"Deixa-me Entrar" ou a agridoce sofisticação de Nástio Mosquito

Envie este artigo por email

"Meu nome é eu, e prometo que nunca vos vou mentir... muito"

Nástio Mosquito

O actor Principal

"Creio que me podes chamar DZZZZ, Gavião, Fly, The Night Fly, Saco, Nasty-O, Cucumber Slice, Zura, Zurara, e Dzzzzura que eu reconhecerei o teu chamado! Mas, se queres mesmo saber, a minha mãe chama-me, sempre seguido de um eu já te avisei, António Nástio da Silva Mosquito!"

Quem assim se apresenta ao público do século XXI, um tempo onde, depois de Picasso, e depois do Surrealismo, praticamente quase todas as extravagâncias são permitidas na Arte, não é um cultor nato da sofisticação? Claro que é, acima de tudo, o Nástio Mosquito, um artista irreverente. Sobretudo inovador.

Nascido há 31 anos na Caála, Nástio confessa que decidiu ser "um criativo vagabundo com preocupações económico-financeiras!"

O primeiro poema que musicou chamava-se "Abortion". "Cantei-o a dois ou três amigos. Eles disseram que estava fixe, eu acreditei e nunca mais parei. Entretanto em nome próprio, em Luanda, comecei uma aventura pelas artes plásticas e performances. Beijinho no Rabo primeiro, e projetos onde a fotografia se misturava com a performance (depois consegui) um emprego na Televisão Pública de Angola como realizador de um magazine semanal e em seguida como repórter. (...)A presença de trabalho meu na mais antiga feira de arte do globo, a Biennale di Venezia de 2007, confirmaram que a aventura tinha valido a pena."

"Meu nome é eu, e prometo que nunca vos vou mentir... muito."

O Público  

Que o digam os convivas que, na noite da passada quinta-feira, dia 12 de Julho, tiveram o privilégio de receber nas suas almas cacimbadas, o espetáculo "Deixa-me Entrar", que teve como ato e ator principal o próprio Nástio Mosquito, e como coadjuvantes um massagista chinês, que energizava o corpo de quem, deitado sobre uma mesa, observava, por entre a janela onde o rosto se encaixava, o DVD "Deixa-me Entrar", e o guitarrista de serviço.

O Homem nunca deixou o instinto das cavernas: o de coletor de frutos e o de caçador de imagens. E, perante as amabilíssimas assistentes, iam os convivas segurando entre os dedos da mão, um copo generoso de quissângua, kapuka ou vinho, ou micondo, bombo frito, jinguba torrada, pé de moleque (eu comi dois e levei três para casa) e outros kitutes da terra. Huanos de todos os géneros, do mais simples ao mais sofisticado e extravagante, desde rastas a cabeças raspadas, chapéus, bonés e altos barretes à moda russa, nesse meio, a pessoa normal o que é, ou quem é? É eu, ali sentado no chão de espuma? Eu, a escrever esta resenha num envelope vazio (de um buludo que kaulei na zunga, à saída do Benfica por mil kwanzas)?

Ou é aquelas duas crianças ali a próximas da voz gutural do Nástio Mosquito, a cantar temas nascidos do estímulo contra os beijos atómicos da vida?

Ou é eu a poemar?:
 
Neste mundo somos formas de uma fome de quem fomos um dia qualquer no fundo do mar.
(inspirado no 0inal do DVD “Deixa-me Entrar”, quando o Nástio entra nas ondas e se funde como sal eterno).

A EXPO

Que o digam(pois as imagens também falam), as montagens surrealistas de fotos e desenhos, sobretudo as que ilustravam o 1º Congresso Extraordinário ORG. A.SM.E., realizado  em Paris, no ano de 2011.Do qual se pode inferir uma (das inúmeras) leitura. Assim: ORG.A.S.M.E. =Organização da África Submetida ao Mercado Europeu? Sim, ou não? Que o diga um Durão Barroso ali exposto com cabelo afro.

A Música

“Deixa-me entrar” nesse ritmo submerso de infinitas tonalidades acústicas, com fundo agridoce de tambarino. “Deixa-me entrar” onde não fui chamado, Intruso que és, ó Nástio Mosquito, na dimensão das nossas almas, com a tua voz calibrada de água e pedra, de âmbar e dongo. Lá ao fundo, os instrumentos tocam talvez numa galáxia qualquer, sente-se uma espiral de luz e penumbras multidimensionais, ninguém quer ser infinito e todos querem permanecer até ao infinito.

Comentários

Newsletter


Colabore com o Jornal Cultura - Envie-nos os artigos da sua autoria.

Colaboradores Ver todos