Contribuição para a periodização da música angolana contemporânea(*)

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Com um percurso profissional muito ligado à divulgação e celebração da música angolana de raiz, na RNA através do programa radiofónico Poeira no Quintal, Sebastião Lino, jornalista e actualmente administrador daquele grupo empresarial público de comunicação social, brinda os leitores do jornal Cultura com o texto abaixo reproduzido, em que propõe uma periodização da música popular urbana angolana.

Contribuição para a periodização da música angolana contemporânea(*)
Contribuição para a periodização da música angolana contemporânea(*)

Décadas de 1940 e 1950
A actividade artística nas grandes cidades é dominada por grupos que executavam música portuguesa e ritmos de outras paragens.
Período em que se assinala a fundação do conjunto Ngola Ritmos.
Nestas duas décadas, destaca-se também a intervenção na cena artística do Ex-Congo Belga (actual RDC) do grupo São Salvador, que se envolve e contribui para a afirmação da rumba congolesa. Este grupo era integrado por jovens Angolanos nascidos na actual província do Zaire (Angola) liderados por Manuel de Oliveira, figura que influenciou a carreira artística dos grandes nomes da rumba congolesa.
Período em que o Duo Ouro Negro inicia a sua actividade artística (1957 - 1º espectáculo no cine Restauração, actual Palácio dos Congressos, em Luanda).
Surgimento de formações artísticas como Kimbambas do Ritmo (integrado por jovens do bairro Sambizanga, maioritariamente), Kimbandas do Ritmo (baseado entre o Rangel e o Marçal).
Esta década é marcada pela proliferação das famosas TURMAS: pequenos grupos de jovens que faziam músicas com base em instrumentos de percussão (ngoma, latas, puitas, mukindu, etc).
Considera-se o movimento das turmas como o embrião para o surgimento das formações artísticas, ou melhor, os famosos conjuntos de música popular urbana, dos anos 60.

Década de 1960
Período marcado pelo início da luta armada de libertação nacional, na sequência dos acontecimentos do 4 de Fevereiro de 1961.
Encerramento por parte da PIDE-DGS de várias agremiações culturais conotadas com a actividade política clandestina que crescia cada vez mais.
Conjuntos músico-culturais e teatrais Ngongo, Bota Fogo, etc., são exemplos de associações culturais com forte pendor nacionalista que foram encerradas.
Surgimento na cena artística angolana dos conjuntos de música popular urbana.
Destaques: Negoleiros do Ritmo, Os Gingas, Dimba Ngola, Anazanga, Musangola, Luanda Show, Kiezos, Jovens do Prenda, África Show, Ases do Prenda, Quinteto Angolano, Ngoma Jazz e Águias Reais.
A actividade artística desses conjuntos era exercida nos mais famosos salões da época como o Braguez, Sêngulas, Sporting do Rangel, Kudissanga, Marítimo, Salão dos Fuzileiros, Luar das Rosas, Giro Giro, Matopá, entre outros.
Entretanto, existiam espaços maiores e que tinham a capacidade de acolher várias centenas de pessoas.
O mais emblemático destes recintos era o Ngola Cine, uma espécie de Olympia de Angola (analogia com a famosa sala Olympia de Paris). O Ngola Cine acolheu as edições semanais (5ª feira) do espectáculo “Dia do Trabalhador”, e em cada fim do mês a famosa Aguarela Angolana.
O Kazumbi era um outro programa de promoção musical realizado num espaço diferente: o cinema Miramar.
Mas o evento que galvanizava e mobilizava as populações dos musseques de Luanda era o famoso KUTONOKA - Espectáculo itinerante que se realizava semanalmente em cada bairro de Luanda.
Significa dizer que a vida cultural era intensa. A agenda dos artistas estava permanentemente preenchida.
Os eventos realizados no Ngola Cine serviram, por um lado, para consagrar aqueles que já tinham os créditos firmados na praça, e por outro lado revelaram talentos que a partir daí transformaram-se em autênticos fenómenos no meio artístico Angolano.
Sabe-se também que muitos artistas que se exibiam na expectativa de receberem nota positiva por parte do público exigente do Ngola Cine, acabaram por reprovar e tiveram dificuldades em afirmar-se na cena artística nacional. Significa dizer que o Ngola Cine, o nosso Olympia, era um grande teste, uma prova de fogo para centenas de artistas angolanos.
Os encontros musicais no Ngola Cine (Dia do Trabalhador e Aguarela Angolana) não contemplavam apenas artistas de Luanda. São perfeitamente conhecidas as brilhantes exibições de conjuntos provenientes de Cabinda, Benguela e de outros pontos do país.

