António Ole: Da estética da pobreza a uma certa noção do sublime

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Em 2011, António Ole fez sessenta anos de idade, com uma trajetória de mais de quatro décadas e uma obra artística multidisciplinar (pintura, escultura, fotografia, cinema e instalação, etc) bastante coerente e que faz dele, muito provavelmente, o artista plástico angolano vivo mais importante.

Da estética da pobreza a uma certa noção do sublime Fotografia: António Ole
I.
Como é que tudo começou?

António Ole, nasceu em 1951, em Luanda, numa cidade que já era cosmopolita desde os alvores do século XX. O comic americano esteve presente no ambiente visual da sua meninice e já na adolescência o Pop-art congestionou o seu olhar. Embora realizasse as suas primeiras exposições entre 1967 e 1968, no Museu de Angola (hoje Museu Nacional de História Natural), o escritor angolano José Eduardo Agualusa ao descrever a entrada de António Ole no mundo das artes, afirma que ele "...entrou polémico no mundo das artes plásticas.

Foi em 1970, no VI Salão de Arte Moderna de Luanda. Ole, com apenas dezanove anos, chamou a atenção de todos com um quadro representando o Papa Pablo VI a tomar a pílula. O quadro foi premiado, mas o Movimento Nacional Feminino não gostou da ironia e, alegando "ofensas à Igreja e ao Estado", conseguiu que o retirassem da exposição. Hoje, Ole recorda o incidente com um sorriso. Muitas aguas já correram desde então" (Agualusa, 1992: 6).

Nos anos 50, Angola é considerada "a joia do império português" (Pezarat Correia) e no terreno das artes plásticas portuguesas, como tão bem se caracteriza em A Arte e a Sociedade Portuguesa no século XX (1910-1990) (França, 1991), o neorealismo -como chamaram em Portugal ao realismo socialista- e o surrealismo predominavam como correntes estilísticas.

Durante toda a primeira metade do século XX, Portugal, tanto pelo seu parco desenvolvimento tecnológico como económico, social e cultural fica atrasado e na periferia dos outros países ocidentais. Em finais da década, em África vive-se o auge dos Movimentos de Libertação Nacional, registando-se independência do Ghana (1957) e da Guiné Conackry (1958).

No sangrante ano do inicio da luta armada em Angola, em 1961, ele tinha dez anos e quando, nos anos 70, António Ole irrompe nos meios artísticos de Luanda, impera "... o baile de máscaras de uma burguesia inconsolável porém medíocre, velhaca, disposta a vender a cara e a cruz de uma beatificadora ação civilizadora que trespassava cabeças humanas na ponta indefesa das suas baionetas, patrona ciumenta de uma plêiade de naturezas mortas monocordicamente folclóricas e grosseiras guardiãs da sua imaculada imagem" (Mestre, 1980:6/7) e a sua obra plástica dialoga tanto com as correntes estilísticas predominantes em Portugal (abstracionismo, fundamentalmente) como com os novos ventos que desprende a escola americana (Action-Painting, Pop-Art e conceptualismo).

Por estes anos, seguramente inspirado pelo livro Etnias e Culturas de Angola (Redinha, 1970), que ganha o concurso do Banco Nacional de Angola e, também, porque a problemática da identidade cultural está na crista da onda, António Ole realiza uma viagem de investigação a uma das províncias dos tchokwé (Lunda-Norte), ao este de Angola, e estuda a sua pintura mural, os seus desenhos feitos sobre a areia e todo o universo de imagens que serviam para decorar tronos, incluindo a cerâmica e a escultura da região.

II.
Liberdade criativa

Vem a Independência de Angola (1975) e, como diz David Mestre, "...desordenado o argumento para o qual se educou, duas vias (distintas) abrem-se ao artista para ser eficaz: o silencio da morte ou a exaustiva reelaboração dos circuitos expressivos.

