Cassules do Sagrada Esperança com passos de Semba bem instruídos

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Carnaval infantil sob comando do Rangel.

Cassules do Sagrada Esperança  com passos de Semba bem instruídos
Um momento do Cassules do Sagrada Esperança Fotografia: Paulino Damião

Das razões que levaram o Cassules do Sagrada Esperança a ganhar a edição 2015 do Carnaval Infantil de Luanda, pesou na decisão do júri “a moldura humana, o cuidado das alas, o colorido que combinava muito bem e a confiança nos seus passos de semba, bem instruídos e executados incansavelmente do primeiro ao último minuto já com gana de vencedores”, enumerou a presidente do júri ao CULTURA, a cantora Gersy Pegado, instantes depois da divulgação dos resultados, na tarde do dia 18, na Liga Africana. Dos outros grupos, embora não tenha tido a mesma sorte, estende igualmente um elogio ao Cassules Jovens da Cacimba, que na sua opinião merecia mais do que o distinguido terceiro lugar, já que o Cassules Kazukuta do Sambizanga conseguiu o segundo lugar.
Questionada sobre a questão de haver gente de considerável idade a ocupar lugares de destaque nos grupos do Entrudo infantil, que, outrossim, foi decisivamente a mancha desta edição, disse ser um facto, levantando inclusive o seguinte: “É verdade que há adultos no carnaval infantil. Nós ficamos muito atentos porque houve um caso de uma voz madura a cantar e a tentar dar a entender tratar-se de uma criança. Acho que é um dos acertos a fazer no futuro. O carnaval é infantil e devem ser as crianças a interpretar os temas. Devemos ter esse cuidado e corrigir”.
A forma como alguns grupos montaram os temas foi alvo de crítica da parte da cantora, que reconheceu ter havido uma grande confusão temática, lembrando que alguns passavam facilmente de um assunto para outro sem razão aparente, na mesma música.
Da sua conclusão geral, explica que a experiencia patenteada na montagem das coreografias e indumentárias mostrou que já se pode falar de um carnaval que prepara o futuro, dado que sempre imperou um certo descontentamento devido ao facto do carnaval infantil ter sido apresentado algo descuidado e, de alguma forma, pouco preparado para o futuro.
De Poly da Rocha, o abnegado director do Sagrada Esperança, do distrito do Rangel, visivelmente satisfeito pela dobradinha (2014 e 2015), ouvimo-lo dizer ter sido fruto de muito trabalho e inclinação árdua pela defesa do título da classe infantil, que é a camada que exige, no que toca à alegoria, alegria, folia e colorido, uma atenção especial.
“O carnaval tem evoluído bastante e cada ano que passa o despique é maior. A revitalização do Sagrada Esperança trouxe outro ânimo à competição, mostrando um bom trabalho e uma direcção detalhista. A nossa grande dificuldade ainda continua ser a falta de valores. Precisamos de mais apoio e mais ajuda, embora o dinheiro não seja tudo, porque a alegria de dançar e todo trabalho empenhado pela causa da cultura estão acima dele”, acrescenta.

