Cauêma

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Falarei hoje da Cauêma ­ essa dança de celebração e glorificação das colheitas e da suprema alegria de estar vivo, que só as mulheres nganguelas, no Sudeste de Angola, sabem fazer.

Cauêma

Dança, e sortilégio maior da Terra, que eu não consegui ainda, e de todo fui capaz, de trazer à materialização de um poema que se possa chamar "poema", sem trair ou diminuir o seu esplendor, a sua beleza imperecível, pelo exotismo ­ sempre tão fácil e tentador, não só em literatura como em toda a manifestação de arte.

Dança-se a Cauêma no tempo que advém às colheitas, com particular incidência nos meses de cacimbo ­ a estação seca e fria, que vai de finais de Abril a meados de Agosto, esse mês ventoso e doentio, entre todos, depois das últimas queimadas da terra.

Nenhuma luz poderá ferir a noite de Lua Nova, quando se dança a Cauêma. Por essa razão, todas as fogueiras da aldeia são apagadas, para que seja da mais absoluta escuridão todo o espaço em redor. Sequer uma estrela cadente, perdida ou extravagante, poderá riscar o céu ­ revelará mau presságio, morte iminente, que será necessário esconjurar.

Os espectadores juntam-se de um lado e do outro, ao longo do terreiro central da aldeia, lugar onde culminará a apoteose da dança. Ninguém enxerga um palmo à frente do nariz.  Não se ouve sequer a passagem de um cão, o gemido de uma criança. O silêncio pesa, impera, assusta.

Mas eis que de repente, vindos sabe-se lá de que recônditos confins da floresta, e mais assustadores ainda, estranhos, intermitentes e múltiplos ruídos poderosíssimos atroam a abóbada celeste. A terra estremece, como que percutida por um furacão, este é o sinal de que a Cauêma vai começar:

Não cessará de aumentar, até quase ensurdecer e a terra desabar debaixo dos pés, o volume e a variedade de sons, pela voz dos batuques e seus executantes, ora simulando vozes de animais imaginários e de fantasmas errantes, ora a voz de animais concretos da selva, e de todos conhecidos.

Até que um inesperado e breve silêncio se volta a instalar, provocando como que alucinações auditivas nos presentes.

Mas logo, um coro forte de vozes de mulher cantando se faz ouvir, vindo de um dos extremos da aldeia. Um bater cadenciado de muitas palmas, e um coro de vozes masculinas lhe responde, entoando a mesma canção. E de novo os batuques ­ espalhados e escondidos por toda a aldeia e seu redor ­ se fazem ouvir, agora num ritmo lento, acompanhando ambos os coros, que se revezam num crescendo de ritmo, de vozes e de som.

Surgem, então, ao longe, chispas de lume desenhando arabescos disformes e voláteis, aspergidos contra o negrume da noite como se fossem uma tempestade de estrelas cadentes despenhando-se na terra.

É ainda uma massa informe de fagulhas movimentando-se, um amálgama gigante de gotas de fogo serpenteando o ar e o espanto dos presentes.

De aqui em diante, e sempre em crescendo, vai subindo o ritmo dos batuques, que as bailarinas acompanharão com os movimentos da sua dança, cada vez mais rápidos e sensuais, dirigindo-se para o centro do terreiro, onde culminará a sua atuação.

Vêm nuas, completamente nuas, as bailarinas da Cauêma ­ e essa é a razão pela qual nenhum homem delas se aproxima, ou entra na dança.

À volta dos corpos ­ untados previamente com um óleo vegetal que as protege das queimaduras ­, enrolaram londóvis (entrecascas de árvores ou arbustos maleáveis), de modo a moldarem, com grande rigor e precisão, as formas dos seus próprios corpos.

É aos londóvis, embebidos num óleo vegetal comburente, que deitam fogo.

Os corpos das bailarinas transformam-se, dos pés à cabeça, em autênticas esculturas de fogo, que se movem ao ritmo cada vez mais hipnótico da dança, até que chegam ao terreiro central da aldeia. E aí, a todos deslumbram, com as acrobacias dos seus movimentos, a sensualidade levada ao extremo, a beleza, a alegria e a felicidade que de si se desprendem em todo o seu resplendor e poder de encantamento ­ e que são as formas nuas dos seus corpos revolvendo-se em fogo ­, num bailado vertiginoso, mágico, inolvidável.

É uma dança única em toda a cultura angolana, e sem paralelo com as chamadas "danças do fogo", que a humanidade conhece.

Terminada a Cauêma, e enquanto as mulheres que a executaram se vestem, voltam a acender-se as fogueiras da aldeia, festejando-se, depois, até altas horas da madrugada, com muita comida, muita música e muita bebida, a atuação das bailarinas, o farto produto das colheitas e a suprema alegria da Vida.

Perseguir a verso e sílaba esta poesia, reinventá-la em transgressão e rigor, tem sido a razão da minha vida enquanto poeta. E não tenho outra: é preciso criar para Criar, tudo está ainda por nascer.

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