Despique de Semba marca Entrudo luandense

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Uma reunião alargada será realizada brevemente, tendo como pano de fundo assuntos inerentes ao Entrudo de Luanda. Que montante atribuir aos vencedores? A proeminência do Semba em detrimento de outros estilos musicais e as alegadas batotas serão as questões abordadas por um painel multidisciplinar, segundo o director do gabinete da Cultura do Governo da Província, Manuel Sebastião.

Despique de Semba marca Entrudo luandense
A alegria da dança Fotografia: Paulino Damião

Os grupos carnavalescos União Jiza, União Geração do Mar, União 17 de Setembro, União Café de Angola e União Amazonas do Prenda, vão brincar a 38.ª edição do carnaval em 2016, mercê do seu esmero em conquistar os lugares cimeiros na classe B que dão acesso ao escalão principal do Entrudo luandense.
A este propósito, os “amazonas” partem para a maior manifestação cultural de Angola com alguma vantagem, se tivermos em linha de conta que, em 1992, esta agremiação do distrito urbano da Maianga, cultora de Semba, conquistou o primeiro lugar desta festa, o que, à partida, denota alguma experiência.
A façanha lograda há 23 anos não pode servir para relaxar, porquanto o União 54, consagrado grupo carnavalesco fundado há mais de seis décadas, curiosamente também da Maianga, foi relegado ao segundo escalão da classe de adultos do Carnaval feito intramuros. Destino semelhante tiveram os grupos União Domant, o Twafundumuka, o EtuMudyetu, o União DimbaDyaNgola e o histórico Kabocomeu, vencedor da primeira edição do carnaval de Luanda, em 1978. A equipa do Cultura destacada na Nova Marginal vivenciou os momentos que consagraram no dia 18, na LAASP (ex-Liga Africana), o Grupo Carnavalesco União Sagrada Esperança (GCUSE), pela segunda vez consecutiva, facto que provocou descontentamento à volta da conquista do jovem grupo.

A voz do vencedor

"Estamos no Carnaval desde 2005, e ao fim de sete anos, temos ficado entre os três primeiros classificados", reagiu Poly, comandante do GCUSE, na esteira das declarações polémicas sobre a vitória lograda no dia 18 de Fevereiro.
“Isto demonstra que aqui há juventude, força, persistência, inovação e organização, portanto, se continuarem a ter medo de nós, se os outros grupos não se organizarem, vamos continuar a amealhar conquistas”, asseverou aquele responsável. Recorde-se que, nas posições imediatas na 37.ª edição Carnaval de Luanda, ficaram o União 10 de Dezembro, o União Mundo da Ilha, União NjingaMbandi e o União Povo da Samba, sendo a segunda vez consecutiva que o Sagrada Esperança, do distrito urbano do Rangel, arrebata o troféu, feito já realizado em 2011.
Polyentende que deve haver um incremento na premiação dosconcorrentes. “Devem aumentar os prémios para 100 mil dólares ao primeiro classificado e assim sucessivamente, dado que o carnaval é a maior manifestação cultural do país, porque não é fácil gerir 784 elementos com 30 mil dólares, considerando que tivemos cerca de 2000 pessoas no desfile”.
O também coreógrafo sustentou que há alturas em que as pessoas fiquem desanimadas com os prémios e desistam, daí ter apelado a que se faça com que esta festa se torne algo mais rentável. Nos próximos dias o grupo entra de férias e os ensaios para o carnaval de 2016 começam em Junho próximo.

Batota ou injustiça?

Sobre as picardias à volta da vitória alcançada recentemente, o comandante do Sagrada Esperança disse que “os perdedores quando não perdem com dignidade alegam sempre batota” e colocou uma questão no ar: “será que no ano passado também batotamos”?
Ainda sobre esta matéria, João Filipe, presidente do União Povo da Samba, quinto classificado este ano, alegou ter ficado decepcionado com os júris e preferiu não se pronunciar sobre o desfile. “A Comissão Preparatória do Carnaval um dia terá que ser mais realista”, disse lacónico.
Para Tony Mulato, foi injusto o quarto lugar do NjingaMbandi. “Não diria batota, fomos ao carnaval para competir, mas quem assistiu ao Entrudo sabe que não merecíamos esta classificação, nós fomos para competir. Não podemos voltar a perder na falange de apoio”.
Os problemas decorrentes do Entrudo findo, bem como a projecção da 38.ª edição desta manifestação cultural, serão abordados numa reunião alargada entre técnicos do Ministério da Cultura, coreógrafos, jornalistas, bailarinos, presidentes dos grupos, entre outras entidades, onde serão esmiuçadas todas as questões ligadas ao Carnaval de Luanda, informou Manuel Sebastião.