Exibição no dia 14 de Fevereiro
O dia dos namorados deste ano teve um presente a mais: exibição do Entrudo do Carnaval infantil, o que levou vários casais à Nova Marginal. Inicialmente, o cenário era um mar aberto, um sol tímido e algumas bancadas vazias. Todos esperavam o aceno de Juvelina Imperial, vice-governadora de Luanda para Área Social, para dar início à festa. Já passava das 3 da tarde quando o bloco de animação Arte e Cultura estreou o solo da Nova Marginal com uma coreografia animada e repleta de toques de dança que se estenderam do semba ao kuduro, na mistura de variados temas de nomes que marcaram suas épocas: o incontornável Zinha, de Artur Nunes, Bartolomeu, de Prado Paim, e Merengue, de Nila Borja.
O Cassules do 54 desbravou o solo da Nova Marginal, a cantar Luanda minha terra mãe, letra de Sebastião Fernandes e interpretação de Segura Show. A música era uma invocação a ícones como Rainha Njinga, Agostinho Neto e sítios referenciais da cidade, com destaque para a Ilha de Luanda.
Com a corte representada por uma rainha ágil, com um leve véu branco a cobrir-lhe o dorso, enquanto o seu pelouro, de vermelho e preto, produziam um semba sem grande inovação, com passos já demasiado vistos e repetitivos movimentos. Teve também uma fraca alegoria e um comandante que não soube gerir o tempo e a disposição do espaço.
Na vez do Cassules Jovens da Cacimba, que deu uma louvável lição de simetria, três senhoras de pano vermelho indicavam os passos e abriam caminho a um caminhão que levava cinco manequins que simbolizavam a vida no campo. O comandante, Estefânio Andrade, um corajoso e bravo menino, nada inibido, tomava as rédeas. Elegante, de boné e de roupa costurada com tecido de lã. O seu semba era vistoso, de passos harmónicos, para agrado da pequena rainha, Wiza Andrade, entusiasmada e de movimentos bruscos, mas enérgica e de leitura sábia, estando sempre ao lado dos seus companheiros. A cantora, Domingas Andrade, outra menina, invocou em honra das mulheres a música Honra e Glória da Mulher Rural, e tomou a atenção dos holofotes, em movimento circulares e com os olhos atentos à tribuna principal. A pequena se movia rápido. Era uma beleza o episódio de vê-la naquele asfalto, tão à-vontade e familiarizada com a rajada de flash dos fotógrafos, e sem que nada disso atrapalhasse a sua actuação.
Cassules do Amazona do Prenda, que também fizeram no canto e na alegoria uma invocação à Luanda, tocando na temática a luta cerrada contra o lixo, teve uma corte real que chamou a atenção pela cumplicidade dos seus membros. A rainha seguia firmemente o rei, um jovem de cabelos pintados de um loiro que condizia com alguns adornos do seu traje, principalmente o bordado da patente. O seu semba não trouxe também muito de novo, tal como a indumentária. Foi na sua falange de apoio que mostraram o seu poder criativo, trazendo um grupo com cerca de 30 bailarinos, trajados com panos, que fizeram uma dinâmica roda de massemba, e outro, composto de mais de 15 elementos, que trouxe da modernidade alguns toques do kuduro mas refeitos a propósito e com outra mexida, como é o caso de uma recriação ajeitada de bebebela.
Cassules Admirador do Hoji-ya- Henda foi um grupo com uma alegoria simples: o quarto de um hospital, trazido na carroçaria de um caminhão. As sombrias habituais da kazukuta não foram esquecidas. Trouxeram um grupo real sem grande expressão de cores e sem grande postura em palco. Mas foram acudidos por um grupo de meninos trajados de pano, missanga e lenço na cabeça, que executavam toques simples, mas repletos de arte e garbo. A sua música foi uma invocação ao Cazenga, pedindo que olhassem muito mais pelo município e para dar mais destaque ao mítico mercado Asabranca, ou mulher, o “seu berço”, como diziam na letra.
Desfilaram sob vigilância directa de Tany Narciso, qual operário e membro de grupo se envolveu dando uma grande ajuda ao comandante.
Embora o foco temático da sua canção fosse a criança, Cassules do Twafunumka trousse na música, a nível da composição, uma certa intertextualidade com o Havemos de Voltar, de Agostinho Neto. Apresentou uma alegoria de fácil leitura, em que se destacava uma menina trajada de bessangana a tocar batuque. A sua rainha, Angelina Francisco, aquela que durante a exibição a coroa caiu e o músico Massano Júnior, num gesto amigo, atravessou o local de desfile para tira-la da sua direcção, dançava com distinta elegância. Calçava uns sapatos rasos vermelhos que a ajudavam a se movimentar confortavelmente, e foi ela que insistia em se unir ao rei que até então deambulava sem norte. O seu semba foi abençoado com a chuva, que se intensificou durante a apresentação deste grupo.