Por esta última optou, com todas as consequências da sedução, que tanto ridículo produz sobre quem lhe sai de passo munidos apenas de boas intenções, que de nada servem (...) quando estão separadas do restante arsenal deontológico da arte" (Mestre, 1980:6/7).

Como consequência da viagem ao país dos tchokwé, António Ole estrutura as suas pinturas da década dos 80. Com uma delas, o "Animal Ferido", ganha um prémio de pintura na II Bienal de Havana, uma bienal dedicada, entre outras, a promover a "Arte do Terceiro Mundo". Mas Gerardo Mosquera, ao assinalar que, a propósito das pinturas de António Ole desse período, nelas o artista "apropria-se de elementos culturais tchokwé como matéria prima para as suas obras artísticas... no sentido ocidental.

Tal processo levanta numerosos interrogantes relacionados com as disjuntivas e contradições do projeto nacional angolano" (Mixinge, 1992/93) estava a fazer alusão a que, ao mesmo tempo que Ole tentava criar uma visualidade que se correspondesse à construção da "Angolanidade", situava-se numa zona de confluências e ambiguidades na qual podia, se fosse necessário, desdizer-se.

Em 1981, já numa Angola independente, ganhou o Prémio Glauber Rocha do Festival Internacional de Cinema de Figueira da Foz : a libertação politica de todos coincidiria com a diversificação dos meios artísticos e criativos que passa a utilizar.

Na suas pinturas dos anos 80, António Ole oferece uma visão das possibilidades pictóricas e interpretativas de um artista que nasce e se desenvolve em e desde o contexto étnico angolano, peneiras pelas suas vivências em Luanda, ao situar-se no nó dinâmico do tradicional - das culturas étnicas que ali se interrelacionam constantemente- e o diálogo com o universal; Ole apropria-se de uns e de outros e recontextualiza-os.

A partir dos contornos do tradicional estabelece uma relação sujeito/objeto de estudo, relação que se repete face aos procedimentos e às técnicas pictóricas contemporâneas, convertendo a sua obra num espaço, centro e janela nos quais convergem, e desde os quais se reformam, as fontes.

No entanto, na apropriação de procedimentos pictóricos universais (hard edge ou o uso de spray), estes não oferecem possibilidade de subversão. A subversão de António Ole pode-se verificar quando contrastamos o uso que faz dos signos tchokwé.

Estes signos que, como já dissemos, são extraídos fundamentalmente do tabuleiro de adivinhação tchokwé, servem de motivos de decoração, motivos de fundo, pese a que antes -no seu contexto original- formaram parte de determinados rituais, possuíam significados concretos dentro de uma tradição e de um código fechado.

Quer dizer, António Ole faz uma subversão e um projeto multidimensional dos circuitos expressivos tradicionais e contemporâneos, em ambos os casos como uma apropriação que comporta a conversão de signos de correspondência convencional a criações simbólicas.

III.
As múltiplas transfigurações

A década dos 90, ficou marcada nos angolanos como a década em que preparavam-se para experimentar uma democracia multipartidária e em que realizaram-se as primeiras eleições gerais (1992). Por causa da sua exposição "Margem da Zona Limite" (1994), nessa década, António Ole consolida-se, definitivamente, como um dos mais importantes artistas plásticos africanos do século XX ao dinamitar, aos 43 anos de idade, toda a tradição artística e plástica angolana num momento em que a recriação das estéticas convencionais da primeira metade do século, desde o fauvismo à abstração, assim como a (re)valorização das estéticas de origem banto e o espírito naif tinham em Luanda, Benguela ou na diáspora angolana (Kinshasa, Lisboa, Windhoek e Rio de Janeiro, fundamentalmente) vários exponentes de pulso.

Entretanto, para uma compreensão plena da obra plástica de António Ole é necessário estar atento às práticas da plástica não ocidental, aos discursos internacionais posteriores a Joseph Beuys, às potencialidades e interrogações da era pós-industrial para e na arte, ao Curriculum do artista, às reminiscências tchokwé e, fundamentalmente, à sua posição face a uns e a outros para legitimar uma poética e estética próprias, assim como o mais atualizadas possível.

