“É prioritário haver um Teatro Nacional”

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“Ainda falta maior cultura nos intervenientes do teatro. Falta conhecimento do teatro mundial e da estrutura dramática universal. Há ainda um grande caminho a percorrer”

As primeiras peças no pós-independência e a profissionalização

Começa a fazer teatro num momento muito particular da história de Angola: foi entre o 25 de Abril e a altura da independência que se instalou nele a grande vontade de fazer teatro. Ainda estudante do então liceu Paulo Dias de Novais, houve uma greve de estudantes simultaneamente aos tumultos da independência e muitos tiveram que se instalar nos musseques.

Era preciso entreter estas pessoas, e o teatro foi uma solução. Foi neste período que toma contacto com José Mena Abrantes, que passava muitas vezes por lá, chegando mesmo a montar um espectáculo composto de dois actores e outras pequenas peças baseadas em matérias que saiam nos jornais da época.

Um pouco para 75 entra para o Tchingandjy, embora não no período génese do grupo que estreou o primeiro espectáculo da Angola independente, ainda no tempo do teatro de cariz político.

Entra para o grupo depois desse espectáculo, quando já faziam outro espectáculo sobre a história de Angola, que era na altura uma preocupação recorrente.

Com o apoio de uma profissional Brasileira (Teresa...), o espectáculo foi estreado na Fortaleza do São Pedro da Barra e chegou até ao Festival de Artes Negras, na Nigéria. Depois fez vários espectáculos itinerantes, muito comuns na época de forte agitação.

Politizado, o grupo foi extinto. Volta ao teatro ao retomar um espectáculo que já estava montado ".O Xilenge".

Tempos depois ingressa na Faculdade de Medicina, cujo retrato o marca porque "havia por lá gente muito particular, que além de se interessar por medicina ­ que era um curso muito duro ­ fazia jornal e muitos debates..." Foi nesta atmosfera estudantil que decidem fazer também um grupo de teatro, até porque muitos estudantes já sabiam que Orlando era actor. Faz o primeiro espectáculo "O Alfredo filipou", que era uma história de um maluco.

O espectáculo situava a guerra como a causa principal da loucura. Foi esse espectáculo que fundou o grupo de teatro daquela Faculdade. Depois, pessoalmente, convida o Mena Abrantes a participar de outro espectáculo, que fugia um pouco da apologia política e se baseava mais em questões de identidade cultural e História através de contos nhanecas.

A peça intitulava-se "Ondjala", mas ainda não era um teatro de arte pela arte. A missão daquela geração no sentido de tratar com engajamento as temáticas de identidade e formação dos novos mitos da nação e de comunhão dos contos tradicionais com o moderno continuava.

Foi um espectáculo muito bem conseguido. Com boa recordação, chega a classificar o resultado estético dessa peça como um dos mais bem seguidos que já fez com o director Mena Abrantes.

Depois montam a peça "A revolta da casa dos ídolos" , mas aí o grupo já era designado por Elinga-Teatro, um pouco também porque a Faculdade não se predispunha a apoiar financeiramente um grupo de teatro. A peça estreou no Cine Teatro Nacional e chegou a fazer parte duma amostra de teatro em Itália. "Os Velhos não devem namorar" foi outra montagem em que participa naquele período de transição para um teatro mais voltado para si e esteticamente exigente.

Portugal

Ruma para Portugal. Lá, por várias razões de índole pessoal, abandona a medicina e decidi ser actor a tempo inteiro. Nunca chegou a exercer a medicina, mas a reconhece: "Prontos, fica aquela marca, porque no fundo o meu raciocínio está marcado por aquela escola.

E fiz quatro anos de medicina numa fase da vida em que a pessoa também ainda é moldável".

Entra no Conservatório de Lisboa graças à sua frequência universitária, visto que já tinha excedido a idade de ingressar. Lá faz o primeiro espectáculo com uma companhia profissional, "A Missão", de Heiner Müller; e depois de vários exercícios na escola com vários extractos das peças de Shakespeare, chega a ser o primeiro actor negro em Portugal a interpretar Otelo, o que o tornou uma referência e lhe garantiu visibilidade no teatro e nas artes portuguesas da época.

Teve muita divulgação, também pela sua dificuldade em conseguir atingir os vários estados de alma que a peça exige.

Desenhava-se assim o trajecto para uma carreira profissional. Fazia duas a três peças por ano e filmava obras de vários autores contemporâneos.

Ficou cerca de dez ou onze anos por lá, tendo uma carreira muito mais vincada pelo teatro, embora o seu sustento viesse de ambos, nos tempos em que o ordenado do teatro e da televisão não era assim tão díspar.

Mas nem tudo foi actuação, conhece o Miguel Hurst na escola, precisamente no primeiro ano do conservatório. Amigo, conterrâneo e artista, Miguel torna-se uma presença constante.

O contexto do teatro nos dias que correm

Muito se conjectura sobre o teatro em Angola, dando-lhe rótulos e epítetos às vezes desajustados. É de opinião que para quem está ligado a um grupo que tem espaço como o Elinga ou o Horizonte Njinga Mbande a coisa é um bocadinho mais calma. Para quem não tem espaço e tem de andar de sítio em sítio a fazer espectáculo, a situação é muito mais complicada.

De modo geral, sublinha que há alguns instrumentos que faltam nos países que não têm a Lei do Teatro e todo um programa de carreira mais ou menos estabelecidos para se ter uma profissão em condições normais, sendo que o resultado é na verdade uma profissão intermitente: nem sempre há trabalho ou há trabalho em períodos muito curtos.

Em comparação com outros tempos, constata que hoje já se nota uma certa aceitação social de alguns actores, que até já saem em algumas revistas corde-rosa. Mas isto mais pelos trabalhos na televisão do que no teatro.

Rigoroso, é dos que fundamenta que a arte do teatro não é uma arte que se aprende na internet. E critica que em Luanda há imensos grupos de teatro e com várias tendências, mas que ainda falta maior cultura nos intervenientes do teatro: "Falta conhecimento do teatro mundial e da estrutura dramática universal. Há ainda um grande caminho a percorrer. Agora, há muita gente a representar, com influência da televisão, alguns fazem umas boas peças intimistas. Mas em geral há uma grande falta de cultura e de autores".

A gestão dos espaços culturais

Tem opiniões muto próprias quanto à gestão dos espaços de cultura, aliás, foram essas " incompatibilidades na maneira de ver a gestão do Elinga" o motivo do seu afastamento, sobrando apenas "uma ligação puramente afectiva".

Acentua ser "prioritário haver um Teatro Nacional com uma sala decente" e pede maior intervenção do ministério da Cultura na gestão desse Teatro e das salas existentes.

Contrária à grande motivação, observa que há uma excessiva falta de investimento em infra-estruturas culturais, o que faz com que as pessoas estejam sempre a fazer espectáculos em salas adaptadas, onde as cadeiras estão danificadas ou são adaptações.

Entretanto, reclama de algumas situações espantosas, como é o caso do Teatro Nacional ser a base e não estar reabilitado mas ter dois restaurantes ao lado a funcionarem excepcionalmente, ou o caso de uma digna sala de espectáculo no Bié que os utentes locais não sabem como fazer funcionar.

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