Beto Cassua é o criador de feiticeiro e o inteligente

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Homenagem a um artista do humor

Beto Cassua é o criador de feiticeiro e o inteligente
Beto Cassua

Beto Cassua é o encenador do Etu-Lene e nos dias que correm assume a pasta da Cultura no município do Cazenga, onde nos recebeu. Longe de ser apenas um mero protagonista, é uma dessas poucas pessoas a quem o Teatro e a Cultura devem consideração, por tudo que fizeram (e ainda fazem) para a dinamização das artes cénicas. Deste eclodir de grupos, que germinam em vários pontos de Luanda desde há mais de duas décadas, tem a sua quota-parte por um dia ter a coragem de, em 1993, na capela de São Luís, formar o grupo de teatro Etu-Lene.
Contextualiza que nesta fase de noventa, um pouco depois das eleições, o teatro tinha ainda uma face insuficiente: “Quase não existia como tal. Tudo havia hibernado. Foi nesse período que deixo o Oásis, porque foi Africano Kamgombe quem me tira do basket para o teatro. Mas nunca chego a jogar oficialmente. Juntei alguns elementos, dos quais três ainda continuam comigo (Avelino Viegas, Adão José e Marcelina Ribeiro). Acreditaram no projecto e fizemos o grupo na capela”.
Como não havia como levar o teatro fora da igreja, só apresentavam em retiros, onde se tornaram no grupo mais aclamado. Encenavam apenas peças que retratavam a boa conduta, fruto da influência religiosa. Foi copiando a atitude do Etu-Lene que surgem vários grupos dentro da capela. Homenagem a um artista do humor
A homenagem surge porque o Adérito Rodrigues “BI”, encenador do Pitabel, que Beto Cassua conheceu no Oásis e contava BI com mais ou menos 9 anos, decidiu dar corpo ao reconhecimento de ter sido uma grande mola impulsionadora do teatro. Também já foi alvo de homenagem da parte de Orlando Domingos, da Globo Dikulu.
Aponta que a febre dos grupos teve como grande causa o projecto Quintas do Teatro, iniciada a 5 de Dezembro de 96, com aval de Manuel Sebastião. Beto substitui Kim Alves e coordena as noites de teatro, respectivamente no Teatro Avenida, no Auditório Rui de Carvalho e no Centro Recreativo Kilamba. Considera-se da geração sacrificada que andava a pé de um sítio para outro só para montar peças de teatro, além de ser um dos formadores que mais prestou formação à massa juvenil que vai tomando a cena teatral actual.
Tem uma linha de criação de texto que é caracteristicamente humorística, que é muito apreciada e que também chama atenção das pessoas pelo cunho moral que esta transmite.
Se há uma base, aponta: “Só escrevo aquilo que vivo”. Não é simpatizante da linha de construção de peças de teatro abafadas de invenções descontextualizadas. E se há um mestre atrás do que faz, é José Mena Abrantes, pessoa que toma em grande consideração e que segue o estilo do fio construtivo como arquitecta as suas peças, assumindo semelhanças visíveis da influência e padrão a Mena nas suas construções.

A comunidade
Teatro e comunidade é um binómio que domina muito bem, vendo a arte como vector importante para a edificação do ser em sociedade. Respondendo a uma orientação superior de que o teatro no Cazenga deve voltar-se à reflexão dos problemas candentes das comunidades do município, aproveitando-o para educação e sensibilização do modo de vida e mudança de comportamento nas comunidades, são várias as ideias que lhe afloram. Questiona: “Se a nível de Angola há muitos problemas, como alertar as pessoas para a poluição sonora e suas consequências, ou o lixo, como evitar os focos?”
A resposta é óbvia, que o teatro pode ajudar porque a prevenção é muito mais barata do que o tratamento. Aponta que os textos e peças devem ser traçados visando esta linha de acção: “O teatro pode ser uma arma fundamental para muitos problemas. No Cazenga vive-se o problema das pessoas afixarem anúncios nos PTs e tapam os seus respiradores, o que já constitui perigo. O teatro deve viver no seio da comunidade. Por exemplo, ali nos anos 2002/2004, o Uganda diminuiu os altos índices de HIV-SIDA através do teatro popular. Mas o governo daquele país acreditou, porque é preciso acreditar. Os grupos iam aos sítios mais recônditos daquele país para passarem a mensagem. Isso é um pouco como diz Garcia Lorka, ao definir teatro como um dos instrumentos mais expressivos para a edificação de um país. Temos que dar conta disso”, acentua.

Fiel ao real
As pessoas quando assistem as suas peças se revêm nelas. Quando dá-se o projecto Em Cena e filma o Feiticeiro e o Inteligente, eram catorze grupos e Beto foi o nono a filmar. Crê piamente que se não fosse o programa Em Cena, muita gente o desconheceria ou seria levado a desacreditar nas coisas que fez e conquistou no teatro. Espera que um dia haja outro Em Cena, para termos em vista os protagonistas da cena teatral em Luanda, um pouco para condimentar e diversificar a grelha de programações. Aponta: “Eu escrevo a dura realidade e às vezes passo para o palco até termos do dia-a-dia, para que o público se sinta representado. E os nossos canais de televisão vão continuar a perder audiência por não quererem incorporar um teatro voltado para uma caracterização que tenha como base a realidade social, os nossos bairros, que são cenários muito eloquentes e por si só sugestivos”.
Das desculpas de custos, acautela exemplificando experiências passadas, como o cenário de Feiticeiro e o Inteligente, que feito com papelão. “Nós podíamos continuar a fazer. As pessoas não apostam, porque é preciso fazer séries sobre as nossas vivências, uma proeza que no vizinho Congo Democrático já é uma realidade. Há muitos problemas, e podíamos fazer coisas no formato do Conversa no Quintal, mas mais teatral e rebuscarmos problemas actuais como o violador de crianças, a gravidez precoce, os falsos quimbandas…”

Três grandes momentos
Prémio Nacional de Cultura e Artes em 2002, guarda ainda outros três grandes momentos. Em 1995, no Lobito, na sala Imperium, apresentou a aclamada peça “Uije, uijia”, que naquele dia arrancou aplausos e lágrimas de muitos que assistiram ao espectáculo e arrebatou o prémio revelação. O mesmo aconteceu em Benguela.
Em 2001, num concurso de teatro em Luanda, apresenta a peça Balumuka, uma performance introspectiva do xinguilamento das senhoras da Ilha do Cabo. Elevadas pela catarse imediata, espectadores e actores de outros grupos não evitaram o arrebatamento. Tanta foi a confusão que o espectáculo foi interrompido e apontado como justo vencedor daquele concurso.
O terceiro momento é sem dúvida o Feiticeiro e o Inteligente, talvez a mais aclamada e conhecida peça de teatro, ficando conhecida no seio popular como “kambambiji”.

Um sítio
O Etu-Lene prepara-se agora, dentro de poucos dias, para inaugurar o seu sítio, na escola Nini Ya Lukeny, onde terá um anfiteatro que servirá de sala de teatro para o grupo. Beto vê nesta empreitada, longe de ser só uma questão comercial, uma grande oportunidade para trazer mais público ao teatro angolano e torna-lo numa actividade comum no seio daquela escola.

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