Conferência dançada “O mercado da dança em Angola está carente”

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Foi já a findar Setembro que a Aliança Francesa de Luanda e o Elinga Teatro fizeram acontecer a primeira conferência dançada, aí mesmo no Elinga Teatro, à noite.

Os grupos CDC, Ballet N´jinga, DINFA, Kussanguluka, Yetu Dance e Elinga Teatro reuniram um misto de 20 bailarinos sabiamente dirigidos pelo coreógrafo do Burkina Faso, Serge Aimé Coulibaly, que, em pouco menos de 20 dias, tratou de montar e fazer os “novatos” entrarem no ritmo dos passos de uma conferência que exigia muito mais tempo, dando no atelier as seguintes temáticas: as fontes de criação do movimento, personalidade e criação coreográfica; a escrita coreográfica; a história da dança e o contexto africano.

Do coreógrafo aprendemos que “para as sociedades tradicionais africanas, a música, a dança e o teatro são indissociáveis no contexto do espectáculo vivo. Estar em palco é incarnar uma personagem e dançar”. No fundo foi este o propósito da sua visita a Angola.

Nos deu a conhecer o projecto Faso Danse Théatre”, que “reagrupa e apoia muitos jovens artistas que possuem já uma linguagem coreográfica clara e afirmada” e que não pretende apenas se constituir como companhia, mas “também um espaço de criação, de encontros, de reflexão e de pesquisa sobre a criação coreográfica contemporânea no contexto africano”.

Elizeth Cláudia Rodrigues “Eli”, natural de Luanda, era uma das bailarinas em palco. Os seus passos revestidos de fina elegância facilmente saltavam à vista. A sua postura disciplinada também não ficou atrás, sempre em movimento harmonioso.

Interessados em saber mais sobre a dançarina, Agnela Barros, depois de tecer elogios merecidos e de fazer uma crítica à media que não tem estado atenta aos agentes culturais de outras artes que não seja a música, foi a primeira a nos informar um pouco sobre a bailarina: “é das melhores que temos, e está a dar aulas no DINFA”, disse.

A sua carreira como bailarina começou em 2003 na Companhia de Bailado Minessa. Em 2007 ganha uma bolsa de estudo do ministério da Cultura para a República de Cuba e aí frequenta o curso superior, concluindo uma licenciatura em Dança Contemporânea no Instituto Superior de Arte (ISA), em Havana.

Nos dias que correm trabalha na Direcção Nacional de Formação Artística (DINFA), no Departamento de Investigação e Desenvolvimento Curricular (DIDC) e, também exerce, na Televisão Pública de Angola, a função de coreógrafa e bailarina do programa “Domingo à Mwangole”.

Jornal Cultura - Quebrando os limites entre a dança e o teatro, qual é o principal objectivo de uma conferência dançada?
Elizeth Cláudia Rodrigues –O principal objectivo de uma conferência pode ser: ampliar conhecimentos teórico-práticos e promover a dança como necessidade do desenvolvimento artístico como um todo. E sim, tenho plena certeza que há condições de realiza-las frequentemente, desde o potencial humano ao capital financeiro.

J.C - Quais os estilos que predominaram na conferência dançada? E.C.R - O estilo predominante na conferência foi sem sombras de dúvidas o contemporâneo. Mas, sendo este uma linha sem limites, houve também quem, dentro da sua liberdade para criar, implementou algumas frases que representaram o universo das danças folclóricas locais.

J.C –Qual é a sua percepção do sobre o dinamismo da dança em Angola?
E.C.R - O mercado da dança em Angola está carente. Se queremos falar e ver a dança como arte temos que trabalhar todos em função da mesma, porque, apesar dos esforços que se tem feito em prol do seu desenvolvimento, falta o primordial, que é a formação básica e união entre as pessoas que amam e vivem da dança.

Após o meu regresso de Cuba, soube do surgimento do concurso Bounce – e aproveito para parabenizar os seus criadores - contribuindo em grande parte para que a população comece a digerir elementos sobre os vários estilos de dança. E pode não transparecer, mas o Bounce ajudou muito a população a começar a entender e a aceitar a dança como um ofício. Porque, há 8 anos, muitos papás não aceitavam que um filho sonhasse ser bailarino profissional e hoje, pela influência deste concurso, permitem e apoiam, embora ainda com certo receio.