1969 e década de 1970
O advento do disco em Angola altera completamente as dinâmicas do movimento artístico e cultural do País.
As centenas de artistas e conjuntos musicais que brilhavam nos salões e palcos de Angola aspiravam voar mais alto, mostrar a obra, registar, gravar.
E foi o que aconteceu.
O single “Brinca na areia” dos Dicanzas do Prenda foi o primeiro disco gravado em Angola. O registo sonoro foi feito nos estúdios da Valentim de Carvalho em Luanda pelo saudoso Artur Arriscado, um dos pilares da Rádio Nacional de Angola.
O advento do disco permitiu que milhões de pessoas que por várias razões não assistiam aos espectáculos da época, pudessem tomar contacto com a obra dos artistas por intermédio dos discos.
Com a produção discográfica começaram a despontar dezenas de cantores que até então limitavam-se aos espectáculos nos musseques ou em alguns salões do asfalto. São os casos de: Carlos Lamartine, David Zé, Urbano de Castro, Artur Nunes, Pedrito, Paulo Nove, Paulo Jorge, Sofia Rosa, Nito Nunes, Paulo Neto, Mamukueno, Santocas, Santos Júnior, Artur Adriano, Teta Lando, Massano Júnior, Tchinina, Paulino Pinheiro, Óscar Neves, Rui Planeta, Rui Morais e Luciana.

Elias dya Kimuezo
Devemos particularizar o caso deste cantor pelo facto de ter gravado o seu primeiro disco antes de 1969 em Portugal. Na altura o rei Elias foi acompanhado por Bonga na percussão, Rui Mingas e Teta Lando nas guitarras. Recordo que Elias Dya Kimuezo foi a Portugal em companhia do grupo de Rebita do Mestre Geraldo e dos Marimbeiros de Duque de Bragança (Malanje), isso através do Centro de Informação e Turismo de Angola (CITA) para participar no Festival Folclórico das Províncias do Ultramar.
Em relação ao início da produção discográfica, não há dúvidas de que o fenómeno contribuiu para dar maior visibilidade aos cantores e agrupamentos e ampliar o espaço de divulgação e consumo das respectivas obras.
A década de 70 é marcada pela atribuição dos primeiros discos de ouro da música angolana. Os contemplados foram Domingos Prado Paim e Alberto Teta Lando. A iniciativa ocorrida em 1974 foi da CDA-Companhia de Discos de Angola, a proprietária do selo Merengue.

Música de intervenção
Apesar da música de intervenção ou de protesto estar presente em todas as fases da história de luta dos angolanos contra o domínio colonial Português, na década de 1970 os textos das músicas de protesto tinham mensagens cada vez mais incisivas e desafiavam as autoridades e todo o sistema montado para intimidar, perseguir e prender aqueles que tinham a coragem de colocar em causa o sistema vigente.

25 de Abril de 1974
A revolução dos cravos em Portugal era um claro sinal de que o processo de descolonização ganharia outra velocidade. No domínio musical, os efeitos da revolução dos Capitães de Abril tiveram reflexos imediatos no processo criativo dos compositores angolanos.
Os discos gravados pela CDA-Companhia de Discos de Angola, com o suporte instrumental do conjunto “Merengue”, são prova disso.
Eis alguns exemplos: Carlos Lamartine, David Zé, Zé Viola, Buarque, Carlos Burity, Teta Lando, Cardoso Soares, Joy Artur, Dilangue, Santocas, José Agostinho e Gimba.
Os músicos agrupados no projecto Kisanguela (conjunto adstricto à JMPLA) também criado em 1974, ocupam um espaço de intervenção cada vez amplo, criando sonoridades e produzindo mensagens que alimentavam a esperança pelo dia da liberdade.
Os Merengues e o Kissanguela reuniam a elite da música Angolana dos anos 60 e 70. Os melhores executantes, os melhores intérpretes estão vinculados a estas duas formações artísticas. Daí a qualidade e o brilho que as suas obras tiveram na época.
O clima de tensão que Angola viveu meses antes da proclamação da independência provocou uma redução significativa da actividade cultural no País e vários grupos suspenderam ou interromperam os seus trabalhos devido a instabilidade da época.
A actividade cultural não parou por completo. Mas o foco era a independência. Os criadores e artistas que produziram obras neste periodo agitado e conturbado só cantavam independência, liberdade, Angola livre, etc.

