Dança contemporânea solos para um dó maior

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Companhia de dança contemporânia recompõe ' solos para um dó maior'

Dança contemporânea solos para um dó maior
Armando Mavo

I. ADILSON VALENTE
O dorso humano tem um pendor de vulnerabilidade incondicional mas também de recusa formal à imponência do olhar. Na plasticidade do silêncio, o único som é o de uma pisada. Sobre o fundo vídeo-imagético: rostos/ olhos/ crânios/ falanges/ Vida/ Morte, imensidão transmórfica que uma tanga verde com tricotado beije dos lados tange tangente à nudez protoplásmica.
Depois começa a música e o movimento redobra veloz. Como um corpo pode reincarnar a Música!

II. ARMANDO MAVO.
Erotismo e evasão sensorial. (I)materialização do voo humano em pleno solo.


III. ANDRÉ BAPTISTA.
O terceiro dançarino apresenta-se franco e directo, sob a projecção de uns lábios.... um certo xinguilamento cadenciado e racional, um Espírito de olhar doce e olhar salgado como a banana-maçã.
O corpo é uma ferramenta (floresta) fina que se (des) (d) enha a si própria. O suor empresta um rio de luar à matéria rítmica.
NINGUÉM SABERÁ NUNCA PARA QUE SERVE A VIDA, SENÃO PARA SER VIVIDA (REPARTIDA) ENTRE OS VIVOS E OS MORTOS. Por isso, os choramos sem saber porquê.

IV. ANTÓNIO SANDE. Aquele homem de música suave no olhar aperta o tempo nos seus punhos e tenta amarrar a cauda do destino. Colhe uma réstea de água e um desanoitecer do cérebro. O espírito das notas musicais reesculpe-lhe a pele, os músculos, o sangue. Há sempre uma interrogação nos movimentos e nas frases acrobáticas do corpo.
A vida são quatro metades de uma lua murmuradas ao relento, que é quando se descansa de ser-se.

V. SAMUEL CURTI. Aquela vida é uma chuva torrencial que se desfaz em húmus penetrante e vivificante. Por isso, respira rente ao chão, as penas do pássaro e as folhas da árvore ainda verdes de seiva que se desprendem do único dançarino (actor) do Mundo que dança dormido. O seu sono desenha-lhe eventos  e paisagens que qualquer pintor temeria densificar. Musicar. Só o piano consegue/ ousa osquestrar essa contorção da alma.

VI. BENJAMIM CURTI. A lâmina da eterna juventude espeta-se-nos entre os dedos. E sofremos de saudades de não termos sido um dia o que (já) (nunca) fomos. Existir, por vezes, traz à tona os desconfortos da caça às bruxas. Que nem a música contemporiza. Mas depois a luz absorve o riso (de alegria ou sarcasmo) e a conquista ilusória da solidão. É que nem esta nos pertence. Nem o espanto. Nem a tenaz (torção) to torso da fome e dos seus frutos imaginados.

VII. DANIEL CURTI. O homem beija a terra sob o troar das campânulas de bronze. Desde a infância que esse homem se ensina o íntimo equilíbrio das pontes sobre o tumulto imperceptível da involução da anti-matéria.
Silêncio. O corpo se musica a si mesmo.
“O seu corpo alto e magro evocava essas gigantescas serpentes.”
FIM.


CDC CORRE O RISCO
DE FECHAR AS PORTAS

A CDC Angola, membro do Conselho Internacional da Dança da UNESCO (CID), foi constituída em 1991, sob a designação inicial de Conjunto Experimental de Dança, tendo feito a sua estreia no Teatro Avenida, em Luanda, no dia 27 de Dezembro desse ano, com a obra A Propósito de Lweji, baseada no mito da fundação do Império Lunda e em elementos da cultura Cokwe.
Provocando uma ruptura estética na cena da dança angolana, e apesar das dificuldades decorrentes de uma permanente sobrevivência em terreno conservador e quase exclusivamente marcado pelas danças patrimoniais e recreativas urbanas, a CDC Angola não desiste de apontar novos olhares sobre a dança, tornando-se em 2009 uma companhia de Dança Inclusiva, pela formação e integração de um bailarino portador de deficiência.
Divulgar, surpreender, ensinar, provocar, levar as artes à comunidade e contribuir para a educação estética do público, trazendo-o à apreciação das artes são os grandes objectivos da única companhia de dança profissional angolana, para o que complementa a sua acção artística com a realização de workshops, seminários, palestras, encontros, aulas abertas e outros programas de educação e divulgação da dança.
Para além das apresentações no país, a CDC Angola partilhou já os seus espectáculos com 13 países e 27 cidades, em África, Europa, Ásia e América.
Pois é esta troupe de entusiastas e aficionados da dança contemporânea que, hoje, corre os riscos de fechar as portas por falta de apoio financeiro. “Não estamos e necessitar tanto de patricínios, pois estes são sempre circunstanciais. A CDC precisa urgente de um Mecenas ou Sponso, capaz de dar um apoio permanente”, esclarece Ana G. Marques. Se a parca ajuda que ainda recebem lhes faltar, será um Deus nos acuda! Ela apela às instâncias reitoras do pelouro da Cultura e a toda a sociedade angolana, em especial os Mecenas, que lancem um olhar, não de compaixão, mas de consideração pela Arte de Dançar nos moldes em que a CDC a promove e ajude a manter esta equipa cultural sempre na ribalta.
Só para o leitor ter uma ideia de como as grandes companhias de dança por esse mundo fora sobrevivem, se percorrer algumas páginas electrónicas de companhias importantes, cmo a Royal Ballet, Alvin Ailey Dance Company, Paul Taylor’s American Modern Dance, Companhia de Dança Debora Colkher (brasileira INTEIRAMENTE patrocinada pela Petrobras), Dance Theatre of Harlem, Companhia Nacional de Bailado (Portugal / subsidiada pela EDP, pela Secretaria de Estado da Cultura e pela OPART) e a Netherland Danse Theatre, verá que todas elas sobrevivem de donativos e do mecenato.
A Royal Bellet, por exemlo, faz o seguinte apelo:
Por que apoiar-nos?
Cada sapato, cada brilhante, a componente orquestral e o gel de iluminação têm um custo. E sem supervisores de calçado experimentados, gerentes de sala, armeiros, bibliotecários de música, encenadores e técnicos, nenhuma produção conseguiria subir ao palco. Por isso os 20 milhões de libras esterlinas para os quais você contribui a cada ano, por meio de doações pequenas e grandes, são tão importantes.

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