Festa rija na Nova Marginal

Na tribuna central, algumas figuras de relevo da sociedade angolana tomavam os seus assentos: Roberto de Almeida, vice-presidente do MPLA, o rapperD.One, o presidente do Tribunal de Contas, Rui Ferreira, e o escritor RoderickNehone; acolá figuras da governação luandense, designadamente Jorge Bengue, Maria Clementina da Silva e o edil de Luanda,Graciano Domingos. As arquibancadas não estão totalmente preenchidas. O movimento dos jornalistas que cruzam o espaço cénico à cata de informações ou fotografias com melhor qualidade é frenético. Até que o responsável máximo da Comissão Preparatória do Carnaval, Manuel Sebastião, de microfone em riste diz: “vamos começar. Júris aos vossos lugares.”
Depois do discurso de abertura de Graciano Domingos, sob sol intenso, apesar de serem quase 17 horas, aconteceu a homenagem ao União Tones(s)a (despertar), que desfilou para gáudio do público que ia chegando para assistir o despique da classe A. Antes, procedeu-se à abertura da urna para que fossem depositados os votos, a fim de que a lisura do certame não fosse beliscada.
Já começou o desfile competitivo. O União Kazukuta do Sambizanga abriu a folia. Entre os integrantes da ala de abertura deste grupo está o Zorro, o caçador eos guarda-chuvas pretas giram. As vestes são douradas. O carnaval é isso, luz, cor, purpurina e os executantes esgrimem a dança kazukuta.
Os adereços vão desde saias de cigana com faixas brancas, pretas e vermelhas com fazendas de samacaca, aventais brancos e chapéus rosa e, quando chegam ao centro prostram-se ante a tribuna principal e continua a ginga. Foi assim com todos os grupos.
O União Domant decidiu homenagear a mulher rural. “Mulher rural bonita e trabalhadora hoje está feliz/porque o país está em paz/valorizem a minha enxada/pois o chão já tem tudo/vem comprar a minha kizaka/é produto nacional”. Estas são as notas do refrão que colam no ouvido, as vestes não fogem muito às do primeiro grupo que se exibiu no desfile competitivo.
“54 sempre acompanhou/54 sempre acompanhou/sempre acompanhou a reconstrução/sempre acompanhou a evolução/sempre acompanhou aqueles que não fazem nada”. O coro do tema ‘Viva Angola Independente’ era envolvente.
Os fatos dos homens são de cetim branco pérola. As mulheres trajaram quimonos feitos com panos do congo e aventais vermelhos, foi bonito ver a representaçãohumana da letra “x” e do número 54 no asfalto da Nova Marginal, refira-se que foram antecedidos pelo União EtuMudyetu como previa a ordem do desfile.
Os Jovens da Cacimba brincavam o carnaval ao ritmo do Semba, à semelhança do Kiela, do Mundo Ilha, do DimbaDyaNgola, do Povo da Samba, do 10 de Dezembro, do Twafundumuka e do Sagrada Esperança, aliás, dos 14 grupos apenas o União NjingaMbandi dançou a cabecinha e o Kabocomeu, tal como o União Kazutuka apresentaram-se com a dança kazukuta.
Vencedores do carnaval de 2012, os Jovens da Cacimba decidiram no seu enredo homenagear Agostinho Neto, NjingaMbandi, o Rei MandumeYaNdemufayo e houve até um carro alegórico para o efeito, onde estas figuras incontornáveis da história de Angola fora estilizadas.
Quando o Kielainiciou o seu desfile parecia um terramoto: Kiela, com a estrepitosa e já característica cornetada:fam-fam-fam-fam,Kiela! Fam-fam-fam-fam,Kiela, o público nas bancadas gritava em uníssono o nome deste grupo doSambizanga: Kiela, ao mesmo tempo levantava os punhos,Kiela, mediante os acordes da batida psicadélica.
Abordaram o futebol. As cores preta e amarelado Progresso Associação do Sambizanga estavam ali bem patentes no carro alegórico, no futebolista que esteve durante todo o desfile a dominar uma bola e nos trajos das bailarinas apresentadas com saias de cigana com lantejoulas douradas e pretas. Da tribuna de honra, Paixão Júnior era um mirone muito atento.

A folia continua
com os ‘homens de laranja’

Os membros do júri circulam pelo espaço cénico. Trajados com t-shirts cor de laranja, ora estavam à frente do grupo carnavalesco, atrás, e nas margens da avenida da Nova Marginal de Luanda. Nisto, cruzamo-nos com Nadir Tati e Alice Berenguel, que analisaram a corte.
Adelino Caracol e Cirineu Bastos ocuparam-se dos comandantes e das falanges de apoio encarregaram-se outros responsáveis, ou melhor dito, os homens de laranja: John Bella, Patrícia Faria, DonSebasCassule, Sacaneno João de Deus, entre outras entidades a que foi atribuída a responsabilidade de avaliar o trabalho dos 14 concorrentes.

Viana na Nova Marginal

Cerca de 6000 pessoas desfilaram como membros do União NjingaMbandi. A marginal, já por volta das 20 e pico ficou verde, sim. As mulheres, maioritariamente quitandeiras(vendedoras) dos mercados do 30, dos Zangos 1, 2, 3 e 4, da Regedoria, encarnaram as suas vidas na Nova Marginal com bacias verdes à cabeça e muita fruta, exalando um aroma de laranjas, bananas, ananases e outras frutas naquele avenida à beira mar.
Um espectáculo visual maravilhoso que não deixou vivalma indiferente, Baló Januário cantou e encantou os presentes, na segunda homenagem à mulher rural no dia 17 de Fevereiro, de modo que todos nas arquibancadas aplaudiram em pé. Comovido, Afonso Quintas, o mestre de cerimónias disse: “Viana ficou vazia”!
As apresentações dos comandantes do União Povo da Samba e do Sagrada Esperança foram bem conseguidas. Quem não se lembra do chapéu de almirante de Agostinho Filipe, trajado de branco, com patentes de quatro estrelas em cada ombro e estrelas vermelhas luzidias a esbanjar charme, ou da sua sincronização com os bailarinos!
De Poly, do Sagrada Esperança, de casaco vermelho, divisamos muita coordenação, espírito de entrega e folia. O carnaval, se quer desta forma agitado, vivo e alegre, mas é como Mestre Petchú, coreógrafo e bailarino do Ballet Tradicional Kilandukilu, disse ao Cultura. “Temos de reflectir sobre o que o povo trouxe à Nova Marginal. O povo trouxe algo para reflectirmos, muito mais do que a dança, foram propostas para pensarmos como angolanos o que queremos do nosso destino”.
Rúbio Praia

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