BEING HER (E) EM LUANDA O SIGNIFICADO DO FEMININO EM MOSTRA

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A mistura de cores e a perspectiva estética.

Um convite à reflexão, através da expressão feminina sobre o que é o mundo hoje e qual papel deve ter a mulher em todo este processo. Se deve, como sugere o próprio título da mostra, Ser Ela “Being Her”, ou Estar Aqui “Being Here”. O debate, que analisa também questões do fórum cultural, procura propor, argumentar e apresentar novas ideias sobre o que é ser uma mulher africana num continente em mudança.
Para quem for visitar a exposição é também uma oportunidade de conhecer um pouco mais a realidade de vários países africanos, a partir da visão das mulheres africanas, uma das classes que apesar dos avanços, em muitos sectores, ainda continua a ser marginalizada e vista “de uma forma mais corpórea” em muitas sociedades.
Entre a luta contra a marginalização e a estigmatização, assim como com uma redefinição do conceito de que ser mulher não se prende apenas ao belo e ao corpo feminino, a exposição rebate algumas ideias pré-concebidas sobre a feminilidade.
A mostra colectiva, de carácter itinerante, que foi aberta, em Luanda, no passado dia 23 de Novembro, na Galeria do Banco Económico, onde fica até 31 de Janeiro do próximo ano, é um novo conceito de arte, proposto por 14 mulheres, sobre a curadoria de Paula Nascimento e Violet Nantume.
As nacionalidades das artistas - oriundas de Angola, África do Sul, Moçambique, Etiópia, Uganda, Quénia, Gana e Portugal - mostram a diversidade temática dos quadros expostos e que o objectivo não é só mostrar a realidade das mulheres em África, mas na diáspora, uma vez que as mudanças e as formas de ver estas tendem a variar em cada sociedade.
Temas como a mulher e a interioridade feminina são pontos recorrentes e muito assentes na maioria das criações expostas, que vão desde instalações, ou fotografias até quadros. O corpo, como fica claro em todos os trabalhos apresentados, é apenas o ponto de partida para um desafio maior, onde cada realidade é vista sobre uma perspectiva diferente.
Ao longo da exposição, os visitantes podem ter a noção da presença feminina e o impacto que estas têm na vida de cada um e até mesmo na própria dinâmica social. Género, subjectividade, memória, pertença, sexualidade e identidade também são partes fundamentais da mensagem transmitida pelas artistas.
Porém, o diálogo criado pela exposição tende a ir mais além, das imagens e da reflexão sobre a visão social das mulheres. O foco está também nas questões culturais e na própria identidade destas. A mistura de cores e a perspectiva estética de cada uma das artistas ajuda muito a dar uma outra ideia aos visitantes.
Proveniente da África do Sul, onde foi inaugurada e permaneceu por meses, “Being Her (e) é a sequência de um “diálogo” que começou em 2015 e 2016 com a mostra “Being and Becoming, Complexities of the african identity”, cujo foco era as diversas camadas da identidade africana e sobre a urgência de forjar formas novas e pouco ortodoxas de ver e de ser africano.

As artistas

Sob curadoria da arquitecta Paula Nascimento e da artista Violet Nantume, “Being Her (e) tornou-se uma realidade. Primeiro na África do Sul e agora em Angola. O objectivo é levar a exposição por vários países, assim como divulgar as artistas convidadas, algumas já com nome no mercado internacional. Entre os vários nomes convidados para esta exposição há a destacar os das angolanas Keyezua e Ana Silva. A primeira, que trabalha, dentre outras, com fotografia e esculturas, se destaca por ser uma contadora de história, que usa a arte como sua ferramenta. A segunda, com um vasto currículo de outras mostras colectivas, tem o foco mais centrado para os temas pessoais.
Com origens assentes em Angola, mas nascida em Portugal, Mónica de Miranda é outra das artistas convidadas. Considerando a si mesma como uma artista da diáspora, a pesquisadora apresenta um trabalho mais baseado na arqueologia urbana.
De Moçambique participa Euridice Getullo Kala, uma artista interessada nas metamorfoses e manipulações culturais. A sua intenção, como demonstram os trabalhos expostos, é explorar, nesta era de grande internacionalização da História da Arte, a falta de ligações com o passado.
O país do “Arco Íris”, onde começou todo esse projecto, participa com três artistas. Lebohang Kganye, Nandipha Mntambo e Zanele Muholi. Dentre elas, Lebohang Kganye é quem traz um trabalho mais virado para a fotografia. Com um trajecto muito virado neste estilo, a artista já participou em diversas mostras fotográficas internacionais. Mas não é a única. Zanele Muholi também explora a imagem fotográfica, porém o seu foco é a identidade e políticas das várias comunidades negras sul-africanas. A beleza e perspicácia dos projectos visuais do país anfitrião encerram com Nandipha Mntambo, cuja carreira tem tido grande projecção nos últimos anos.
O Quénia é o outro país que participa nesta exposição com três artistas. As escolhidas foram Mimi Cherono Ng’ok, cujo trabalho é mais focado para questões como o domicílio, as perdas pessoais e a o resgate e valorização da identidade, Phoebe Boswell, uma artista inovadora por combinar os seus desenhos tradicionais feitos a mão com tecnologia digital das quais resultam belas animações, e Jessica Atleno Ounga, que explora a interacção humana especialmente em grupos minoritários, através de diversas técnicas e médias.
Com Stacey Gillian Abe e Immaculate Mali o Uganda tem garantida a sua participação no projecto de itinerante de arte africana contemporânea !Kauru, criado pelo Departamento de Artes e Cultura da África do Sul. Para esta exposição Stacey Gillian Abe propõe uma análise a fragilidade da mente feminina, através de experiências do passado e do presente, e critica os estereótipos em torno da mulher negra. Por sua vez, Immaculate Mali examina as narrativas pessoais e a sua relação com a dinâmica do quotidiano, como uma forma de mostrar toda a resiliência humana.
Com uma representante cada, a Etiópia e o Gana marcam presença com nomes emergentes, como Alda Muluneh e Zohra Opoku, respectivamente. A primeira que muito tem se destacado no mundo da arte contemporânea tem uma forte tendência para a fotografia, enquanto a segunda é uma artista versátil, cujo trabalho enfatiza o papel político e psicológico da moda e as dinâmicas socioculturais em relação a História africana e as identidades individuais e colectivas.

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