Cesária, Django e a Universalidade

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Reconhecimento

Em Dezembro (dia 17 de 2011), período de festa e jubilação para muitos, foi o mês em que a Diva dos pés descalços ou como outros lhe chamaram, "a aristocrata das cantoras de bar", nos disse definitivamente adeus legando-nos a "sodade" e a universalidade da sua música. Ícone da música cabo-verdiana e não só Cesária Évora foi homenageada em Paris, berço do seu renome internacional, nos dias 27,28 e 29 de Setembro no âmbito do Festival de Île de France.

No Cirque d'hiver Bouglione em Paris teve por conseguinte mais um evento que pontuou 2012, ano em que a Billie Holiday da cabo-verdiana Mindelo foi objeto de generosas manifestações de carinho e de reconhecimento público e artístico. No ambiente intimista do pequeno circo parisiense, a cumplicidade artística de Bonga, Teófilo Chantre, Mayra Andrade, Ismael Lô, Angélique Kidjo e Camané, tal um talismã, atraiu a afluência dos grandes concertos que marcaram a carreira de Cize, como afetuosamente a chamavam as pessoas amigas.

E o espírito de Cize prevalece à semelhança de um tal Jean-Baptiste Reinhardt (aliás, Django) também ele aristocrata dos bares parisienses, antes de elevar, com a sua guitarra, a festiva e convivial musicalidade do Jazz Manouche ou Gipsy Jazz, à categoria de património universal.

O facto de a Cité de la Musique de Paris consagrar atualmente ao universal aristocrata dos bares a luminosa exposição"Django Reinhardt, o Swing de Paris" não é senão pura coincidência, num ano em que a herança musical de Cesária Évora se tornou mais do que nunca um tema de celebração.

Destinos cruzados, cumplicidades e entusiasmo

Cesária Évora continua presente nos espíritos e nos ouvidos do mundo neste ano de 2012. Ela é incontornavelmente para a música de Cabo Verde o que Django Reinhardt representa para o Jazz Manouche ou muito simplesmente o jazz made in France.

Cesária Évora é a sublimação antropológica da desinsularização da cabo-verdianidade e a asserção de uma Morabeza descomplexada. A semelhança do ritual iniciático que é uma romagem à campa de Django Reinhardt (falecido em 16 de Maio de 1953) na discreta vila de Samois-surSeine, no sul da região parisiense, recordar Cesária Évora é ir ao encontro do espírito musical de Cabo Verde renascido para o mundo na noite de 14 de Dezembro de 1991.

Nessa data, resplandecente como o seu mar azul natal, possuída pela sua umbilical sodade e a sua voz de veludo, a Diva dos pés descalços voltava à subir ao palco do New Morning de Paris para inscrever o seu nome, o da música cabo verdiana e o da africana música à jamais na contemporaneidade.

Depois de um concerto praticamente confidencial no dia 7 de Junho de 1991 na mesma sala parisiense, a voz de Mindelo lançava nesse mês natalício os fundamentos de uma adesão globalizada aos ritmos e às tradições musicais de Cabo Verde.

Mais de vinte anos depois, __ se atendermos que o seu primeiro concerto em França no citado New Morning data de 1 de Outubro de 1988__ o entusiasmo do público que se deslocou aos concertos do Cirque d'hiver faz-nos remontar a essa época em que os não iniciados, acolheram a morna como o blues cabo-verdiano e o balancear da coladera como a biguine das Antilhas francófonas.

Através de uma síntese de composições pessoais e de grandes clássicos do repertório de Cesária Évora (Sodade, Angola, Petit Pays, Sangue de Beirona, Mar Azul e outras) o angolano Bonga que conviveu com Cize nas noites mindelenses e os seus parceiros de homenagem fazem reviver o espírito da cantora de Cabo Verde e vibrar um público francês para quem a Diva de Mindelo é agora a sua musa parisiense.O fervor dos aplausos nos camarotes e os imprevistos passos de dança dos fãs de Cize cuja chegada tardia não favoreceu o acesso à um lugar sentado, dispensam comentários sobre a comunhão que marcou o evento.

Cesária Évora e a Cize

"Cesária Évora__ disse-nos Bonga__ não representava só a música de Cabo Verde. Ela era também uma embaixadora para todos os países lusófonos e para a música africana em geral. E a sua importância não se restringia ao domínio musical.

Como indivídua a Cize era uma mulher moderna, emancipada, mulher do seu tempo. Lembro-me perfeitamente dos tempos em que ela cantava nos bares de Mindelo. Ela não cantava quando lhe pediam para fazê-lo, mas sim quando ela bem o entendia.

A Cize era uma mulher de uma descontração extraordinária. Ela entrava nos bares do seu Cabo Verde natal, com espontaneidade, ela deambulava entre as mesas, comunicava com e era aplaudida pelos presentes, mas só cantava mesmo quando lhe desse na vineta.