O que me deixa triste é o facto de que os dançarinos depois de passarem por lá já começam a pensar que saíram de uma universidade. Pensam que já entendem de tudo no mundo da dança e que podem ser coreógrafos e professores de dança. Cuidado! Dança é muito mais que um concurso. Há muito mais ainda por aprender em termos de dança. Há uma experiência contínua que se arrasta por vários anos de exercício.

Acho que boa parte dos fazedores da dança no nosso país são limitados, querem o facílimo. Os famosos coreógrafos não querem criar, inovar, mas o todo mundo diz ser entendedor de tudo. Há uma grande necessidade de reflectirmos sobre isso, porque é muito
sério, uma companhia com uma só linha de trabalho folclórico ou contemporâneo já é muito difícil de manter. Como é que em Angola quase todas as pessoas que dizem ser coreógrafos, quando se lhes pergunta qual é a tua linha de trabalho, respondem que fazem quase tudo: dança folclórica, contemporânea, salsa, valsa… Que bárbaro!

Claro que no nosso país ainda é muito difícil fazer dança com profissionalismo, dança no verdadeiro sentido da palavra, porque contam-se os bailarinos que tecnicamente estão aprovados, não temos teatros, salões de dança; temos sérios problemas de luzes, cenários, etc., etc., etc.

Sei que há muito interesse dos adolescentes e jovens por esta manifestação artística. Muitos possuem habilidades inatas que poderiam ser desenvolvidas e só não acontece por falta de oportunidades (escolas). Muitos deles acabam por ser dançarinos, professores mesmo, mas sem consciência e discernimento técnico do que fazem. É o desejo de ver realizado o sonho de ser bailarino ou coreógrafo que bate mais forte... E é essa a realidade de muitos que se intitulam coreógrafos ou professores de dança no nosso mercado.

O melhor de tudo isso é que o povo angolano é de muita fé e nunca perde a esperança. Sem medo de errar, tenho a certeza que um dia chegaremos lá, porque talento temos de sobra, vontade de fazer cada vez melhor também temos. Por outro lado, o ministério da Cultura está preocupado com esta e outras situações de modos a suprir consideravelmente as problemáticas do campo da dança, com a construção de uma escola de formação artística que deve receber alunos de Cabinda ao Cunene nas mais diversas especialidades, integrando a música, a dança, o teatro e as artes plásticas. Isso me leva a crer que dentro de 5 anos poderei responder à mesma questão com muita satisfação.

J.C - Temos um número muito reduzido de espectáculos de dança. O que pode estar na base do distanciamento entre o público e o artista de dança?
E.C.R - O distanciamento entre o público e quem faz dança existe por vários factores, dentre eles: uma população que não foi educada a apreciar, valorizar, amar, a apaixonar-se e a mergulhar um pouco na vida de um artista; um bailarino que não assume, não defende, não luta, não dedica e não acredita que pode ter um futuro brilhante a depender só da dança; um país em que praticamente não há teatros nos municípios.

Enquanto o nosso povo não entender que a dança já é um ofício e que se pode viver da dança; enquanto os empresários pensarem que em Angola só os músicos podem erguer a nossa bandeira e que apenas se faz dinheiro a patrocinar um CD fica difícil. Mas quando todos entendermos que se apostarmos na dança, como já algumas pessoas estão a apostar, o país crescerá, a cultura cresce e todos angolanos crescem, aí sim, haverá a união entre o público e os bailarinos.

J.C - Nas palavras de Serge Coulibaly, percebemos que há uma certa dificuldade do ocidente em entender as antigas estéticas de danças africanas que dão vida a estilos dos dias hoje. Será por causa do problema de falta de bibliografia disponível?
E.C.R. - Obviamente que sim. A falta de bibliografia disponível tem influenciado muito para o desconhecimento e à má compreensão de muitas danças em África e em particular em Angola, porque muitas dificuldades vividas por parte dos professores, coreógrafos, bailarinos e dançarinos deste continente têm muito a ver com a ausência de artigos escritos sobre os mesmos. Por essa razão fica cada vez mais difícil a descodificação das nossas danças e a existência de técnicas pautadas que garantam o ensino das danças e bailes folclóricos de África.

“Enquanto o nosso povo não entender que a dança já é um ofício e que se pode viver da dança; enquanto os empresários pensarem que em Angola só os músicos podem erguer a nossa bandeira e que apenas se faz dinheiro a patrocinar um CD fica difícil.

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