Bonga: A alma do semba

Envie este artigo por email

Aproximando-se dos 70 anos de idade, dos quais 40 dedicados à música, Barceló de Carvalho, mais conhecido por Bonga, a;irmou não ter costume europeu, e quando está fora do país oferece aos seus convidados “quitutes” de Angola. O musseque, bem como o calão e a língua nacional kimbundo são os vectores que dimensionaram a sua carreira. O Cacimbo dealbava quando o cantor nos concedeu esta entrevista, num dos hotéis da cidade de Luanda.

 

Jornal Cultura - Esteve parte da sua vida fora de Angola. Como se identifica hoje? Barcelo de Carvalho (Bonga) - Eu não tenho personalidade europeia mas sim enciclopédia africana. Os meus convidados quando vão a minha casa não lhes do caviar, nem champanhe. Eu tenho o orgulho de lhes dizer que tenho Angola representado na minha casa e a partir daí quando regresso para o meu país continuo com este
temperamento e não o da Europa. Quero dizer mais: a campanha de desinformação que se faz passar lá fora sobre os africanos é de que somos uns desgraçados, corruptos e doentes quando na verdade eles vêm buscar o dinheiro em todo da África.

 JC- Em 2010 obteve o Prémio Nacional de Cultura na categoria da música, o que representou para si? Bonga ­ É o maior reconhecimento que tive e pelo Ministério da Cultura por tudo aquilo que tenho feito ao longo destes anos em prol da música angolana, e no particular o estilo semba, tanto em Angola como no exterior. Sabe que hoje a nossa música e nos mais variados estilos é consumido e serve, inclusive, muitas vezes como trio sonoro de vários filmes.

JC- Desde que lançou o primeiro disco Angola 72, Bonga continua o mesmo? Bonga ­ Vou a completar no dia 5 de Setembro 70 anos de idade e continuo a manter a musicalidade procurando me situar no tempo e com o ritmo anteriormente chamado dos pretos, analfabetos, gíria, calão, kimbundo e outros nomes.

JC- ­ Como reagiu ao facto de a linguagem utilizada pelos músicos na altura ser rejeitada ? Bonga ­ Hoje tenho gozo e dá-me graça daquilo que se faziam contra nós em alguns canais televisivos que, apresentavam música da Europa da. Muitos pensavam que pelo facto de termos sido colonizados pelos portugueses seriamos um subpovo e desrespeitados no mundo e não é o caso. Isso é que me dá gozo, porque a nossa participação tem sido tremenda e a nível de qualquer outro artista do mundo.

JC - Isto mostra a grande batalha travada para que hoje houvesse o reconhecimento da música angolana a nível internacional? Bonga ­ Nós combatemos, não só a colonização europeia, mas também determinados assimilados que imitam a cultura dos outros. Por isso é que ainda existe, hoje, o calão, a gíria, os dialetos e as línguas nacionais na nossa música. O angolano tem de se dar conta que existe o crioulo em Cabo Verde, nas Antilhas, mas existe a maneira de falar do angolano. E seja qual for os estudos que fizermos nas faculdades, cujos professores são europeus, o brasileiro tem uma linguagem própria logo o nosso calão deve continuar.

 JC ­ É de opinião que nas músicas angolanas deve ser introduzido o calão? Bonga ­ Evidentemente, porque é uma expressão da imaginação criativa do angolano e a partir daí demonstramos a nossa diferença perante outros e devemos assumi-la como nossa.

JC ­ Dentro de quatro meses vai completar 70 anos de idade. Já agora, que tipo de prenda gostaria de receber? Bonga ­ Tornei-me numa referência obrigatória no musical nacional. E gostaria muito de me juntar aos jovens, aqueles com quem eu canto, faço parceria e gostam das minhas músicas e reunirmo-nos todos numa festa, onde pudéssemos cantar todo o percurso de Bonga. Seria uma imensa satisfação para mim e valeria para os meus 70 anos de idade e 40 de carreira.

