Bernadeth Mabungo: Viver ao ritmo da kizomba

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Bernadeth Mabungo nasceu no Chitato, Lunda Norte. Tem 26 anos e actualmente reside em Luanda, Lisboa e Paris. Nestes dias se encontra em Luanda e todos os fins-de-semana dança das 23 até às 4 horas da manhã no restaurante Local, exibindo estilos de dança que vão da tchianda ao hip hop, seguindo o gosto casual do DJ e do tempo da batida, distinguindo ser muito diferente do tradicional, que normalmente é a rítmica do batuque que chama a dança.

Bernadeth Mabungo: Viver ao ritmo da kizomba
Bernadeth Mabungo a acompanhar o distinto Bonga

Não fez faculdade de Dança nem de Artes. Aprendeu bem e consegue passar essa veia. Passou por vários cursos em Angola e no estrangeiro. Bailarina e coreógrafa de profissão, teve a sorte de cruzar no seu caminho com boas pessoas do ramo da dança. No tempo que lhe sobra dá aulas de dança num colégio particular de Luanda a crianças maiores de 3 anos, uma prática não muito frequente nas diversas escolas secundárias de Angola, sendo já rara as escolas de dança que tenham vincado. Optimista, interpreta este facto como um sinal da evolução da dança na vida das pessoas. Nas suas aulas, começa pela expressão corporal, incluindo aquecimento com alguns movimentos de dança contemporânea, popular e recreativa. Depois ensina kizomba e semba e termina com kuduro e afro-house, que é o que os meninos mais gostam.

A passagem decisiva
pelos Diamantes
Sonha conseguir ter uma escola de dança cá em Angola. É uma bailarina guerreira, destina a viver ao passo da kizomba, estilo que mais lhe caracteriza. Não tem tabu na alimentação e come de tudo, especialmente tudo que leva feijão. A família não reagiu bem à primeira vez. Para dançar tinha de fugir da escola. Mas não parou. Seguiu a sua voz interior.
Foi quando recebeu o convite para entrar no grupo de dança os Diamantes que decisivamente escolheu seguir o sonho de ser bailarina. Olha para trás e percebe que não sabia nada de dança e que apesar da queda que tinha para esta arte não pode deixar de dizer que era um terreno muito virgem ainda.
Faz mais de seis anos que se iniciou como coreógrafa, montando conjuntamente com outros colegas e professores com os quais travou conhecimento. Mas no princípio queria ser cantora. Gosta de música e chegou mesmo a frequentar algumas aulas, tendo grande queda para a percussão, com destaque para o batuque. A irmã mais velha e um vizinho amigo é que iam sempre aos shows e programas de dança, e às vezes tinham o cuidado de levar Bernadeth. Viam e sentiam aquela vontade a crescer. Parecia que o palco as chamava. Até que uma vez tomaram a iniciativa de formar um grupo de dança, que denominaram “Estrelinhas da Coreia”, tinha ela 12 anos. O grupo chegou a marcar presença no programa Carrossel, participando com uma coreografia do sucesso Domboló, da autoria do cantor congolês Koffi Olomidé. Foi aparecendo nos espaços mediáticos, contando também com uma grande ajuda da sua madrinha de baptismo, que à época era a rainha de um bloco carnavalesco afecto a LAC. Mas depois vai para o grupo carnavalesco Unidos de Caxinde, já no início da década de 2000. Num dos carnavais que a convidam dançou na ala dos bailarinos, cujo coreógrafo era o mesmo treinador do conceituado grupo de dança os Diamantes. Bernadeth se distinguiu a ponto de chamar a atenção deste, convidando-a a fazer parte do grupo que dirigia. Mas não foi assim tão fácil, porque o mesmo treinador, resultado das avaliações que fazia, muito duramente tinha dito à Bernadeth que esta não estava na praia certa e que não tinha atributos para singrar como bailarina, sendo melhor desistir. Apesar de abalada e baralhada com estes reparos, não abriu mão do sonho de dançar. Os colegas apoiaram-na e decidiu superar-se. Foi aprendendo mais, acertando nos jogos de cintura, expressão facial e corporal e técnicas.

Bailarina nas FAA
Não sai dos Diamantes por vontade própria. O grupo tinha o apoio da PIR (Polícia de Intervenção Rápida) e este organismo da Polícia Nacional quando decidiu elevar os dançarinos à categoria de funcionário público, só os mais antigos foram escolhidos, e Bernadeth foi uma das muitas bailarinas que não conseguiu estar no reduzido número. Ficaram apenas a dançar no Chá de Caxinde, onde o grupo sempre ensaiava, até que, depois de algum tempo, receberam outra proposta: fazer parte do grupo de dança do Estado Maior das Forças Armadas. E onde continua até agora, ocupando actualmente o cargo de chefe do grupo de dança. Conta que foi muito difícil se adaptar ao modo de vida dos militares, principalmente a disciplina e a severidade a ter com os novatos. “Para nos adaptarmos, o que nós vivemos foi como uma recruta”, recorda.
Mas foi uma das grandes escolhas da sua vida profissional. Ganhou o respeito e confiança desta instituição militar angolana que hoje a apoia em tudo que faz, até naquelas coisas que no início parecem brincadeiras mas quando amadurecidas se tornam em projectos muito sérios.