Com a chuva, nada melhor do que a harmonia elevada das sombrias do Cassules Kazukuta do Sambizanga. Foi o primeiro grupo a apresentar um tema em língua nacional, nesse caso o kimbundu. A chuva que teimava em não parar não conseguiu desencorajar os meninos. Na alegoria, pediam mais educação e na temática uma invocação ao próprio grupo.
No centro, a escassos metros do lado frontal a tribuna principal, o pequeno que aparentava ter menos de 4 anos, com o seu chapéu a cair por metade da testa e que quase lhe cobria a visão, conduzia um grupo de mais de 20 vistosos meninos, vestidos a rigor, com sobrinhas na mão. Dançavam harmoniosamente, com ritmo, alegria e brio, e resultava dos seus jogos de movimentos circulares um colorido que combinava preto, vermelho e branco. A cantora, Joana Neto, estava trajada de pano e era detentora de uma voz marcante, estando em bom-tom o coro em kimbundu. Os meninos rodavam a 360 graus e davam toques com a ajuda das sombrias. Foi dos grupos melhor organizados e de uma harmonia satisfatória, a contar com a inclusão de um grupo de meninas que dançavam vários jogos de infância, todas trajadas a rigor, e era como se estivéssemos em presença de vários grupos ao mesmo tempo. O público assistia atento. Na tribuna principal, o sucesso dos meninos da kazukuta teve reações visíveis quando Juvelina Imperial, receosa que o grupo atingisse o tempo limite e, por consequência, sofresse alguma sanção, gesticulava ao comandante, Francisco Manuel, a ver se este tomasse a providência de acelerar o passo da falange de apoio. E assim fez, com muita classe, ordem e harmonia. Da intrusa chuva, foi como se não estive a bater sobre ninguém, a dança kazukuta dos meninos tinha roubado a atenção de todos naquele momento e imposto algum silêncio.
Cassules 10 de Dezembro, um dos mais carismáticos, traziam na alegoria uma orquestra sinfónica, uma forma de prestar homenagem a do Kapossoca. Apesar da sua performance bem executada, teve uma organização um tanto atabalhoada, uma música sem grande destaque e um painel que não chegou a convencer. Denílson Lourenço, o seu comandante, pela exibição atenta e perspicaz, merecia melhor sorte.
Foi durante a exibição do Cassules Mundo da Ilha que a chuva decidiu sessar. Na alegoria, o grupo defendeu as temáticas educação e cultura e cantavam a afirmação das línguas nacionais. A sua cantora foi uma das meninas mais enérgicas. Mas foram as meninas vestidas de saias cumpridas e panos que deram o grande show na dança, com passos organizados, ginga equilibrada. Inicialmente, o seu comandante se preocupou em demasia com a tímida corte real mas ajustou-se no decorrer da exibição.
Cassules Café de Angola, que levaram uma invocação a Angola, montaram uma alegoria dramática: uma senhora a ser atropelada por um carro. Aprenderam bem as lições dos makotas e vieram com toques organizados. Tiveram uma boa cantora, Lola Simão, que passeou graça e classe.
Cassules do Angola Independente, que trouxe a inusitada música Compra Vassoura, apresentaram uma alegoria simples. Já era noite. Foi um grupo de grande imaginação. Mas foi na organização e falta de atenção aos detalhes onde mais pecaram.
Depois, a defender o título entra o Cassules do Sagrada Esperança. Muito bem organizado, criando um corredor de cores e passos de dança, com um pregão do canto em kimbundu traduzido com estas palavras que passamos: “não quero mais que me mandes comprar álcool”, um alerta mordaz aos adultos que insistem em mandar as crianças comprar bebidas alcoólicas. O seu semba arrancou de imediato aplausos do público em geral. As falanges dançam e as alas se movimentavam para o centro num vaivém vistoso. A cantora (já de certa idade) movimentava-se expansivamente nos diferentes espaços do desfile.
Cassules Geração Sagrada, que cantou a mãe na música Manager, foi das exibições mais pobres. A sua boa vocal, uma menina elegante, que de meias corria o espaço do desfile, não foi suficiente para superar as espectactivas. Teve um desfile cheio de atrapalhação. O seu semba não pegava.
Quando só faltava pouco menos de 20 minutos para as 8 da noite, o pano do Carnaval Infantil não caiu sem que Juvelina Imperial reconhecesse, durante umas breves palavras ao CULTURA, que os meninos tinham os truques todos bem afinados e que já tinha tirado as ilações do seu grupo preferido, aguardando apenas a decisão do júri, marcada para o dia 18. Entretanto, em linhas gerais, pode perceber que os grupos intensificaram a vontade de abraçar o testemunho dos mais velhos, uma atitude que considerou primordial por ser esta “a fonte da cultura”.

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