JC ­ Como faz para manter esta jovialidade e energia? Bonga ­Eu todos os dias me olho no espelho para ver se o "pongue" está em dia. Mas também tem tudo a ver com o Bonga. Tenho um estilo no andar, ter sapatos engraxados, calças vincados. E procuro não perder noite e sim ganhá-las com grandes espetáculos. E tudo isso é fruto também de uma disciplina que trago do desporto. Algumas pessoas ainda acham que o álcool dá força. É tudo mentira. O álcool tira a força.

JC ­ Verdade seja dita, quando jovem também passou por estas vicissitudes? Bonga - Como jovem foi necessário experimentar, mas depois de ver que nada preenchia e correspondia tive de adotar uma nova postura que é a que tenho até hoje e me conserva a saúde e a vida.

JC - Fez alguma parceria internacional? Bonga – Fiz parcerias com Cesária Évora, Manu  Dibango, Miriam Makeba, com quem cantei no festival do Gabão, em Librevil. Hoje tenho músicas com alguns europeus como Berna Laville e Christophe Marie. A maior satisfação é ver a nossa música a ser interpretada pela juventude angolana.

JA ­ O tempo de carreira garantiu-lhe, também, algumas premiações? Bonga ­ Sim. Felizmente ao longo destes anos fui agraciado com vários discos entre prata e platina. Eu já tenho música na sétima arte. São por aí entre cinco a seis músicas. Recebi prémios na Alemanha e França.

JC ­ Bonga passou, também, pelo desporto com o qual arrebatou um título mundial... Bonga - Fui recordista mundial de atletismo e recorde-me que corríamos no carvão e pista com buracos. Mas não mediamos as consequências. E gostaria por intermédio deste jornal incentivar os jovens a praticarem desporto, seja que tipo for mesmo que seja dentro dos quintas ou nos bairros. Antes mesmo sem sermos federados disputávamos entre as ruas e bairros e até arrastávamos multidão. Se no tempo da outra senhora fazíamos maravilhas, no nosso tempo, acredito, que podemos fazer melhor. Façam campo em tudo que é canto.

JC - Que vantagens traz para o músico a carteira profissional? Bonga - Como africanos que somos esta identificação vai permitir ao músico angolano ser diferente dos demais, bem como valorizar o trabalho da classe. Ainda continuamos a ver kotas com um certo carisma e que fizeram muito pela cultura angolana a andarem atrás dos patrocínios e pedidos.

J C ­ Bonga atuou, com outros músicos, em várias bandas. Em que banda se revê? Bonga – Eu, Carlos Lamartini e Nelito Soares formamos o grupo Quissueia que foi uma frente contra a força colonial portuguesa. E mais tarde criamos o folclore que depois vimos a descobrir que havia uma dança, um ritmo próprio do país e eu fui um dos fundadores.

JC - E onde atuavam? Bonga - Nós não tocávamos em casamentos, festas de quintal e no carnaval.

JC - O que é o semba para si? Bonga - Semba é o ritmo do angolano. É a tradição e identidade de um povo.

JC ­ Mesmo a residir fora de Angola, Bonga continua a ser muito solicitado pelos jovens músicos angolanos? Bonga ­ Sim. Principalmente aqui em Luanda e é uma satisfação grande para a minha pessoa. Porque mesmo a viver muito tempo no exterior continuo a cantar as coisas da terra de Angola.

 JC ­ O CD Hora Kota está a fazer o mesmo sucesso que os outros discos. Onde está o segredo? Bonga – É importante referir que cada disco é um historial. É um álbum importante e verdadeiro que transporta uma vivência. Mesmo quando estive fora continuei a me recordar de coisas maravilhas, principalmente no ponto de vista de música de intervenção. Se tive a coragem de fazer o disco "Angola 72" que era o inicialmente um disco com música de caris político contra a colonização portuguesa e não só, depois tive, também, a coragem de chamar atenção dos meus compatriotas que não foi por fazermos guerra que tivemos a independência, mas para criar uma coesão de forças no interior do país e enfrentar aqueles que mascarados diziam ser nossos amigos e vinham apenas tirar o dinheiro de Angola.

