David Caracol brilho maior do Njinga Mbande

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Os factos indicam que não estamos mais diante de um actor local. Nos frutos de 30 anos do Horizonte Njinga Mbande, David Caracol é sem sombra de dúvida o brilho maior, pela carreira repleta de presenças em festivais internacionais, e pelos papéis que desempenha na dramaturgia nacional.

David Caracol brilho maior do Njinga Mbande
David Caracol foi um dos homenageados da XI edição do FESTECA

É importante posicionar David Caracol na cena teatral lusófona. Os factos indicam que não estamos mais diante de um actor local. David, nos frutos de 30 anos de Horizonte Njinga Mbande, é sem sombra de dúvida o brilho maior. Mais do que o orgulho de um grupo, encheu-nos de orgulho enquanto intervenientes da Cultura, enquanto nação com voz artística. A viver toda uma carreira repleta de presenças em festivais internacionais, sendo um rosto familiar pelos papéis que desempenha na dramaturgia nacional, nestes 30 anos da companhia que representa com esmero está incluída toda a sua vida artística.

Aprendizado
"É de facto uma vida. Mas nada era a sério. Não tínhamos noção do caminho e sem qualquer projecto conciso, do tempo que podíamos resistir e objectivos a alcançar. Jamais nos viria à cabeça que fosse se tornar num projecto tão sério, que fosse ser a nossa vida". São essas as palavras que escolhe para analisar os 30 anos de Horizonte Njinga Mbande. Entende que não sentiu o tempo a passar, porque, a seu ver, quando as pessoas se aplicam muito em alguma coisa, não dão conta do tempo a passar, e isso lhe fez parece ter começado ontem. Argumenta a respeito que todos os dias tentam uma maneira nova de trabalhar, e isso fortalece a ideia do recomeço, de reiniciar tudo todos os dias, nestes já alcançados trinta anos. "Estamos sempre a recomeçar, revendo a nossa maneira de estar nesta arte que hoje é um ofício mas que antes era apenas um passatempo, uma forma bonita de ocuparmos os momentos livres que sobravam de outras tarefas prioritárias, como a escola e o trabalho", explica.
Quando começou a fazer teatro tinha 13/14 anos. Aprendeu muito com as pessoas mais velhas que encontrou no grupo, que lhe ensinaram a amar o teatro, principalmente. Se há uma artimanha para se manter vivo o amor pelas artes, disse-nos que por mais que se afirme profissionalmente, ainda tem como base uma relação mais sentimental do que financeira. "Sinto isso quando viajo e vou fazer projectos fora, normalmente a longo prazo. A dor da distância é muito grande. Gosto de estar aqui. Longe das coisas e da terra que amo, dói mesmo. Havia momentos em que chorava quando falava ao telefone com alguns colegas. A vida tem dessas coisas, e continuamos. É a vida".

Primeiras peças de David
Quando começam, conta, os espectáculos eram feitos mesmo no auditório Njinga Mbande. Era ainda muito amador, não tinham cadeiras e as pessoas sentavam nos degraus. Os actores é que convidavam as pessoas a assistirem, e ainda dávamos um pequeno lanche. As peças "Fabiana", "Casado Sem Casa", "Acontecimentos", "Nzandi - O Grande Desafio" marcam o início da carreira de David. Foi com a peça Nzadi que ganha destaque pela primeira vez, assumindo, mesmo sendo prematuro, o papel fundamental do personagem que faz de rei. Tudo isso lhe acontece porque a pessoa que encenava a personagem de rei não estava a corresponder, e o grupo estava de malas feitas a Portugal para participar no FITEI-Festival Internacional de Teatro de Expressão Ibérica, ocorrido em 1992. Carrega assim a responsabilidade de actuar como rei, sob protecção e apoio de um actor que via em si capacidade e talento para tal. Trata-se de Elias Casanova. Desde essa peça que David nunca mais assumiu papéis de pouco destaque. Os nomes sonantes do grupo eram Elias Casanova, Dió, Luís Correia, Mona, Luís Kifas, Dalton, e outros nomes não menos significativos mas que ao momento da entrevista não lhe vieram à tona das lembranças. Contudo, posiciona que a escola Njinga Mbande era um local “quase em escombros”, e ensaiavam nas salas que ficavam do lado de fora, sem vedação. Conta que as pessoas usavam de caminho e algumas vezes defecavam naquelas salas. O grupo limpava-as diariamente, para que pudessem ter um ensaio mais sossegado.