Consciente das lógicas e retóricas fundamentais do seu tempo, de este tempo, António Ole situa-se como transfigurador de ingredientes naturais-fósseis, míticos-bíblicos, humanos-tecnológicos e figurativos-simbólicos. Mais que belas, essas transfigurações são, em primeira instancia, não só uma interrogação ou uma reflexão sobre a dinâmica expansiva e apropriativa da arte, mas também nelas estão bem patentes a incitação à interdisciplinaridade (fotografia, escultura, pintura, cinema e arquitetura).

António Ole começa a (trans)figurar a partir do momento em que, na sua obra, mais além da mimese, se foi munindo de referencias históricas e culturais concretas suscetíveis de ser localizadas no imaginário angolano e ecuménico para, também, eclipsar os sentidos e formas originarias e implantar, circunstancialmente, uma lógica em que intervenham a medida, a reflexão metódica, a sua paixão pela arquitetura e o seu pouco extrovertido sentido de humor.

Entre finais dos anos 60 e dos anos 90, António Ole transfigurou, sucessivamente, as simbologias e o modus facendi da Pop-Art, da pintura mural tchokwé, remexendo-os com materiais residuais (ferro, espelhos, sucata, placas de zinco), naturais (ossos, madeiras, mármore) e ou culturais (vídeos, máscaras, anjos, princípios Zen, etcetera).

A obra plástica de António Ole poderia deixar em aberto uma série de perguntas, a saber: "Como artista pós-colonial que se encontra num espaço que não pode ser definido desde uma posição fixa, seja geográfica, cultural ou ideologicamente, nem a sua lealdade pode ser construída sobre a base de um compromisso a aspirações nacionalistas" (Rasheed Araen, 1994:43),

Como se constrói uma presumível identidade cultural na sua obra? Não poderá o artista "periférico" prescindir do uso de tecnologias para falar com o outro (o artista e o receptor do Centro), acerca de si mesmo e do seu contexto? (De uma conversa informal com Tony Capellan, na Iª Africus Bienal de Joanesburgo). Parafraseando a Claude LeviStrauss, onde começa a obra de arte e onde acaba a esfera não artística da realidade?

IV.
Ole, o germinante

Em 2001, o ano do massacre de Zenza do Itombe e em que o mundo foi sacudido pelos atentados do 11 de Setembro, ele participaria em projetos em Amsterdão, New York, Bruxelas, Berlim e Bolonha.

Entretanto, nos últimos dez anos, as placas tectónicas da Arte deslizaram-se completamente e as minhas visões de espectador, a compreensão e perceção que tenho da Arte africana contemporânea atual só faz sentido se a analiso no contexto da Arte, no seu conjunto.

A trajetória artística de António Ole, da "Margem da Zona Limite"(Luanda. 1994) à exposição Hidden Pages (Bayreuth. 2009) é a história de múltiplos exercícios de interdisciplinaridade (cinema, pintura, escultura, fotografia e arquitetura, fundamentalmente), mas também de auto-trascendência interna de cada uma destas manifestações da arte, que se sustentaram na (re)apropriação estética de materiais e valores aparentemente decadentes e que existem na vida dos subúrbios para redefinir noções estéticas do mainstream.

Em 2011, António Ole fez sessenta anos de idade já como um artista germinante, - no sentido que no seu poema sangrantes e germinantes o entendia Agostinho Neto, sobre quem, por certo, realizou "Pelo Caminho das Estrelas", o documentário que há quase trinta anos fez-lhe ganhar o Prémio Glauber Rocha do Festival Internacional de Cinema de Figueira da Foz -, porque ele é desses artistas que décadas após décadas, inventando o seu próprio caminho, soube converter a estética dilacerante da pobreza em territórios de uma noção do sublime com identidade simultaneamente própria, local e global.

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