“Angola, mares & lagoas”

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Um excelente trabalho de Carlos Lopes.

Após "Filipa de Angola" e "Angola, Noites e Luas", Carlos Lopes, um músico eclético, nascido na província de Benguela, reaparece com mais um bonito trabalho discográfico, intitulado: "Angola, Mares e Lagoas".

Um som nostálgico, influenciado pela corrente fria que passa ao largo das águas mornas das bonitas praias da sua cidade e que o leva a querer morrer a amar o mar, mesmo quando está próximo da lagoa, que fica logo abaixo do Turitanga, um aprazível espaço de lazer, onde, lá do alto do morro, se vê paisagem a perder de vista, pássaros de alto porte quase parados no ar e o rio Dande a serpentear por entre os palmares.

Só seguindo-lhe o curso até ao fim, somos capazes de sentir o cheiro da maresia e o gosto de sal na boca, quando as barrentas águas passam a ponte e se entregam de forma voluptuosa às águas do Atlântico.

Com voz grave, bem entoada e relevante sentido lírico nos versos que compõem as suas canções, caracterizadas pela exaltação de coisas muito simples, muito ecológicas, às quais se associa um bonito poema de Aires de Almeida Santos (aquele que fala de um coqueiro que não gostava de ouvir casos de mágoa e de dor).

Carlos Lopes, através de sequências harmónicas bem construídas, inventa melodias muito agradáveis de se ouvir. Temas que revelam a sua capacidade de observação fotográfica para coisas aparentemente simples do nosso quotidiano, mas muito ricas de significância:
- A força da bela "Malia" e da "Malia Malia", que cantam enquanto carregam lenha à cabeça com o filho às costas;
- Os aromas de peixe e de sal, associados a expectativa de uma mãe, que, com o seu filho, se mostram expectantes pela chegada do pescado que se aproxima da praia dentro de uma canoa, porque, às vezes, a sereia se zanga e nada chega para comer;
- A satisfação de haver bom pasto para os bois, "Onongombe", uma canção interpretada em Nanheca Humbe, composta e acompanhada à guitarra pelo seu filho Danilo Lopes.

Pela quantidade e qualidade de trabalhos já realizados, no que se refere ao equilíbrio entre o ritmo e a harmonização, entre o ritmo e linha melódica, entre o ritmo e os arranjos instrumentais e vocais, entre o ritmo e a qualidade do texto (quando escrito em língua portuguesa), entre o ritmo e a forma de interpretar... para já não falar da qualidade dos músicos, da mistura e da masterização...

Este CD de Carlos Lopes é um dos bons exemplos de maturidade musical.

Se as produções a cargo de Mário Garnacho e da Banda Maravilha são, em nível de qualidade, comparáveis às anteriormente experimentadas, quer ainda em relação a Mário Garnacho, quer em relação a Jorge Cervantes e Zé Afonso, as agora realizadas por Armando Gobiss, não ficam nada a dever às anteriores.

As duas versões, de Malia, por Mário Garnacho e "Malia e Malia", por Armando Gobiss (esta, por sinal, mais instrumentalizada pela introdução de sopros), estão, independentemente deste facto, ambas muito bem produzidas.

Diria que temos mais um bom pianista e mais um produtor de eleição no mercado.

Mário Garnacho (piano e produção musical), Ruca Rebordão (percussão), Hélio Cruz (bateria), Miguel Gonçalves (trompete) e Vânia (a moçambicana do trio "As Delírio"), são os bons músicos que se mantiveram para este novo trabalho, que, tanto quanto parece, Carlos Lopes não abre mão. Porém, não posso deixar de destacar neste trabalho a presença de, entre outros bons e experientes músicos, os da Banda Maravilha, de Zézé Ngambi (bateria), de Nana Sousa Dias e Otis (Saxofones), de Dalú Rogée (percussão), de Marabu (baixo), de Tomás Pimentel (trompete), de Ciro Bertini (acordéon), de Múcio Sá e Betinho Feijó (guitarra elétrica).

"Angola, Mares & Lagoas" é, antes de mais, uma legítima inquietação de Carlos Lopes, produto da sua saudade por um mar cujas marés, por vezes, não chegam a encher a lagoa.

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