Beto Dido Uma renúncia impossível

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"É importante revermo-nos na nossa música e investir mais nos grandes cultores", sentenciou o cantor e promotor de espectáculos de massas, Beto Dido, no passado dia 11 de Janeiro, ali no final da estreita, longa e acidentada rua 2, da Comissão Sagrada Esperança, no Bairro Prenda, para onde convidou o jornal Cultura a participar na cerimónia que marcou o fim da sua carreira de mais de trinta anos dedicados à música angolana. Beto Dido prometeu silenciar a voz musical para se dedicar apenas à promoção de espectáculos. Só que, na hora do brinde, o filho, Bruno Alves, lançou o mote da renúncia impossível. Se ali estava a tocar uma manta de retalhos de ouro do vero semba angolano, como deixar morrer a música de raiz, com a despedida de um dos seus elementos aglutinadores?

Beto Dido é ainda um soba do espectáculo. "Tenho um grande projecto, o GIRANGOLA", confessa. Um projecto que, afirma, tem um despacho favorável do vice-Presidente da República. Aguarda por uma resposta de uma estrutura implementadora. "Vou procurar juntar-me a ouros parceiros para fazermos aquilo que se chama espectáculos de rua, onde é importante não só descobrir artistas, como, por exemplo, ir aos municípios. Os concursos não podem cingir-se ao centro ou aos órgãos de informação.

É preciso irmos ao fundo, às periferias, criar um regulamento e descobrir talentos que cantam em kimbundo ou outras línguas nacionais. É preciso que os cantores aprendam uma língua nacional e deixem de improvisar interpretando sem saberem o que estão a cantar. Por outro lado, porque promover o estilo euro-americano, que até recebe prémios aqui, quando Angola tem músicos que estão a cair no esquecimento?"

Parceiros, Beto Dido já os tem. Ali no quintal da sua casa no Prenda, a mesa estava posta para o mufete de sábado. O barril de finos gelava mo seu canto. O trio de rolas na gaiola não dizia um pio, só observava. E um jacó mudo noutra gaiola bicava jinguba com casca.

Iluminava o recindo a sua netinha, Kaila Cadete. Parceiros?

Quando entrámos, já lá estavam Augusto Vandúnem (VAN), animador do grupo infanto-juvenil Kusanguluka Batuque é Raiz, Jacinto Mateus com o seu chapéu branco e Lalas.

Ouro da música angolana

Depois entrou o Ti Guilhermino Serafim, vocalista que esteve em várias bandas, com ênfase para os Gingas. Zé Mueneputo, um dos emblemas da música angolana, viola solo. Sassa, ou Domingos Santana, afamado intérprete.

Esteves Beto, acomodando os batuques. Eurico, o organista. Borges, solista. Benjamim, viola baixo. E, por último chegou o viola ritmo, Marito (Mário Roberto).

Antes dos discursos, este conjunto de músicos com a alma presa ao ritmo do semba angolano, começou por tocar Monangambé. Seguiu-se um instrumental dos antigos. Será que estava ali a nascer um novo agrupamento musical, uma manta de retalhos de ouro da música angolana?

Sassa, na dikanza, Esteves (batuques), o próprio Beto Dido e, lá atrás, de chapéu branco, Zé Mueneputo.

Quando o conjunto tocou Camarada, Patos Fora!, já a porta estava inundada de crianças vizinhas. Então Beto Dido fez o discurso da praxe e deu a entender que a música não é só interpretação.

Compartilhou com os amigos alguns momentos-chave da sua vida artística. Do primeiro CD da sua carreira, Solto Estava, lançado há quatro anos e do segundo lançado em 2013, Não Me Conheço.

Aos cinquenta anos de existência, completados a 23 de Novembro de 2013, Beto Dido, aliás Katupina, cuja aparição artística aconteceu em 1978 no espectáculo Kudisanga Kwa Jipange, organizado por Santocas, pretende deixar os palcos para se dedicar mais à composição artística e à promoção musical.

Mas a grande carreira de Beto Dido foi cumprida nos bastidores, como apresentador do Carnaval, organizador do Show das Multidões, "me chamaram de maluco, quando fiz descer pára-quedistas na Mutamba. Depois fui à Carreira de Tiro, conhecer o Fubú, fui a Benguela e fiz tantos outros espectáculos..."

Uma classe em extinção

"Se repararmos bem no ambiente musical do país, a nossa classe dos kotas está a desaparecer. Mas eu acredito que a UNAC fez um grande trabalho na altura sob a batuta de Teta Lando e do ministro Pitra Neto, com a atribuição de subsídios.

Mas isso não basta. Porque muitos de nós ainda têm muito para apresentar, e o que é que se vê? Músicas que não têm nada a ver com a nossa realidade. E são os que são promovidos!", desabafa Beto Dido. "O artista é muito caro hoje em dia. É caro porque alguns membros da nossa sociedade é que encareceram o espectáculo.

Sem querer magoar-te, mas, muitos dos jornalistas que viraram promotores de músicos começaram a fazer com que os espectáculos fossem caros. E esqueceram deliberadamente os músicos mais-velhos, criando na juventude o gosto pelos estilos que eles acharam que estavam a bater e davam mais dinheiro.

Há apenas um ou outro que, por vezes, são recordados", lamenta o cantor que acrescenta: "a minha obra, Não me Conheço, não passa na rádio." O cantor é e opinião que há boas músicas, em línguas nacionais, que podem mobilizar a sociedade.

Aquela música do Robertinho, por exemplo, "Manhi wavala o mona" devia ser posta a tocar, seguida de uma explicação ou um debate sobre a mensagem que transmite, para ajudar a combater o desprezo que muitos filhos estão a dar aos seus pais e avós.

E quando a noite entrou, dissemos adeus ao mágico quintal do Beto Dido, ali na rua estreita e confundida do Prenda, na certeza de que Bruno Alves, o filho dele, tem razão: com aquele ouro da música angolana todo reunido em torno de Katupina, a renúncia à música de raiz é impossível.

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