Cesária, Django e a Universalidade

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O fervor dos aplausos nos camarotes e os imprevistos passos de dança dos fãs de Cize cuja chegada tardia não favoreceu o acesso à um lugar sentado, dispensam comentários sobre a comunhão que marcou o evento.

Cesária Évora e a Cize

"Cesária Évora__ disse-nos Bonga__ não representava só a música de Cabo Verde. Ela era também uma embaixadora para todos os países lusófonos e para a música africana em geral. E a sua importância não se restringia ao domínio musical.

Como indivídua a Cize era uma mulher moderna, emancipada, mulher do seu tempo. Lembro-me perfeitamente dos tempos em que ela cantava nos bares de Mindelo. Ela não cantava quando lhe pediam para fazê-lo, mas sim quando ela bem o entendia.

A Cize era uma mulher de uma descontração extraordinária. Ela entrava nos bares do seu Cabo Verde natal, com espontaneidade, ela deambulava entre as mesas, comunicava com e era aplaudida pelos presentes, mas só cantava mesmo quando lhe desse na vineta.

E também, muito importante era naturalmente a sua voz. A Cesária Évora não é uma simples cantora.Com aquele veludo na garganta a Cesária é uma das melhores vozes do mundo. O seu à-vontade, cantando descalça ou calçada, com ou sem o seu copo na mão, com ou sem o seu cigarro na boca, ela era uma forte personalidade, que ela soube impor através da sua voz.

As pessoas tinham o hábito de dizer, a Cesária é pouco comunicativa. Não senhora! A Cize era muito comunicativa, aberta para as pessoas da sua intimidade. Logo que conhecesse alguém ela abria novos horizontes e as pessoas vinham à ela, descobriam a verdadeira Cesária.

Ela não contava historietas, era uma pessoa verdadeira e direta. Por isso é que Cabo Verde lhe tem mostrado o seu reconhecimento por tudo quanto ela fez, pela divulgação da cultura do seu país através do mundo. Cabo Verde deu o seu nome à um aeroporto. Hoje em dia quando as pessoas desembarcam em Mindelo podem ver um busto de Cesária Évora.

Eu próprio vi turistas estrangeiros efetuar uma romagem ao cemitério em que jaz Cesária Évora. A semelhança do que se passa com o argentino Carlos Gardel e o tango. Enfim, todo esse apreço, deve-se ao facto de ela ter deixado marcas por todo mundo e ao que ela representou e fez enquanto viva.

Por isso é que estamos aqui reunidos em Paris para reconhecer o valor da senhora que ela foi e de tudo quanto ela fez como artista durante a sua vida", concluiu o autor, compositor angolano

Cesária Évora ficará na história como a figura que no crepúsculo do século vinte, pôs um termo a estagnação do reconhecimento das músicas lusófonas em geral, inclusive as do Brasil. Independentemente das escolhas estéticas e opções artísticas, ela contribuiu para relançar o interesse por essas músicas parentes, sofrendo com a falta de visibilidade na cena internacional.

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