JC - A música Kambwá soa a polémica e cada um apresenta a sua versão. Que mensagem pretendeu Bonga passar aos seus fãs? Bonga ­
As pessoas identificaram-se por uma razão muito simples. O kambwá é um termo que tem a ver com a nossa vivência. Isto é dois cães que têm como proprietário um pobre e o outro rico e na hora da verdade e se calhar as mesmas, tanto o rico como o pobre desaparecem e os cães ficam no terreno se digladiando. Quem me garante que estes dois cães não sejam duas pessoas que trabalhavam aqui ou noutro sítio. Estes cães vivem numa sociedade onde a sua convivência se reflete nas pessoas e a partir daí cada um imagina como quiser, porque é uma música muito bonita e engraçada. JC ­ O kuduro veio inovar os estilos musicais do país? Bonga ­ Só para dizer que antes do kuduro existiam outros estilos. Tais como o popero, vaiolas, passadas dos kotas e outros mais. E é importante que os angolanos tenham coragem de seguir e incentivar os seus artistas, quer sejam eles do musseque ou da baixa, isto para não criar diferença com a divisão de classes, o que não é aconselhável para o país. Para mim é tão importante o angolano que faz clássico como o que faz o folclórico ou o kuduro. É tudo igual e a única diferença vai se prender com a situação social, isto no facto de um ter bom carro e o outro ter uma casa estragada.

J C ­ Será que vamos poder ver o kota Bonga um dia cantar kuduro? Bonga ­ Se me convidarem não há mal nenhum. Eu sou um kota que dou assistência aos jovens e se alguém ousadamente chegar e me solicitar, para mim, é sempre bem-vindo. Inclusive ouvi algumas bocas de que Na grelha gostaria de cantar comigo seria um grande prazer. Acho o Na grelha ousado e com personalidade. E se as pessoas continuam atrás dele é porque ele tem alguma coisa a dizer nas suas mensagens.

JC - Existe algum formalismo para um jovem abordá-lo? Bonga – Não existe qualquer formalismo para as pessoas me abordarem. Seja onde estiver. Na rua, avião ou até no restaurante eu estou disponível para os responder. No meu tempo também era assim. Nós abordávamos os mais velhos em qualquer esquina e a recetividade era boa."O facto de fazermos uma música não significa que somos artistas"

JC ­ O disco "Hora kota" está no mercado há sensivelmente um ano. Já pensa num outro álbum? Bonga – Ainda estou a saborear o Hora Kota e principalmente devido as coisas que ele apresenta aos mais jovens. O Hora Kota não fala apenas do homem que bazou. É sempre um exemplo e um caminho a seguir. É um álbum que chama atenção a uma atitude e personalidade que é dos angolanos. O importante é que o angolano saiba que é diferente de qualquer outro cidadão e que deve fazer o melhor para o país.

JC - Que saudades tem do antigamente? Bonga - É bom que os músicos se encontrem mais vezes. Isto vai permitir que se conheçam melhor, bem como haja mais união. Hoje acabamos por viajar mais do que encontrar o vizinho perto de casa. Não precisamos de farras. Basta um quintal para que possamos cantar e continuar a viver Angola do antigamente.

JC - Que conselho deixa para os jovens cantores? Bonga - O facto de fazermos uma música ou disco não significa que somos artistas. Isto se conquista ao longo de vários anos de espetáculos. O que faz o artista é o atingir as massas.

 

Comentários

Newsletter


Colabore com o Jornal Cultura - Envie-nos os artigos da sua autoria.

Colaboradores Ver todos