Projectos
Depois do seu par ganhar o Festival Internacional de Kizomba edição 2009, conhece a Europa e América como bailarina profissional. Foi nestas andanças que viu que é preciso intervir na posição destas danças que lá fora são tomadas como danças de salão. E a responder a esta suposição, de regresso à terra natal resolve concretizar o projecto “Kizomba no Palco”, mas com pouca ênfase, ficando apenas no registo os shows no inseparável Chá de Caxinde e em Malange, isto em 2010.
A vontade de ver afirmada a kizomba não pára por aí, e do insucesso do “Kizomba no Palco” nasce o “Kizomba na Rua”, já em 2011, juntamente com Dilson (seu parceiro no Festival de Kizomba), e Paulo Isidoro. Começaram na Ilha de Luanda, mas decidiram ser rotineiros nos diferentes calçadões da capital. Abandona o projecto devido as suas actividades no exterior, ficando o projecto até hoje sob direcção de Paulo Isidoro. Contudo, dado que está sempre a mudar de sítio, cria o projecto “Dança ao ar Livre”, do qual se ocupa sempre que está em Luanda.

O documentário
10 anos de Carreira
Teve recentemente um vídeo a contar a história da sua carreira, apresentando no Chá de Caxinde na noite do dia 16 de Abril. Esta apresentação foi seguida de um show seu no dia 18. No vídeo são narrados diferentes momentos que teve como bailarina nas diversas partes do mundo e os locais na Europa e na América em que deu aulas. De salientar que deu aulas de kizomba, semba e afro-house nos Estados Unidos, Brasil e Europa. Desta experiência, reage que lá gostam muito das nossas danças e que há um grande interesse em entender como elas funcionam ou se enquadram nas actuais correntes, facto que a leva a pensar ser urgente que esta seja academizada.
Sobre a posição da dança em Angola, explica que cá também tem notado uma boa reação, embora deseje que os amantes da arte façam um pouco mais para que a dança seja um facto na vida de muitos angolanos, que normalmente andam sempre a pensar:”Deixa para lá, dançar para quê”.
Por outro lado, denuncia que estão sempre a reclamar do caché dado aos dançarinos, tendo vezes que nos espectáculos os agentes e empresários inferiorizam a dança e oferecem valores pouco digno às pessoas que dançam.

Dia Mundial da Dança
Quanto ao Dia Mundial da Dança, 29 de Abril, não viu uma grande comemoração a respeito. Não viu muita coisa nas rádios nem televisão. É de opinião de que era necessário acontecer muitos espectáculos de dança. Pessoalmente, até tentou fazer um espectáculo comemorativo, mas a sala de espectáculo não tinha mais de 50 pessoas. Deseja que as entidades competentes façam com que o dia da dança seja celebrado à altura, conforme acontece quando o assunto é música.
E sobre essa separação diz: “A arte não é só a música, até porque ambas estão intrinsecamente ligadas à nossa identidade. Vejamos o caso do esquecimento imposto em relação a danças como a massemba, que ficou apenas para uma geração. Queríamos ter mais kotas que sabem da história e que digam como acontecia no antigamente ou até mesmo nos ensinar a dançar. E desta nova geração, tenho saudades de grupos transversais como o Lambada do Kinaxixe, porque faziam o esforço de tentar fazer igual”.
Ainda neste mesmo dia 29, numa entrevista a uma das rádios em que ela e o professor Domingos Nguizane eram os convidados, gostou de ouvir este académico a levantar um repto sobre o esquecimento de algumas danças. E foi durante esta entrevista que pensou avançar com o projecto “Farra dos Tempos Alheios”, que serão festas de dança kizomba em que se vivam tempos alheios. Porque, explica a intenção do projecto, servirá para a nova geração que não viveu e não sabe bem as coisas que os mais velhos contam sobre as grandes farras e formas de dança que conquistaram o grande público de épocas passadas, principalmente os estilos imprimidos pelos dançarinos. Daí desejar que os momentos sejam recriados pelos mais velhos, de modo a passar experiência aos jovens e juntos viverem essas farras dos tempos idos. O projecto, com previsão de arranque nos próximos meses, também abrangerá a rebita, e contará com palestras e histórias das grandes casas de dança, destacando as novidades e influências. Resulta de reiteradas conversas mantidas com muitos mais velhos e pelo gosto de ouvir as suas histórias. Também tem grande interesse em investigar e explorar as províncias de Cabinda, Lunda-Norte e Luanda, esta última devido a forma especial como olha a Ilha de Luanda e o Sambizanga.
Com Bonga, por exemplo, mantém um forte vínculo laboral e estima este cantor como uma fonte viva para aprender muito dos hábitos e costumes dos mais velhos. Há anos que trabalha com este artista, e ainda em Junho estará em Portugal para cumprir mais uma agenda junto deste gigante da música angolana que tem galgado bem os palcos da Europa. Essa dinâmica lhe obriga a viver em Luanda, Lisboa e Paris, ficando às vezes 6 meses em cada cidade. Não lhe escapou a recorrente queixa da falta de espaços, não tendo comparação possível com o investimento dos outros continentes endereçados à cultura, beneficiando de grandes salas de espectáculos.

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