Dinâmica expressiva e campo temático significativo

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Em última análise, a apreciação que pode se fazer da admirável exposição "Ensarte", patente no Salão Internacional de Exposição (Siexpo), do Museu Nacional de História Natural, foi tornada possível pelo incitativo quadro emulativo, generosamente planteado pela tenaz Empresa Nacional de Seguros de Angola (Ensa).

São cerca de 200 obras de pintura e escultura, com as respetivas modalidades assimiladas, que foram propostas ao concurso da Seguradora.

Este reagrupamento permitiu um desdobramento de técnicas, para o essencial, clássicas, mas igualmente, no quadro da evolução das artes plásticas angolanas, de tentativas bastante ousadas.

Reencontra-se, aí, naturalmente, a boa pintura à óleo, o cintilante acrílico e as técnicas mistas, ilustradas, para o essencial, pelas aplicações sobre tela pintada, exercício plástico - o mais utilizado-, num ímpeto sempre mais ousado.

As composições propostas testemunham a atenção dos criadores às milenárias iconografias rupestres, pré-históricas mais igualmente as produzidas pelas populações bantu. Provém, basicamente, das velhas grutas das regiões meridionais e de pictogramas do fabuloso Levante angolano.

Esses criadores são, também, sensíveis, muitas vezes, paralelamente, à célere contemporaneidade, nas suas cristalizações formais.

Esses encantadores fazem, analogamente, arranjos, plenos, coloridos ao infinito.

Reviu-se na agência ENSA, das Ingombotas, os pintores clássicos, iconográficos, tais como o meticuloso Ângelo Carvalho, o crente Joaquim Teixeira, o desenrolador Mayomona Vua, o muito contemporâneo Cardoso Mbaki, a policrómica Engrácia Ferreira e o parietal Pedro Lino.

Os esperados pinceis, semi- figurativos ou abstratas, foram o cavernoso Marco Kabenda, o neo - poli - compositor Pedro Hospital, o oblongo António Camuto, o impetuoso Benjamin Sabby, o denso Guilherme Kaniaki, o veloce Miguel Goncalves, o multiconstrutor Mak Francisco, o previsível organologista Sozinho Lopes, o elíptico José João Dos Santos e o dragonete Sidónio Massoxi.

As tendências expressionistas fizeram se representar com o instalador Ricardo Kapuka Ângelo, o assaz estilizado Fortunato Bangui e os realistas Mário Nunes e João Jorge.

Metal reciclado

A vanguarda contemporânea das técnicas mistas, confirmou, com bravura, a sua emergência com poderoso Alfredo Paulo Cosme.

Os concorrentes a Bienal propuseram, com entusiasmo, criações esculturais com montagens feitas de madeira e de metal, aplicando, ai, um conjunto bastante variado de incisões geométricas, em perfeitos equilíbrios, relevos bem oportunos e passagens antropologicamente significativas.

Esses aportes inspiraram -se de tradições tais como o temível «nkisi nkonde», do Setentrião, e, a excelente talha e a luminosidade de aperfeiçoamento dos famosos mar ins da «Loango Coast».

A persistência escultória sobre a respeitável madeira permitiu a produção de verdadeiras obras-mestras, com talhas, originais, feitos de elementos pendurados e os, doravante, indeclináveis, arabesques.

O terceiro andar do Museu da ecologia permitiu realçar, identicamente, a nova e corajosa Escola do metal reciclado, com os seus espetaculares efeitos humanos, meio cósmicos.

O assustador feitiço com pregos do Mayombe foi retomado, em madeira ou selado em refundição, em claro alumínio, menos inquietante.

As oficinas da nova e ativa «Periferia luandense» propuseram, igualmente, obras evocando as suas indestrutíveis amazonas, as zungueiras, comerciantes ambulantes, em perfis, fixando as suas inevitáveis novas redondezas de maternidade e a sua última criancinha, no dorso.

Os «Recuperadores» manufaturaram, finalmente, os omnipresentes, simpáticos e honestos, puxadores de kangulu, sólidas caretas de fabrico artesanal.

Nota-se, dentre os montadores dessas modelações, que deram-se recato, com orgulho, na Bienal, o antropo ­ fabricante, António Gonga, o «Professor» e os seus talentosos confrades Landu Yetu e Jone Alberto, assim como a experimentadora Sónia Lukene. Reapreciou-se as espetaculares obras de entrelaces do inevitável Mayembe e do seu néo -clone Pacheco Ndombele, o monumentalista e singular talento polivalente Sozinho Lopes e o retentor de coregrafias Agostinho José Piranha e o pregador Amândio Vemba.

Novatio angolensis

O conjunto dessas obras abriu um campo temático, com uma nítida predominância social, constituído de diversos elementos tais como a forte a firmação da auto estima dos hinterlandais, a relembrança da generosidade do solo angolano, a necessidade de atingir a autossuficiência alimentar, o papel, importante, da identidade cultural na consolidação da nação e o aviso relativo a degradação das balizas memoriais.

Os ondulukiyi (1) estamparam, identicamente, a atenção que merece a inserção correta de uma educação continua assim que um bom enquadramento aos métodos de contraceção e de planeamento familiar das « ambulantes », a obrigação de manter a harmonia das famílias, a necessidade da preservação do meio-ambiente e da fauna, as esperanças, hoje, mais certas, do desenvolvimento do pais da "Rainha", concomitantemente, num esforço de elevação moral, o notável engajamento dos jovens para o autoemprego e a exigência do Quadrilátero de ter uma certa influencia no mundo virtual.

Esses, sublinharam, ainda, a obrigação da promoção das mulheres, a indispensabilidade de consolidar a concórdia e a concertação nacionais assim que o dialogo democrático, a vital adaptação a modernidade e a urgência de continuar o processo de construção de um Novatio Angolensis.

O reagrupamento deste ano da Bienal Ensarte, cuja exímia exposição atingiu os critérios internacionais, confirmou o indiscutível progresso das artes plásticas angolanas, cujo, ele e, um dos quadros de promoção, o mais significativo.

Concurso, o mais recompensante do continente, o programa artístico do Segurador da Baia de Luanda, constitui, sem dúvida, hoje, uma das contribuições culturais, demonstrativas, em prol da Renascença Africana.

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