Chico Montenegro: O N´gola Cine era o “tribunal” da música angolana

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“As músicas que carregavam mensagens de intervenção eram cuidadosamente compostas, e só os da terra davam conta do que cantavam. Também lembra com um sorriso nos lábios o “saudável” despique que reinava entre os Jovens do Prenda e os Kiezos, dois grandes da música angolana.”

 

 

De pais de Calumbo, nasce no Prenda. Guarda na memória a Luanda dos seus doze, treze e catorze anos, fugindo sorrateiramente da polícia portuguesa. As músicas que carregavam mensagens de intervenção eram cuidadosamente compostas, e só os da terra davam
conta do que cantavam. Também lembra com um sorriso nos lábios o “saudável” despique que reinava entre os Jovens do Prenda e os Kiezos, dois grandes da música angolana.

Aparece na vida musical, mas não como o elemento de conjunto que veio a tornar-se anos depois. Começa num grupo carnavalesco que tinham lá no bairro: Kazolas do Prenda. Ensaiavam na casa do Muxinge, à época situada no bairro da Kinanga. Neste grupo toma contacto com António do Fumo, Cangongo e Verry Inácio. Com o aparecimento da viola e outros instrumentos musicais oriundos da diáspora, decidiram sair do grupo carnavalesco para formar uma banda musical, já no início dos anos 60.

O Jovens do Prenda

Não é, conforme muita gente pensa, um artista individual. Aquando da “febre” de formação de grupos musicais, tocava caixa, o mesmo instrumento que tocava no grupo carnavalesco. Mas com a entrada do Zé Keno e do Gama (viola baixo), elementos que faziam parte de um grupo do bairro Margoso, surge a ideia de formar um conjunto, formado por Verry Inácio, Gama, Sanção e Zé Keno; embora Chico e Verry Inácio fizessem ainda parte de um grupo musical do Katambor, que era o Jovens do Katambor. Depois de haver problemas neste grupo, foram para um conjunto do bairro do Zé Keno, onde também saem algum tempo depois, dando assim liberdade para a formação do Jovens do Prenda.

Naquela altura o Jovens do Prenda era suportado por Verry Inácio e Chico Montenegro, dado que Cangongo e António do Fumo ainda pertenciam ao “Estrelas da Maianga”, que também deixam algum tempo depois, para integrar a tempo inteiro no “Jovens do Prenda”. Cangongo deixa de tocar tambor e passa a ser viola baixo, Verry Inácio tambor grande e Chico Montenegro tambor pequeno.

Em 74 o Jovens do Prenda pára, muitos elementos formaram outros grupos musicais. Chico vai para o FAPLAPOVO, onde entra em 77; o Verry Inácio, o Augusto e o Cangongo formam o conjunto da polícia; o Zé Keno vai para Os Merengues. Só em 82 é que o conjunto
volta a se reunir, mediado por Chico Montenegro, por ser ele quem conhecia o empresário disposto a apoiar o conjunto, participando assim naquela que é considerada por muitos como “a grande fase da música angolana”.

O N´gola Cine era o “tribunal” da música angolana

Os seus problemas pessoais foram sempre a sua fonte de inspiração. É sempre chamado de “sentimentalista”, um pouco devido aos acontecimentos que marcaram a sua fase adolescente: viu, aos doze anos, o seu pai a ser preso pela PIDE.

Sempre cantou o que se passava dentro de si. O sofrimento, tirando uma ou outra para animar um bocadinho.

Dos locais que faziam furor na época, passou pelo Dia do Trabalhador, Aguarela Angolana, Kutonoka e N´gola Cine - considerado o “tribunal” da música angolana. Quem passasse por lá estava apto a actuar em qualquer parte de Angola. Se não passasse, era sina que a carreira não iria dar certo e que não iria se aguentar no mercado.

