Angola precisa defender a kizomba

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Poderá acontecer vermos os hits de 50 Cent, Ariana Grande ou Byoncé serem dançados em palco por bailarinos que executarão passos de kizomba, mas que dirão apenas tratar-se de Urban Kiz. Bem, virou febre e, no Youtube, a kizomba cou resumida ao termo Kiz, para se acrescentar
outra palavra: Urban, certamente a querer dizer kizomba urbana. Contudo, questionamos: urbana em contradição a que kizomba?
De gueto, musseque ou sanzala?

Angola precisa defender a kizomba
Primeiro passaria para o registo da própria palavra kizomba Fotografia: Jornal Cultura

Poderá acontecer, e sem causar grande espanto ou admiração, vermos os hits de 50 Cent, Ariana Grande ou Byoncé serem acompanhados em palco com bailarinos que executarão passos de kizomba mas que dirão apenas tratar-se de Urban Kiz. Bem, virou febre e, no Youtube, a kizomba ficou resumida ao termo Kiz, para se acrescentar outra palavra: Urban, certamente a querer dizer kizomba urbana. Contudo, questionamos: urbana em contradição a que kizomba de gueto, musseque ou sanzala? A saber.
Quem visualizar este termo no Youtube, pode tanto ficar decepcionado pela forma como a kizomba, dança, fica descaracterizada, ou encher-se de garbo se achar nesta mudança de ritmo alguma criativa imaginação. Urban Kiz funde-se com técnicas de dança tecno, tanto que apressa os passos como paralisa em alguns momentos, tornando a dança de base kizomba, a já Urban Kiz, uma espécie daquele toque maquinal que os americanos tinham difundido quando a dança tecno estava em voga. Trata-se do famoso passo robocope, que tanto vimos a ser publicitado nos filmes de acção, drama e comédia já bem cozinhados em Hollywood. O Urban Kiz é moldável aos tipos de música em voga na América e Europa, tanto que quem visualizar o Youtube encontrará o Liberian Girl, de Michael Jackson, a ser dançado ao estilo Kizomba, bem como Sean Paul, Henrique Iglesias e outras pérolas inimagináveis até então. Pelas nossas carências, escusamo-nos de discutir a nossa inferioridade mediática e a gigantesca distância entre a nossa indústria de entretenimento e a deles, tanto europeus como americanos. Porque o fenómeno kizomba pode estar a conquistar espaços que não imaginamos, somente ouvindo o testemunho de quem vive lá fora e frequenta os sítios em que esta dança vai sendo metamorfoseada segundo os segmentos culturais dos povos que a recepcionam. Ora, se fosse apenas pela umbigada contínua da tarraxinha, claro está que teríamos mais dificuldades em tomar a dita Urban Kiz como sendo uma dança derivada da kizomba, ou mesmo uma kizomba acelerada ao passo tecno, porque a nossa chamada tarraxinha muito se assemelha a estilos que no Brasil chamam de brega, que é um movimento ainda mais maçante do que a tarraxinha, e arrocha, mas que se distingue por ter passos semelhantes ao da lambada.
Diante deste crescimento vertiginoso e múltiplo, cabe-nos sermos fortes e homogéneos a nos defendermos, como também não criarmos empecilhos em nos difundirmos, desde que sejamos, principalmente, fortes a sermos nós. A kizomba avança e o medo é de um dia tomar o mundo sem que ainda seja mundialmente conhecida como angolana, sendo estas algumas das preocupações expressas pelo mestre Petchú (Pedro Vieira Dias), durante o encontro que aconteceu na tarde do dia 25 de Janeiro no Palácio de Ferro, abrangido na III Trienal de Luanda, e que definiu os membros da comissão instaladora de uma associação de dança por vir a nascer brevemente, mas que ainda, enquanto movimento, responde pelo nome de Amplo Movimento de Revitalização da Dança em Angola-AMORD, coordenado por Maneco Vieira Dias.
“Eu acho que isso parte de uma organização de vários eventos cá. Sendo a kizomba já uma indústria comercial, como eu gosto de dizer, porque em cada canto do mundo não passa um final de semana sem acontecer um festival, e em muitos destes a kizomba já se faz presente. Enquanto a Cultura olhar com certa ingenuidade ao movimento da dança kizomba que está a acontecer fora de Angola, não vai ganhar nada com isso, muito menos o próprio país. Primeiro passaria para o registo da própria palavra kizomba, até porque já tivemos casos na Europa em que indivíduos tomaram a vil e delinquente conduta de auto patentearem-se como criadores deste género. Várias vezes abordei essas pessoas. A kizomba, sendo propriedade do povo angolano, a que esse é um grande desafio para o ministério da Cultura, dando-lhe possibilidade de entender o que se passa como fenómeno a nível do mundo, enquanto indústria rentável”.
Petchú, este professor de danças angolanas na diáspora, deixa a seguinte sugestão, quando questionado sobre as medidas a tomar que ajudem o conhecimento da kizomba: “Outra sugestão, para bem definir o estilo do qual poderão nascer outros, seria fazer e promover espectáculos de kizomba e encorajar os músicos a levarem bailarinos deste género aquando das suas deslocações no estrangeiro. Mas há músicos angolanos que participam nestes festivais, e ainda recentemente o Yuri da Cunha esteve em Espanha para participar no Festival Dance. Agora, a ideia, conforme atestam os músicos, é que neste momento a dança é que está a levar a música. Se eles como músicos têm esta consciência, porquê não levar gente a dançar nestes espectáculos?”, questiona.
E aponta outra solução: “Primeiro, Angola precisa defender a kizomba. Temos de ver a kizomba não só como dança de farra ou de discoteca mas também como uma dança possível de ser elevada à arte de espectáculo. Acredito que espectáculos só de kizomba ou semba podem vincar tanto dentro como fora do país. Mukano Charles é que tem conseguido levar alguns bailarinos de semba e kizomba para fora do país, quando a ideia não é ficar pelos concursos e sim evoluir para espectáculos. Precisamos de representação de pessoas que saiam daqui de Angola para defesa deste género que cada vez mais vai conquistando o mundo”, aponta o também bailarino do Kilandukilu.

Não somos inferiores
A sala concordava em unanimidade que a dança está a passar por um período muito difícil, e que quase desapareceu do panorama cultural. Maneco Vieira Dias, numa espécie de slogan de motivação, fez entender os presentes, de plateia composta por quadros do MINCULT, bailarinos, directores de grupo e amantes da dança, que a classe da dança não é inferior às restantes classes artísticas do país, apontando como exemplo o modo estóico como o teatro foi se assumindo para conseguir alguns ganhos e visibilidade junto do público. E disso, conclui: “Não somos inferiores, nem vamos a reboque”, para aplauso de todos, que vêm na AMORD uma esperança para a dança em Angola. Maneco pontua que a ideia de criar uma associação surgiu um pouco depois do encontro entre a ministra da Cultura, Carolina Cerqueira, e a classe artística, para que a dança possa ganhar um lugar devido, paralelo à música, literatura, artes plásticas, artesanato e teatro.
Porém, o espectáculo “Ninguém pára o Vento”, apresentado nos dias 21 e 22 no decurso da III Trienal de Luanda, foi um sinal do modo inclusivo como a futura associação pretende trabalhar, garantido, conforme leu a professora de dança Elizeth Rodrigues no texto de apresentação do movimento, que todos participem de forma igualitária e sem as prejudiciais distinções que só têm separado a classe.

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