Ballet Tradicional Kilandukilu: 30 anos a dançar a vida angolana

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Os batuques, a marimba, a dikanza, os apitos e os gritos, todos em consonância, marcavam as paragens e definiam o posicionamento em palco, sempre em ordem com os movimentos de corpo que os bailarinos executavam com graciosidade, disciplina e refinamento.

Ballet Tradicional Kilandukilu: 30 anos a dançar a vida angolana
Ballet Tradicional Kilandukilu Fotografia: Paulino Damião

O que dançam? Na noite de quarta-feira, 21, no Cine Tropical, a Companhia de Ballet Tradicional Kilandukilu realizou um espectáculo notável para assinalar o seu trigésimo aniversário, apresentando ao público um número que retratou satisfatoriamente o ideário pelo qual se empenham anos a fio: dançar a vida angolana.
Do ritmo rápido, o apito surgia de forma ordeira, indicando a cedência de passos e obrigando a refazer os limites do espaço em cada passagem. Eram os instantes iniciais de “O Rei”, o número escolhido para abrir o espectáculo, numa coreografia em que as danças da região sul estiveram em evidência.
Depois, no centro do palco, trajados a guerreiro, três reis desenhavam impetuosamente movimentos que, aos poucos, ganhavam entrosamento com a rítmica sedutora que a batucada transmitia. Não demora muito e oito rainhas vêm ao encontro deles. Todos dançam elevados ao som/tom grave do batuque. A dança acontece solene e os bailarinos se esforçam em não indiciar traços lascivos na construção dos movimentos. No fundo, é como se a dança fosse uma luta, uma mímica que tentasse nos explicar o significado de coragem, sacrifício e glória na possível eloquência da linguagem gestual. Mas a luta acontecia mesmo porque os números de dança eram abertos ou fechados com um enredo: um dos reis morre.
Laboriosamente, qual artífice do círculo, um dos bailarinos faz números malabaristas com o fogo, dando a entender o significado do poder do rei. Outros dançarinos o imitam. A dança ganha vulto social ao representar entidades como o guerreiro, o rei, a rainha, a camponesa e a vida no campo.
Sozinha em palco, a rapariga cujos toques de quadris e a forma como usa os tornozelos e os calcanhares remetem a algumas danças asiáticas, toma o espaço e circula harmoniosamente. Segue-se outra, de kinda na cabeça e vassoura na mão, que encena os deveres da dona de casa, aquela que se preocupa em lavar a roupa, limpar o chão e cozinhar. Ambas dançam esses tipos sociais da vida angolana sob o som límpido da marimba.
A cena é quebrada com a retomada do batuque e dos apitos que roubam todo protagonismo aos restantes instrumentos, e seis casais vestidos rigorosamente a ilhéus tomam o palco. As mulheres adornadas de missangas, lenço na cabeça e com o nó do pano a assentar disciplinadamente no ombro esquerdo, fazem o jogo de quadris em movimentos circulares. As mesmas representam em cena a evolução da vestimenta das mulheres do passado à contemporaneidade. Mais adiante, o número fecha com uma encenação da figura de Agostinho Neto no Largo da Independência, rodeado de uma dúzia de bailarinos que encenam as novas profissões que inflamam a realidade social da vida na cidade: a zungueira, o kupapata, o engraxador, o fiscal…

Modernidade
Na dança, o espectáculo apresentado com misturas de danças do rei, guerreiras, xinguilamento, yma yeto (nossas coisas), sonho da contemporaneidade, ngolo e kixímbula veio a mostrar na sua linha de construção plausível pela sua elevada preocupação ética, que não é bem verdade que sejam os kuduristas os melhores e os únicos a transportarem para a dança aspectos inerentes à vida social actual, mas certamente os que mais a polemizam e os que mais a sujeitam nos limites da moralidade pública, apresentado nas suas coreografias um acentuado distanciamento entre a ética e a criação artística.
Já com a música folclórica que serve de fundo, também criticada em certos círculos como “ultrapassada” ou “desprovida de efeitos”, a orquestra da companhia deixou muitos dos presentes boquiabertos ao criar números com feras da música, num casamento que possibilitou o diálogo estético entre o convencional e o folclore: Nanutu e Semba Muxima.
Naturalmente, a considerar o distanciamento entre as criações, foi com o saxofonista que a fusão atingiu momentos dignos jamais esperados. De chinelos e com o seu habitual boné e vestido a muxiluanda, acompanhado de uma forte e inebriante batucada, a fusão com o saxofonista originou majestosas melodias que mereciam ser recomendadas aos avant-gardes da música angolana. Foi uma noite em que o seu saxofone se mostrou ainda mais “endoidecido”. O homem do sax tocava de olhos fechados, como que extasiado e a receber naqueles instantes orientações do grande Nzambi da música.