Um teatro que anula
o protagonista
Fica-lhe difícil caracterizar um espectáculo em que pudesse assumir-se protagonista. Porque sempre foi característica do grupo Horizonte Njinga Mbande eliminar este esquema, para atingir espectáculos envolventes, mesmo quando se trata de adaptação. O que se pode dizer é que sempre fez papéis de grande referência. A actuação em Nzadi marca um início maduro na sua actuação. Agora, sempre que é chamado a colaborar muitas das vezes prefere assumir papéis menos envolventes, que lhe ocupem menos, para que possa pensar melhor em toda a natureza da trama e poder construir um bom espectáculo. Também, acrescenta, por causa da responsabilidade, visto que gosta de apreciar a visão da montagem dos espectáculos. Vista como um grande trunfo dentro do grupo, a seriedade sempre foi uma marca da sua personalidade, e quase sempre as pessoas denotavam-no como um artista que carrega grande responsabilidade, e talvez isso também tenha ajudado ou levado as pessoas a confiarem-lhe papéis de destaque.

Só David e Adelino
Dedicado e obstinado, não demorou muito a “incomodar” os seus responsáveis, que várias vezes o induziram a tomar outros caminhos, sob pretexto de que a arte cénica “não era uma profissão séria”. David levava o teatro muito a sério, e isso fê-lo dizer sempre não a todas as vezes que recebia propostas que contrariassem o destino de ser actor. Vista hoje como um grande teste, a ida a Portugal em 92 quase acaba com o grupo, porque muitos decidiram não mais voltar para Angola, pelo menos por um bom tempo. O grupo vivia uma fase dúbia da sua existência. Para piorar a situação, Sebem, que até então era actor, na vinda a Angola decide romper definitivamente com o teatro e assumir-se a todo tempo como músico. Neste período o Horizonte Njinga Mbande viu-se reduzido apenas a duas pessoas: David como actor e Adelino Caracol como director. Como não tinham como dar conta de tudo, chamam os primos para que pudessem experimentar alguma coisa que lhes caísse no gosto. O grupo sobrevivia das apresentações de monólogo, levadas a cabo por David. Não era possível continuar assim, e sabiam-no muito bem.
Gratidão a Elias Casanova

Já não tem noção do número de espectáculos em que participou. Por começar muito cedo, e se for a considerar espectáculos iniciais, aqueles ainda não profissionais, só piora ainda a questão. É rotina do grupo, seguro das exigências do público, fazer seis espectáculos por semana. Se muito ou não, diz: "Achamos que deveríamos fazer isso, porque o teatro precisava de expansão, de granjear o seu lugar, esse sacrifício era necessário. As pessoas não compreendiam, mesmo dentro do nosso seio familiar. Só depois de uns anos, notaram em nós um desenvolvimento singular do ponto de vista intelectual, fruto de todo um processo de criação artístico. Os familiares puderam perceber que, graças às artes, nós tínhamos desenvolvido muito a nossa maneira de ser e estar. Mergulhar seriamente nas artes conduz a esse nível, tornando-nos mais inteligentes e com uma capacidade de análise do universo que outra actividade possivelmente não nos daria".
Já há muito que uma pessoa do grupo lhe explicava de forma esmiuçada os benefícios da arte: Elias Casanova. Acredita que se este estivesse vivo, seria um dos melhores actores angolanos, e talvez mesmo o de maior destaque. David retoma que era opinião da época, duas décadas atrás, que Elias Casanova era um “excelentíssimo actor”, que ia muito avançado para o seu tempo. Elias passava muito tempo a dar indicações cénicas a David. Sempre grato a esse actor da primeira fase do Horizonte Njinga Mbande, diz: "Infelizmente chega a falecer em princípios dos anos noventa, na África do Sul. Que Deus o tenha!".

O dia da queda em palco
David aponta como maior ganho a acção de fazer nascer nas pessoas o gosto pelo teatro, para que respeitem os actores e se revejam nas peças, numa relação artista/público que considera de "afinidade". Mas este caminho não foi só feito à base de rosas e estórias de final feliz. Já foi duramente criticado, estigmatizado de forma absurda. Sem ser masoquista, mas mais para não perder o sabor agridoce da crítica, tem até hoje preferido críticas sinceras a elogios e exageros. Fundamenta: "Porque aprendo a dialogar sobre os meus erros, embora corrigir-se seja um bocado difícil".
A profissão de actor teve os seus momentos inusitados. Paralelamente ao teatro feito no Horizonte Njinga Mbande, David, Tonico “Sebem”, Adérito Rodrigues “BI”, Sisco (que antes de assumir a Turma dos Segredos era actor do Horizonte Njinga Mbande) faziam espectáculos de variedades. Só para lembrar um dos casos, num desses espectáculos alguém subiu ao palco e sem razão aparente armou uma queda a David. Sorte a sua por ter naquele dia na plateia muita gente que o conhecia, que impediu que aquela indiscritível incivilidade continuasse. Também já chamaram-lhe nomes feios enquanto actuava. Mas sempre relevou, ciente de que o teatro tinha de estar em primeiro lugar.