E também, muito importante era naturalmente a sua voz. A Cesária Évora não é uma simples cantora.Com aquele veludo na garganta a Cesária é uma das melhores vozes do mundo. O seu à-vontade, cantando descalça ou calçada, com ou sem o seu copo na mão, com ou sem o seu cigarro na boca, ela era uma forte personalidade, que ela soube impor através da sua voz.

As pessoas tinham o hábito de dizer, a Cesária é pouco comunicativa. Não senhora! A Cize era muito comunicativa, aberta para as pessoas da sua intimidade. Logo que conhecesse alguém ela abria novos horizontes e as pessoas vinham à ela, descobriam a verdadeira Cesária.

Ela não contava historietas, era uma pessoa verdadeira e direta. Por isso é que Cabo Verde lhe tem mostrado o seu reconhecimento por tudo quanto ela fez, pela divulgação da cultura do seu país através do mundo. Cabo Verde deu o seu nome à um aeroporto. Hoje em dia quando as pessoas desembarcam em Mindelo podem ver um busto de Cesária Évora.

Eu próprio vi turistas estrangeiros efetuar uma romagem ao cemitério em que jaz Cesária Évora. A semelhança do que se passa com o argentino Carlos Gardel e o tango. Enfim, todo esse apreço, deve-se ao facto de ela ter deixado marcas por todo mundo e ao que ela representou e fez enquanto viva.

Por isso é que estamos aqui reunidos em Paris para reconhecer o valor da senhora que ela foi e de tudo quanto ela fez como artista durante a sua vida", concluiu o autor, compositor angolano

Cesária Évora ficará na história como a figura que no crepúsculo do século vinte, pôs um termo a estagnação do reconhecimento das músicas lusófonas em geral, inclusive as do Brasil. Independentemente das escolhas estéticas e opções artísticas, ela contribuiu para relançar o interesse por essas músicas parentes, sofrendo com a falta de visibilidade na cena internacional. "De facto quando a Cesária Évora emergiu em França e na cena internacional no início da década de noventa __ afirma Teófilo Chantre, um dos compositores prediletos da Diva dos pés descalços (Chantre assinou entre outros o hit "Petit Pays") __ as músicas dos países lusófonos na sua totalidade encontravam-se confinadas ao esquecimento.

Para além de ter colocado a música de Cabo Verde no mapa-mundo, a Cesária não é estranha ao sucesso de bandas como Madredeus nem ao renascimento da música brasileira na cena mundial.

Digamos que a sua importância foi extrema. Não ignorando o facto de que a música brasileira já existia anteriormente na cena mundial, eu diria que a Cesária Évora deu uma outra dimensão planetária as músicas lusófonas".

Em forma de epílogo, Teófilo Chantre sugeriu, para que a memória de Cesária Évora se perpetue, que a história de Diva cabo-verdiana seja incluída nos manuais escolares de Cabo Verde.

Com Cesária Évora a música de Cabo Verde não atingiu só a sua plenitude. Ela tornou-se universal. Da mesma forma que "Myriam Makeba, Cesária Évora atingiu a universalidade. As suas canções devem ser celebradas aqui, em África, no mundo.

O resto do mundo deve compreender que nós, os artistas africanos não nos esqueceremos de Cesária Évora porque ela faleceu. As suas canções à semelhança das de Myriam Makeba são universais, por isso podem ser celebradas por todos.

O legado musical que deixam Myriam Makeba e Cesária Évora para a minha geração é muito importante, numa época em que a música recua devido à intrusão das novas tecnologias", assim opina a beninense Angélique Kidjo.

Na realidade Cesária Évora era uma "Grande Dame" (Grande Dama), um símbolo. Não só para o seu país, mas também para a África e para o mundo. Para mim, Cesária é como um baobab (imbondeiro). E o imbondeiro nunca morre. Ela está aqui connosco, presente com a sua música, com a sua graça e com a sua humanidade", disse-nos beatamente o Bob Dylan senegalês Ismael Lô.

Para sempre Cesária

A generosa simplicidade do ser e a força da sua dimensão artística fizeram de Cesária Évora o ícone da universalidade que continuará a ser celebrado ao vivo e no acetato discográfico.

"Miss Perfumado" o álbum que levou o mundo a abrir os ouvidos e os olhos para Cesária Évora é objeto de uma reedição neste final de 2012 e a Primavera de 2013 reserva-nos a surpresa de um compacto com canções inéditas da Diva cabo-verdiana, que nos deixou como herança horas de gravação à fio nunca celebradas até ao momento. Cesária Évora findou a sua passagem em 17 de Dezembro de 2011, mas o baobab permanece entre nós.

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