Lisboa e Uíge
O Ballet Tradicional Kilandukilu tem neste momento dois núcleos, respectivamente em Lisboa e no Uíge. Sónia Almeida, a nossa entrevistada do grupo de Lisboa, faz agora 22 anos no Kilandukilu. Da aceitação em terras lusas, contou ao CULTURA que o público português aceita muito bem, mais por acreditarem ser uma variedade de danças que tratam por “danças tribais”. Os bailarinos sentem essa retribuição pelo entusiasmo com que aplaudem as exibições. Quanto a espectáculos, avalia que têm tido muito mais sorte fora de Portugal, principalmente nas festividades do 11 Novembro, quando recebem mais de três convites de países diferentes. As peças montadas em Portugal são transportadas para Angola e vice-versa, e do núcleo de Portugal já tem alguns bailarinos a frequentar o curso superior de dança.
Hoje, devido a crise, o público português tem escolhido o número que mais gosta: as guerreiras. Frisa que antigamente pediam mais números mas a crise económica veio a inverter o quadro e que agora só apresentam os números indicados.
Carlos Serafim é do núcleo do Uíge. Os três (Luanda, Uíge e Lisboa) estão sempre em comunicação e a discutir os projectos em carteira. O grupo da província do café se esforçou em coreografar danças típicas como A circuncisão e Rei Bayaka, resultados de uma fusão de conhecimentos adquiridos em Luanda com a pesquisa e actualização de factos da realidade sócio-cultural daquela província.
Por buscarem os movimentemos mais antigos e fazerem a dança guerreira, o público do Uíge tem reagido bem, por um lado. Mas são vistos de maneira negativa por haver quem associe alguns números de dança a actos de magia. Quando apanhados nessa situação, o bailarino conta o que respondem: “É apenas a magia da dança e da ligação aos ancestrais”.
Do desenvolvimento da dança tradicional, explica que falta apoio por parte dos empresários locais. Já lá vão 13 anos que o núcleo do Ballet Kilandukilu do Uíge existe. Foi criado no Bairro Mbenba Ngango. É composto por 20 bailarinos, dos quais 6 mulheres.

Ballet Tradicional Kilandukilu
O Ballet Tradicional Kilandukilu nasceu no Bairro Maculusso, em Luanda, no dia 15/03/84, com a designação inicial de Grupo Experimental de Dança Tradicional Kilandukilu.
Kilandukilu significa divertimento na língua nacional kimbundo e nasceu como um pequeno grupo de jovens amantes da arte, em especial a dança e a música folclórica.
O objecto social do grupo assenta nas seguintes exigências: pesquisa, recolha e estudo das manifestações culturais do povo angolano e outras a ele associado, danças folclóricas de Angola, danças de rituais fúnebres e guerreiros, recreativas, de salão, contemporânea africana e música folclórica.

PRÉMIOS
1º Lugar no Festival Provincial para Trabalhadores de 1984, em Luanda, realizado pela UNTA. No ano seguinte o grupo consegue o segundo lugar.
Prémios Revelação, agraciado pela UNAC-S.A., e Cidade de Luanda, agraciado pelo Governo da Província de Luanda, em 1996, referente ao melhor grupo do referido ano.
Melhor Ballet Tradicional de Dança Africana na VII Gala da Rádio Clube de Leiria/Portugal, em 1999.
1º Lugar no 8º Festival Internacional de Dança e Música Folclórica em Roodep
oort/África do Sul de 1995 e 2º lugar da edição seguinte.
Diploma de mérito agraciado pelo Governo da Província de Luanda em Janeiro de 2000.
Prémio (pirâmide em cristal) de melhor grupo de Dança tradicional Angolana, agraciado na Gala do 2º Aniversário da Revista Tropical, em Junho de 2002.
Prémio Prestígio, galardoado em Lisboa, em Abril 2008.
Embaixador do COCAN 2010.
Troféu Carreira do Moda Luanda de 2010.
Homenagem prestada por vários embaixadores africanos por ocasião da gala em alusão ao 25 Maio de 2011-Dia de África- realizada em Abu Dhabi.
Prémio Nacional de Cultura e Artes na disciplina de Dança de 2011,autorgado pelo Governo Angolano.
Homenagem na Gala dos 10 anos de Paz, realizada pela Embaixada de Angola em Portugal em prol da divulgação da Cultura Angolana no exterior.
Diploma de Mérito agraciado pela Comissão Administrativa de Luanda em 2014, por ocasião do 438º Aniversário da cidade.
Está a desenvolver um projecto no Recife, Brasil, em parceria com uma organização não governamental denominada Pés no Chão, cujos objectivos traçados incidem na retirada de crianças da rua e inseri-las em projectos socio-culturais.
O Kilandukilu já participou em vários certames nacionais e internacionais, com destaque para países como Portugal, Alemanha, Suécia, Polónia, África do Sul, Zimbabwe, Marrocos, Brasil, Cuba, Costa Rica, Nicarágua, Índia, Coreia do Norte, Singapura, Japão, Espanha, Itália, Emiratos Árabes Unidos, Qatar, Israel, Coreia do Sul, França, Argentina e Turquia.
Usa nas suas obras os seguintes instrumentos: batuque, mondó, ngongue, puita, ngaietas, djembés, reco-reco, bate-bate (bambu), apitos, marimbas, flauta, sacos plásticos, chocalhos, banheiras, dum-dum, pedrinhas, garrafas e outros efeitos sonoros como água, vento da boca, assobios, etc.

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