Arte angolana contemporânea Uma criatividade plástica endógena

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Um dos principais factos que se pode reter das atas resultantes do último ciclo de palestras, organizado pela Empresa Nacional de Seguros de Angola, sob o tema "A arte, o artista e a sociedade", no quadro do programa Ensarte, são as dezenas de intervenções feitas nesta ocasião. 

Foi, a justo título, editada, sob um design vanguardista, uma impressão em quadricromia e uma sólida selagem, que se estalou entre as cidades de Porto e Luanda, agrupada em 146 páginas.

A coletânea reproduziu a inédita análise do historiador Simão Souindoula intitulada «Remanescência bantu na arte angolana contemporânea. Um contexto verificativo, a Ensarte».

A referida obra está articulada em quatro grandes capítulos, constituídos do preâmbulo do Presidente do Conselho de Administração da Empresa Nacional de Seguros de Angola, Manuel Gonçalves, uma introdução geral, breves apresentações dos diferentes oradores, nas quais foi acrescido um recapitulativo dos temas abordados e a restituição dos textos propostos no Museu Nacional de História Natural de Luanda.

Na sua intervenção, o PCA da sociedade anónima da avenida 4 de Fevereiro, realçou o facto de que a iniciativa cultural de seu grupo se tornou, pela forca do tempo, um espaço de reflexão e de diálogo intercultural mas, igualmente, de articulação interdisciplinar sobre a prática das artes visuais em Angola.

Os autores foram o pintor Jorge Gumbe, Comissário da Bienal da Resseguradora da Marginal, o crítico de arte Adriano Mixinge, o antropólogo Manzambi Vuvu Fernando, o museólogo suíço Boris Wastiau, o arquiteto português Jacinto Rodrigues, a coreógrafa angolana Ana Clara Guerra Marques e a sua compatriota, psicóloga, Encarnação Pimenta.

Reencortam-se, aí, com um grande interesse, os diferentes ângulos abordados a partir da temática geral tais como, entre outros assuntos, a importância dos Prémios Ensarte na promoção da arte contemporânea do país de Viteix, nesses últimos vinte anos, a apreciação da criatividade artística contemporânea no Quadrilátero, nas suas numerosas opções temáticas e preferências técnicas e uma leitura das marcas pictográficas sobre os «maquixi» (máscaras de dança cokwe).

É proposta uma revisão do contexto da origem do omnipresente «Pensador» oriental, o «kalamba kuku» ou o «sayichimo», quem convidou-se nas composições artísticas e artesanais contemporâneas assim que as funções antropológicas da escultura tradicional africana, esta retomada, igualmente, no « contemporaneus ».

LINHA IDENTITARIA

Colando bem ao tema do ciclo de conferencias e aos intuitos da empresa de seguros, Simão Souindoula esforçou-se a identificar e explicar o apego dos artistas plásticos angolanos, através a preciosa vitrina que constitui a « viginti » coleção da ENSA, a por em evidencia os seus fundamentos culturais bantu.

O antigo investigador do Centro Internacional das Civilizações Bantu sublinhou, assim, uma dezena de escolhas de títulos de obras de pintura ou de escultura, decididos pelos criadores participantes do quadro emulativo do Segurador. 

Essas denominações são, principalmente, em kikongo, kimbundu e umbundu e entram, naturalmente, a um campo de inspiração bem milenária, da dezena das culturas convergentes e maioritárias do pais.

Com efeito, o conferencista tomou, entre outros, como exemplos, a da tela « Elogio ao nkisi konde » de Van, Primeiro Premio de Pintura da Ensarte, em 2004.

A noção de « nkisi » fundamenta-se sobre o radical do ur bantu ­kiti que Malcolm Guthrie traduz, em inglês, por fetish ou charm.
A evolução dialetal deu, logicamente, nkisi, em kikongo, e mukixi, em kimbundu.

Confirmando as sólidas crenças ao feitiço nas sociedades da África central, oriental e austral, Souindoula sugere, a este respeito, o exemplo de um ditado ovambo, que aconselha, vivamente, o porte, em permanência, de um amuleto, « porque atravessando um arvoredo, pode-se encontrar uma perdiz que nunca foi vista ».

A fim de ilustrar este facto, o perito da UNESCO sublinhou os conceitos ­ claves decorrentes pelas obras produzidas, estabelecendo, concomitantemente, as suas conexões proto-bantu e sua perpetuação pelas tradições orais.

Para ele, esta linha identitária segue a firme politica de rebantouizacao antroponímica, toponímica e numismática do pais, iniciada logo após a sua independência. Pronunciando-se sobre a importância da publicação dessas atas, Simão Souindoula, bendisse, a este respeito, a notável eficácia da ENSA.

Com efeito, para ele, esta compilação permitira de contribuir a um melhor conhecimento, ao nível nacional e internacional, de vários aspetos da arte angolana contemporânea cuja principal característica e o seu forte enraizamento bantu. E, e isso que contribui a especificidade das composições picturais, das configurações esculturais e as montagens cerâmicas produzidas no Quadrilátero.

Enfim, para o Presidente do Júri dos Prémios Ensarte, esta criatividade não e um conjunto de expressões indeterminadas, totalmente globalizadas. E o fruto de artistas que possuem uma carga linguística própria e uma herança antropológica específica que foi definida há meio século, como angolanidade.

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