CDC Solos para um Dó Maior

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“Solos para um Dó Maior”, a mais recente peça dançada pelos sete magníficos bailarinos (Daniel Curti, Adilson Valente, Armando Mavo, Ady Baptista, Anto?nio Sande, Cemi Curti, Benjamin Curti ) da CDC – Companhia de Dança Contemporânea, fundada em 1991 pela expressionista e diluviana criatividade de Ana Clara Guerra Marques, subiu ao palco do Centro cultural Português em Luanda, no passado mês de Junho, sob os olhares inspectivos do assistente de direcção e ensaiador Nuno Guimarães e do produtor executivo Jorge António, para nos brindar com um diálogo de intensa mobilidade plástica corpórea entre a Vida e a Morte.

CDC  Solos para  um  Dó Maior
António Sande

O próprio título evoca “uma certa ironia com a linguagem musical”, explicou Nuno Guimarães, pois o verbo de que se impregna a dinâmica dos corpos em movimento busca “conciliar a tristeza do ser humano com a constância da morte durante a vida.” O verbo parte da oratura angolana tchókwe, em que um destemido caçador, com uma forte crença no seu poder, desafia a própria Morte, enquanto no ar um místico violoncelo faz esvoaçar notas da pauta musical de Bach. Mas também música contemporânea: Philip Glass, Dead can Dance, John Cage, Jan A. P. Kaczmarek. O verbo ali dito traz ainda empréstimos da obra do camaronês Eza Boto (Monge Beti), a Cidade Cruel.
Desta arte se consumaram os sete solos:
I– especulação estética sobre a quase-nudez do músculo vestido de saia creme. posse e renúncia. auto-representação dionísica. metalinguagem felina de morder a alma de um monstro. monstro?
II – 1-2-3-four-five-six. contorção do desejo de ser. andrógino contorno da fala corporal gotejada em pano preto. poesia oral ao sabor de música clássica. metálica paisagem de águas subterrâneas com mil e mil anos de História concentrada num corpo negro que o silêncio decuplica. electricidade das formas.
III – ficando só, Banda pôs-se a perscrutar a noite. vermelho sobre Suor Negro. erotismo. sensualidade. espiritualidade. memória de coragem. ó Morte, eu quero te matar!
IV – roxo. MORTE – razão da nossa luta milenar. o efeito plástico da VIDA no corpo jovem. a dança não é, afinal, uma brincadeira infantil? haverá dança sem criança? sem destemor da morte: mostra a cara, Morte! a música recria sons peremptórios como agulhas de pinheiros ou átomos de lágrima gelada. essa ousadia desenha na pele do bailarino a audácia de matar a Morte. mas ela não tem cara, a Morte, ou tem? então, o que mata o caçador? a própria sombra? o micro-instante da eternidade dentro da impermanência?
V – negro total e branco. dança térrea – ao nível do Mar e do húmus do Ser. música das mãos. sobre a utilidade do Acaso. sem mea culpa. é preciso ter um papel na Vida. mesmo rente ao solo. é aí que germina a árvore, mãe do Homem.
VI – tu estás morta! de rosa se veste o caçador. corporificação da questão crucial sobre a razão de ser/viver. o suor de viver é espelho mágico.
VII – um ser mitológico agarra o firmamento com as mãos cheias de fábricas acústicas. os músculos da música esticam até o limite as figurações do corpo. e nós na noite escrevemos nossa sede de ver, ouvir e voltar a viver esses silêncios desflorando a poesia daquele corpo alto e magro e ondulante serpente.
O ÚLTIMO SOLO – sem qualquer instinto identitário de etnicidade bantu. me seja permitida uma mera crítica de recorte técnico. neste plano, notou-se uma certa arritmia, uma dissonância áudio-visual entre a coreografia-diálogo com a Morte e a música de fundo; todo esse Dó Maior também será capaz de estabelecer outro diálogo mais natural, com: a imponência do batuque; a mística da kora; a litania do quissanje; o rumor hídrico do chingufo; o raspar idiomático da dikanza. instrumentos da celebração dos textos e da história do caçador tchókwe.

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