1975, enfim a Dipanda
Com a proclamação da independência, nascia um país novo. Um país cujo território foi vezes sem conta violado por tropas e mercenários estrangeiros.
E mais uma vez a música e os artistas angolanos cumpriram com o seu papel: mobilizar o povo a cerrar fileiras para defender a independência duramente conquistada, levar a música às trincheiras para encorajar os valorosos combatentes que com armas defendiam a nossa soberania.
Os artistas também foram ao campo e fizeram da música um elemento de mobilização para as campanhas de colheita do algodão, café, cana-de-açúcar, etc. A música nesta época estava ao serviço da revolução e das grandes preocupações de um país que acabava de conquistar a sua independência.

1979: a morte traumática de Neto
A morte do saudoso Presidente António Agostinho Neto deixou o país em estado de choque. Foi uma perda que abalou os angolanos de Cabinda ao Cunene e do mar ao Leste.
Mas este periodo de recolhimento e luto inspirou dezenas de artistas que criaram e gravaram inúmeras canções dedicadas a Neto.
Elias Dya Kimuezo, Minguito, José Agostinho, Voto Gonçalves, Matadidi, Tabonta, Armando Carvalho, Tino Dya Kimuezo, são apenas alguns dos vários exemplos.

1980: a década da saudade
A década de 80 é marcada pelo renascimento do movimento artístico e musical em Angola.
Algumas das principais formações criadas nos anos 60 resurgiram, renovadas e dispostas a recuperar o tempo perdido.
Kiezos, Jovens do Prenda, os Merengues, os Gingas, Dimba Ngola são exemplos de grupos surgidos nos anos 60 e 70 e que renasceram na década de 80.
Esta época é também marcada pelo surgimento de novas formações artísticas que souberam desempenhar o seu papel na cena musical angolana: Sensacional Maringas, o Facho, Instrumental 1º de Maio, Semba Tropical, Sembáfrica, Agrupamento Sagrada Esperança da Lunda Norte, os Moyowenos da Lunda Sul, Horizonte da Lunda Sul, Os Pacíficos da Huíla, Os Keves do Kuanza Sul, SOS, e tantos outros espalhados pelo País.
Entre as diversas iniciativas ligadas a promoção da música angolana nesta década, o destaque vai, seguramente, para o surgimento do Top dos Mais Queridos.
O TOP DOS MAIS QUERIDOS é a emanação da espontaneidade de um grupo de jovens trabalhadores da Rádio Nacional de Angola ávidos em contribuir de forma perene para a promoção e valorização da música popular angolana.
Corria o ano de 1982, quando os integrantes do programa PARA JOVENS decidem promover um concurso para aferir quem eram os mais queridos artistas e agrupamentos musicais no panorama artístico angolano.
Apurados os vencedores em ambas as categorias (Pedrito e Os Jovens do Prenda), a Direcção da Rádio Nacional de Angola, encabeçada por Guilherme Mogas (Director-geral) e Maria Luísa Fançony (Directora de Programas), encontrou nesse concurso uma boa razão para celebrar com pompa o dia da empresa, o 05 de Outubro, através da realização nessa ocasião do acto de consagração, outorga dos galardões e dos Prémios correspondentes aos vencedores. Nascia assim o maior concurso de Música Angolana.
A década de 80 foi fértil porque os eventos culturais multiplicaram-se. A RNA criou marcas que continuam nas nossas memórias até hoje. Para além do Top, destacam-se os espectáculo do 1º de Junho e o projecto Piô Piô que foram sem dúvidas importantes plataformas para a descoberta de meninos e meninas que com o acompanhamento necessário, transformaram-se hoje nas grandes estrelas da nossa música.O Top dos mais Queridos foi realizado até 1991.
Depois ocorreu uma pausa que durou 10 anos. Em 2001 o projecto foi reformulado e revitalizado para um novo contexto da vida do País.
O top conheceu inovações, mas a missão continua a ser a valorização e divulgação da música Angolana.

(*) Texto provisório
Sebastião Lino

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