O hoje e o ontem

Hoje faz parte do Conjunto Angola 70, idealizado por um alemão, que queria uma música como a do antigamente: sem bateria, sem órgão e sem os arranjos artificias da actualidade.
Cheia de vida angolana.

Reporta que antigamente não tinham aparelhos nem Dj. Tocavam dentro de um quarto, onde também ficava o discotequeiro. Alguns só davam conta no final da sessão, quando vinham uns elementos saindo de uma espécie de quarto, todos a transpirar, e só aí é que gritavam ou vinham cumprimentar os músicos. Era sempre música ao vivo, mesmo sem ter contacto visual. O que importava era a qualidade do som.

Luanda era culturalmente agitada e exigente. Foram várias as vezes que muitos saíram daí vaiados. Do Prenda lembra as passagens pelas discotecas Laspalma, Belavista, 11 Bravos da Samba, Benfica da Gala, Os Astros; no Marçal o Giro-giro, Bom Jesus, Maxinde,
Centro Social São Paulo; no Sambizanga o Kudisanga kua Makanga, Salão dos Anjos, Barrarense da Barra do Dande; no Rangel o Sporting do Rangel e Dezoito mil e oito; no Cazenga o Matopá e o Cruz Malta; no Bairro Popular o Perdidos e Cine São João; no Golfe lembra o Kizomba.

Dos dias de hoje, em tom magoado conta que só o Cantinho do Catete e o Centro Recreativo Kilamba lhes dão espaço, onde também em 24/02/2008 mereceu uma homenagem no tradicional Caldo do Poeira.

Momentos marcantes

Com acentuada curiosidade, perguntamos quem era a Bina, a mulher tão bem cantada por Didi da Mãe Preta. O músico responde-nos que nesta música o Didi fala de uma moça muito vaidosa, a do tipo “não me toques”. A mesma morava no Sambizanga. Didi, assim que poisou o seu olhar sobre a moça, achou-a linda e decidiu cortejala com um elogio. Chico Monte Negro não conta ao acerto o que se passou entre ela e Didi, ou qual era o grau de intimidade entre ambos (um trabalho que esperamos apurar para uma das
próximas edições, pelo próprio Didi).

São duas fases que guarda com carinho. A primeira foi o prémio que o Jovens do Prenda recebeu da Rádio Clube de Luanda (hoje Rádio Escola), aí para 68/69, quando o conjunto tinha a rolar os sucessos “Farra na Madrugada” e “Parte Pé”.

Outra fase que o marca foi o ressurgir do Jovens do Prenda em 82, na companhia do senhor Kandango, promotor de música. Foi a fase inesquecível, resultou numa digressão na diáspora, período em que a música nacional era muito respeitada no estrangeiro.

O kimbundu

Da voz de Chico Montenegro, compositor e intérprete do elevado Jovens do Prenda, o kimbundu, mais do que veículo de comunicação, é uma máxima interna e partícula viva das gentes do seu mundo angolense. “Ngana Maria”, tirada pela Valentim de Carvalho, aí em 72/73,  “Passagem do Rio” - música cuja composição assina com Chiquinho, irmão de Raúl Tolingas, e que retrata a chegada do branco; “Jihenda já Luanda” - uma história inspirada na ida a Benguela, onde por várias vezes o Jovens do Prenda actuava apenas por três dias, havendo uma vez que o conjunto foi pedido a ficar por cerca de quinze dias, o que causou as saudades de Luanda retratadas nesta música; “Monami” - com viola de caixa de Carlitos Vieira Dias, é um lamento que dedica ao pai, preso em São Nicolau; “Bolero Jovem” – com solo do Zé Keno; “Papá Papá”- solo do Marito, dos Kiezos; “Mungongo” - solo de Zé Keno, dikanza de Didi da Mãe Preta e voz de Gabi Monteiro; são, entre outros não agora citados, alguns dos registos musicais que preenchem a memória desta figura da música angolana da geração 60 até aos nossos dias.

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