Carta a um utópico (José Rodrigues), de Luanda e Porto

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Tenho todas as razões para recordar as barbas de um utópico

Carta a um utópico (José Rodrigues), de Luanda e Porto
José Rodrigues, Luiz Marcos, Jorge Sampaio, durante a visita ao trabalho dos Artistas por Timor, outubro de 1999

É claro que sabia das fragilidades, mas sobre os amigos mais queridos pensa-se sempre que têm uma espécie de aura da eternidade. Como acontece com Manuela de Azevedo, que aos 105 anos, continua lúcida e com vontade de trabalhar na ‘geringonça’! Por isso, estava longe de pensar que, nos teus quase 80 anos, dirias adeus aos pinceis, ao barro, às tintas, aos lápis… aos amigos. Seguramente, tiveste tempo para dizer-nos a todos: “continuem a utopia!”
Guardo estas tuas palavras sopradas. Acalento-as. E vou segui-las.
Estava longe dessa despedida, confesso. E por isso me surpreendeste. Porque, mesmo vendo pouco, sentias, sonhavas com aquela sociedade dos valores de liberdade, igualdade e fraternidade que são o melhor do mundo. Mesmo que não se alcance, sabemos que pode existir, que deve existir e que vai existir. Continuarei a pensar nela, sabendo que também a pensas. Os ideais não morrem connosco. A tua arte expressa-o e essa partilha é indelével.
Agora, revejo-te na descoberta do ‘convento de São Paio’ em Cerveira, na serra, por detrás do matagal. Lembro a 1ª reportagem (Diário de Lisboa, anos 80) sobre essa menina dos teus olhos, reerguida dos escombros. Paredes, celas, claustro. A capela transformada em oficina. A arte no reencontro do sagrado. Havia cabras, ovelhas, porcos, perus, cavalos,… e patos, acrescentas tu. Retorno às origens. O que mais relevei na reportagem foi a partilha do convento com o ‘caseiro’ e os seus filhos. Ele arrancou da vila para a serra, atrás do teu sonho. Aventura para todos. Não havia distinções entre eles e os teus filhos. Retorno a uma espécie de comunidade original. Barbas e ideologia imperando. Bondade e generosidade. Genuínas.
*
Viveste de sonhos e construíste sonhos. As utopias são os abalos que conseguimos provocar no marasmo. São marcas de rotura que perseguimos e deixamos. És tu.
Em tempo de misérias, descontrolos, vilipêndios, ganância, o lugar à utopia continua urgente. Como o sonhava também, há 500 anos, Thomas More. Na sua Utopia, ele denunciou: "a desonestidade da ganância de alguns converteu-se em calamidade". A calamidade não acabou. Pelo contrário, espalhou-se. Mas a Utopia tem de continuar. E nunca deve morrer. Inquietar é preciso. A tua arte, o melhor de ti, ai está para isso. Perdura e perdurará… em esculturas espalhadas pelo espaço público de várias cidades e nas peças com que abrilhantaste várias ações do Museu Nacional da Imprensa. Lembras-te da serigrafia feita para a inauguração em 1997? Com o S. João, o 1º livro feito em português (1497) e o 1º jornal (Gazeta, 1641) fizeste aquela bela marca do evento: o santo padroeiro popular, barbudo, irrompendo dos principais recantos do Porto, com as duas relíquias da imprensa portuguesa na mão. Revia-a ontem, para te revisitar. Bela. À tua imagem de artista profundo. Assim te revejo: mãos no barro, dedos no lápis gordo, como gostavas, numa mesa do café Piolho, na Árvore, e no sagrado atelier do convento de Cerveira.
Mas revejo-te também nas causas a que sempre entregaste o teu talento. Nalguns pequenos percursos feitos juntos. Como a medalha para os 150 anos da Fotografia (1989), uma das mais de cem que criaste e que fazem de ti o melhor artista de medalhas de sempre. Inovação, genialidade.
Outro momento que quero recordar contigo é o da luta pela independência de Timor Leste. Juntaste vários artistas e, depois de algumas semanas de trabalho, nasceu o imponente mural Artistas Por Timor. O presidente da República Jorge Sampaio acompanhou o processo, visitando por duas vezes a produção da obra, no museu. E ela ficou durante meses à entrada do museu, no Freixo. Artistas por uma causa que abalou o mundo. Em luta pela independência que tardava. Ficou a marcar o tempo de luta. As imagens estão guardadas para aquela passagem a mosaicos de que falámos. Estão à espera de oportunidade para serem transformadas e colocadas em mural cerâmico, num jardim ou praça de Dili…
Insistiremos, tu e eu.
Da última vez que estivemos juntos, almoçámos. Não no ‘Correia das tripas’, à Cordoaria, que aliás já desapareceu!, mas na tua Fábrica Social, transformada em templo de artes. Falámos dos Sulcos e Poemas, o livro que partiu dos teus desenhos inéditos (sulcos) para o desafio que lancei ao Eugénio de Andrade. O livro foi apresentado no Museu (1999), com a presença do presidente Jorge Sampaio, de Eugénio de Andrade, do ator Rui de Carvalho. E tu lá estavas, claro. No prefácio desse livro, refiro o acaso de juntar os teus desenhos aos poemas de Eugénio. Lembras-te? Revejo-te agora, num fragmento: “Com papel e lápis, pedras, ramos secos, folhas ou metais, a criatividade solta-se-lhe aos borbotões. Dos seus dedos papudos brotam figuras e traços finos de oníricas volúpias, cristos em sangue, anjos, ou velhos serenos e luminosos… A sua arte é afetiva. Amável, como a do poeta, ‘o amigo mais íntimo do sol’… De ambos ressoam melodias, frutos de muitas gerações. Para que outras tantas as absorvam, como nós”.
Pois é, tenho todas as razões para recordar as barbas de um utópico que fez da arte a melhor respiração do ser humano. Essas barbas permanecerão entre nós através do melhor que há em ti: a vibração da arte multifacetada.
Por tudo isso, nunca poderei esquecer o utópico que fez da arte o esplendor da natureza.
Luiz Humberto Marcos*

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