Dança contemporânea africana

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Actores e dançarinos se juntaram para dar corpo à coreografia com duas partes. Um palco sem grandes adereços, movimentações rápidas e muita espontaneidade. Para ser só teatro faltava a fala. Os actores e dançarinos de diversas companhias interagiam naquilo que era na verdade uma espécie de monólogo através de movimentos. Falar e gritar com o corpo, ou discutir o corpo até à exaustão dos limites. Por isso mesmo é que a dança é talvez a mímica mais eloquente.

Sayouba Sigue Fotografia: FOto: Rita Soares

A coreografa integrou variados estilos de dança, até abriu espaço para o kuduro, que, afinal, bem lapidado e harmonizado, com disciplina e postura criadora em palco, pode ser fonte de evasão de válidas linguagens estéticas urbanas. Ora, o kuduro?
Mas não foi só. A coreografia também reaproveitou movimentos da cena electrónica urbana, como o break e o pop. Todo o espectáculo foi uma reapropriação de estilos.
Mas, afinal, o que é a dança contemporânea? Que leitura vertical podemos ter desta?
Em vez de dança contemporânea, deve falar-se de dança no seu todo, como parte totalizadora. Levanta a crítica do vazio conceptual deste título, muitas vezes polémico quando aplicado às realidades africanas, onde ainda há poucos dançarinos de dança contemporânea. Sayouba é dos que vê a dança africana como exercício livre que precisa da autonomia dos Estados que a tutelam. Conta que nos últimos dez anos uma vaga de artistas africanos marcou presença em vários festivais do cenário mundial. “Talvez não possamos competir a nível económico com as chamadas grandes potências, mas, em termos culturais, nós temos muita coisa por afirmar”.
Coreógrafo e dançarino burquinabe, Sayouba Sigue é formado em dança tradicional, contemporânea e hip-hop, em Ouagadougou no Burquina Faso.
Trabalha com coreógrafos de África: Serge-Aimé Coulibaly, Irene Tassembedo, Souleymane Porgo, Andreya Ouamba..., da Europa: Nathalie Veuillet, Elena Rolla, Vera Sander, Virginie Dejeux, Kalpana Raghuraman..., e participou em várias criações de reconhecido mérito.
Em 2007, Sayouba foi o co-criador da companhia Teguerer Danse do Burquina Faso e depois tornou-se assistente de Serge-Aimé Coulibaly do Faso Danse Théâtre. Realizou a coreografia de vários espectáculos como A Suivre, selecionada no âmbito dos encontros coreográficos Danse l’Afrique Danse de 2010. Iniciou e colaborou estreitamente em intercâmbios artísticos. Aliás, Sayouba está envolvido nos projectos de outras companhias e instituições culturais. Paralelamente à criação coreográfica, Sayouba Sigue monitora também workshops, cursos e estágios. Foi por estas suas facetas na dança que Sayouba veio a Angola mostrar a transição entre a dança patrimonial e a criação coreográfica contemporânea, para um workshop de dança contemporânea africana realizado de 21 a 25 de Abril e que culminou com um espectáculo no dia 26.
Na verdade, a temática foi escolhida pelos participantes. Sayouba perguntou-lhes o que era mais importante. O primeiro grupo queria falar da falta de espaços para as artes. O segundo queria falar de todas as violências. E foi assim que decidiram dançar as makas.

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