as salas de cinema foram ficando degradadas e que demorava muito tempo até as “reformas” chegarem; aos poucos as salas de cinema perderam a sua frequência. Hoje, muitos deles encontram-se encerrados e apenas reabrem para eventos culturais de música, teatro, dança e celebrações religiosas. É notória a degradação contínua das estruturas, de um património vanguardista e singular. Destacam- se as intervenções feitas no Cine Atlântico, que lentamente lhe devolvem a dignidade de uma casa de cinema e de espectáculos.
Actualmente, as salas de cinema que surgem pelo país são modelos fechados, modelos importados de um qualquer território, que nada têm a ver com a identidade angolana. O conceito passou de casa de espectáculos diversos, aberta e integrada no espaço público, a um espaço fechado, focado no cinema e no consumo massificado.
“Pelo seu lado as arquitecturas modernas projectaram edifícios que, para além de belos, foram pensados para modos de vida, clima e tecnologias locais criando espaços públicos e privados úteis e confortáveis.”13 Há preocupação e reconhecimento da importância social e política dos velhos cinemas, e há também vontade, mas para além disso tem de haver um plano claro de reabilitação e revitalização destes espaços singulares que foram palco de alguns dos maiores momentos do país.


Maria Alice Correia e F. João Guimarães |
Fotos: Walter Fernandes|

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