De Las Palmas
ao risco de um Óscar

O mês de Março transacto deixou-nos um sinal claro da nossa riqueza artística: David Caracol ganha, mesmo como personagem secundária, o prémio de melhor actor do Festival de Cinema de Las Palmas (Espanha). O júri considerou “uma interpretação complexa de um papel secundário”. Trata-se da sua participação em Posto Avançado do Progresso, filme realizado pelo português Hugo Vieira da Silva, mas rodado em Angola. Este filme, que tem como temática a chegada de dois colonos portugueses à África, motivados em fazerem fortuna no negro negócio do marfim, é baseado num conto do escritor Joseph Conrad. Um mês antes, Fevereiro, já os nomes de David Caracol, Orlando Sérgio e Raúl Rosário corriam nas notícias da Europa, pela participação no filme Cartas da Guerra, que se estreava mundialmente na competição principal da 66ª edição da BERLINALE, festival de cinema da cidade de Berlim (Alemanha), que nesta edição tinha à cabeça do júri a conceituada atriz norte-americana Meryl Streep. Cartas da Guerra foi realizado pelo português Ivo Ferreira e é baseado na obra de Lobo Antunes. Este escritor português narra, em cartas, um amor interrompido pela guerra colonial.
A imprensa angolana e portuguesa não silenciaram o feito, sendo uma nota de referência o crédito que Orlando Sérgio depositava a David pela actuação considerada “brilhante”. Sem qualquer inveja ou exagero, dizia Orlando Sérgio que “o país deveria orgulhar-se de artistas tão bem competentes como David Caracol”.
Afinal o destino lhe reservava mais. Em Setembro passado a Academia Portuguesa de Cinema escolhe Cartas da Guerra para ser o candidato português ao Óscar, na categoria de melhor filme estrangeiro, e ao Goya, a concorrer como melhor filme Ibero-Americano.
Está então a semente lançada, quanto a correr o risco de um Óscar. De largo sorriso nos lábios, David acautela que o país vai chegar lá, na altura certa. De Orlando Sérgio, reconhece-o como um activo defensor do teatro. Quando Orlando regressa a Angola, conta David, passou-lhe muita experiência. “Veio com muita vontade de ensinar, mas esbarrou-se com uma vontade de falta de aprender da parte de muita gente que faz e queria fazer teatro. Foi das pessoas com quem aprendi o respeito de muitas coisas. Passei quase dois anos a trabalhar com Orlando Sérgio, passando pelo Elinga Teatro.
Trabalhamos num projecto de contar estórias. É um grande actor e tenho um grande respeito por ele. A humildade foi das ferramentas chaves, e isso fez-me perceber que as pessoas até têm capacidade, mas o ego as trai e as leva a cometer erros que só a falta de humildade proporciona. A vaidade estragou muitas coisas”.
De Poucas vaidades, conclui que o prémio de Las Palmas nunca considerou ser só dele. “É de todos que trabalharam comigo no filme. Porque se a forma de estar no meio de trabalho faltasse, talvez não tivéssemos atingido o produto que queríamos criar. Vivemos três meses a fazer uma formação, antes de nos lançarmos para as gravações”, pontua.
Sobre um Óscar, não sabe. Deixa que o destino arme. Para si, o importante é trabalhar e sentir a grande satisfação pelo facto de chegar tão longe e despertar as pessoas que afinal existem actores angolanos que fazem trabalhos de qualidade e empenham-se nas suas tarefas. Mas, sonha: “Isso me leva a acreditar que é possível fazermos coisas grandes, mesmo aqui entre nós, até porque trinta anos atrás não sabíamos o que fazer e hoje já temos nomeações a nível internacional. Angola existe, e isso é um facto. Não sei profetizar o que pode acontecer amanhã”.
Logo depois de participar nestes dois filmes recebeu um insistente convite de um director francês, mas descartou. Até agora ainda o convidam a participar em filmes estrangeiros. Declina os convites porque sente, por um lado, que pode dar um exemplo não menos bom do sentido de carreira, ao ir para fora. Mas a razão principal da sua recusa é uma: a construção do teatro angolano. O que o nutre e acalenta é a garra de aguentar aqui mesmo, enquanto acompanha esta nova geração de actores que acredita que terão tudo para ser mais bem sucedida do que a dele. “Sinto este chamamento como algo inegável. Quero que daqui há mais trinta anos atinjamos níveis superiores e lutar para um Óscar directamente, de igual para igual. Precisamos fazer nascer o cinema e lutar para que o nome de Angola seja uma marca forte. É uma vitória de todos nós”, defende.

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