Conferência Internacional sobre Kuduro: Conhecendo para valorizar

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O kuduro tem sido criticado alegada pobreza de conteúdo, ausência de criatividade, mediocridade, carácter efémero, distanciamento da "tradição" melódica da música angolana, linguagem e mensagem agressiva, associando-o à violência verbal ou delinquência.

Porquê a Conferência?

Paradoxalmente, expande-se a nível internacional e há quem o considere uma prática artística que integra música, dança, expressão dramática, novos dialetos, contadores de histórias, eletrónica, rimas e crítica social, constituindo-se num hibridismo cultural complexo.

Por outro lado, é adotado por todas as faixas etárias e regiões do País. As letras, em gíria, também resultantes de uma fusão linguística entre o português, kimbundo e alguns termos em inglês apresentam temáticas simples e bem-humoradas, centradas sobre a vivência das classes mais pobres dos bairros periféricos ou com piadas sobre os concorrentes.

O kuduro reflete, assim, a forma como as pessoas enfrentam os seus problemas em que, em vez do lamento ou suicídio, procuram formas de mudar a sua situação e avançar para o futuro Nesta perspetiva o Kuduro é afro-otimista. Estes pressupostos desencadeiam uma série de interrogações que, na maior parte dos casos, estão ligados a questões socioculturais e cuja resposta depende da análise da realidade existente e dos respetivos atores sociais.

Porquê a marginalização interna e o entusiasmo externo? A preocupação de obter uma resposta para esta questão, a partir das investigações sobre o kuduro efetuada por especialistas das mais diferentes áreas, nomeadamente antropologia, informática, sociologia, história, linguística, literatura e Artes, dado o hibridismo das suas manifestações, foi o leitmotiv para a realização da primeira conferência sobre o kuduro em Angola.

Estruturação da Conferência

Tendo como tema: "KUDURO, PATRIMÓNIO ANGOLANO PARA A ÁFRICA E O MUNDO" e como slogan: "Conhecer para valorizar", uma Comissão dinamiza o projeto e organiza de 23 a 25 de Maio de 2012, no Nacional Cine Teatro, adstrito à Associação Recreativa e Cultural Chá de Caxinde, em Luanda, o primeiro evento visando um debate científico sobre o Kuduro.

O objetivo é incentivar o estudo e a prática performativa do Kuduro, debruçando-se sobre a sua génese, criatividade e inovação e possibilitar aos estudiosos e praticantes a troca de ideias, conhecimento e informação, em torno deste movimento artístico-cultural mediatizado no início da década de 90.

Participaram investigadores e especialistas angolanos e oriundos da Alemanha, Austrália, Reino Unido, Estados Unidos, Portugal, França, Ghana e Brasil. A abordagem foi centrada em ângulos históricos, musicológicos, da ciência da dança, da linguística, da literatura e da sociologia.

Organizado em painéis temáticos, as comunicações abordaram diversas questões, destacando-se as seguintes: História da música popular angolana; Origem e formação do kuduro; Percurso histórico do kuduro e contextualizações; Anatomia de kuduro; Processos sincréticos envolvidos em culturas musicais do kuduro; Kuduro e os Discursos em torno de uma produção musical jovem periférica; Conceito de Carga na dança de kuduro; Música, socialização e reprodução de identidades no kuduro; Estruturas do imaginário e o kuduro como texto cultural; Áreas de incidência semântica da linguagem da música kuduro; O kuduro como meio de educação profissional; A internacionalização do kuduro; Danças e músicas urbanas dos jovens afro-descendentes na periferia de Lisboa; Autenticidade e Pedagogia do Kuduro; Divulgação internacional do kuduro através de blogs; Pesquisa de kuduro no contexto de comunicação de massas; Cultura e indústria angolanas no Mundo; Festa de Quintal e Teatro Domiciliar.

Os painéis temáticos estavam subordinados a um tema mais geral para cada um dos dias, nomeadamente História do Kuduro; Sua Caracterização Intrínseca e Kuduro na sua Relação com a África e o Mundo.

A investigadora e professora da Universidade de Indiana, Marissa Moormon, efetuou um brilhante discurso de abertura da sessão de trabalhos, com reflexões e contribuições assinaláveis para a história da música angolana.

Outros sim, para além das apresentações dos conferencistas e debates relacionados, foram exibidos filmes, ouvidos depoimentos e organizada uma mesa redonda com a participação de todos os conferencistas.

O Príncipe Ouro Negro e o Presidente Gasolina animaram a cerimónia oficial de abertura em que Tony Amado foi homenageado e outros fazedores deste estilo animariam o encerramento.

O Ministério da Cultura e a Direção Provincial da Cultura de Luanda, assim como representantes das instituições produtoras do evento, membros do Corpo Diplomático, Artistas e individualidades diversas marcaram a sua presença no evento, pautado por elevada participação e interatividade.

A afluência em massa dos fazedores do Kuduro, durante os três dias previstos, assim como a homenagem à Kanguimbo Ananaz mostrou que não têm razão de ser os receios sobre o seu comportamento, já que numa plateia heterogénea, constituída por académicos e artistas, provaram que a coabitação e respeito pelas diferenças são possíveis, granjeando a admiração dos conferencistas.

As conclusões evidenciaram estes aspetos, assim como a necessidade de continuidade do projeto, para a realização de mais encontros similares, visando um melhor conhecimento do kuduro nas suas diferentes vertentes e o apoio aos artistas para melhor integração nos circuitos internacionais e maior visibilidade internacional.

O projeto foi concebido e organizado pelo Jornal Dos Negócios, Grupo Editora Sons e Letras; pelo Centro de Estudos de Teatro da Associação Cultural e Recreativa Chá de Caxinde e pela investigadora Stefanie Alisch, da Iwalewa-Haus, Museu de Arte Contemporânea e Popular Africana da Universidade de Bayreuth (Alemanha), que assume a responsabilidade da publicação das Atas da Conferência. Contou também com alguns apoios e patrocínios. A produção foi da responsabilidade da Associação Cultural e Recreativa Chá de Caxinde e da Empresa Da Banda Entertainment, S. A.

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