Elias Dya Kimuezo: "Foram momentos de bonita coragem"

Envie este artigo por email

Meses antes do convicto grito de independência, nesse ano de 75, que agora faz 40 anos, uma mãe grávida de sete meses passava de cadeia em cadeia à procura do marido que certas bocas davam como morto.

Elias Dya Kimuezo: “Foram momentos de bonita coragem”
Elias Dyá Kimuezo e Suzana Cadete nos dias actuais Fotografia: Jornal Cultura

É um dos episódios marcantes da história deste vulto da música popular cujo trajecto sólido acabou por lhe valer o estatuto de Rei da Música Angolana. Esta mãe era Dona Susana Cadete, a esposa e companheira de luta do singular Elias Dyá Kimuezo, que traduzido para o português seria Elias das barbas. E foi devido às barbas que este engano se estava a tornar sério. É que chegou a aparecer um morto barbudo numa das praias num período em que Elias era um dos músicos na mira da PIDE. Todos queriam saber onde estava e o que é que aconteceu. Depois diziam que apareceu na Baía. Era andar e andar muito. E os que estavam do outro lado, em Brazzaville, também queriam informações. Dona Suzana marcava encontros sempre defronte ao Américo Boa Vida, e lá estava sempre ela em pé e só sabia que vinha alguém, um nacionalista, decerto, trazendo novas do marido que na altura estava na cadeia de São Nicolau.
Elias estava na sua casa, no Rangel, no dia 11 de Novembro quando se tinha dado o grito da independência e a festa se estendeu por todas as ruelas e até por aquelas ruas de bairros elegantes onde até um pouco antes os angolanos passavam por lá menosprezados. Não saiu de casa porque ainda sofria dos medos e horrores passados em São Nicolau. O mal passado aí ainda era muito fresco. Ficou a ouvir e a assistir em casa, inquieto com tudo que lhe passava na cabeça naquele momento, mas com o saboroso sentimento de dever cumprido, da terra estar novamente nas mãos dos seus legítimos donos e a desenhar em sonhos o novo país.
HHHHHHEste relato é-nos contado pelo próprio músico Elias, em entrevista ao CULTURA, solicitada à propósito para saudar estes quarenta anos de vida da Nação. Guiou-nos pelas memórias marcantes que tem guardadas no seu coração operante, cujas palavras-chave são fotografias, sons, choros, cheiro a mar, sangue, Luanda, pátria e sorrisos construídos com laivos de uma esperança sagrada, antes da eclosão da independência, na sua gestação dolorosa e sangrenta para por fim a um regime esclavagista que se arrastou por mais de três séculos. Embora não reivindicada deste ponto de vista, Elias enfatiza que esta, as independências, também foi uma das grandes contribuições dos africanos na elaboração do novo mundo e seus conceitos, que no caso de Angola teve a conquista derradeira a 11 de Novembro de 1975, à custa de um sem número de pessoas dispostas a dar a vida, como é o caso do nosso entrevistado, que soube misturar o artista e o cidadão em prol da luta pela independência.

São Nicolau
À época morava na Floresta, no antigo Picapau, nos arredores onde hoje está o Centro Cultural Kilamba. Em 75, quando a população se rebelou e invadiu algumas cadeias onde tinham os seus familiares presos pelo regime esclavagista português, partindo lojas e saqueando as coisas, Elias, numa conversa mantida na rua com alguns jovens, a fim de convence-los a não partirem as coisas que posteriormente viriam a precisar, foi marcado pela PIDE. Os tugas viram-no a orientar os jovens em como proceder com a manifestação e julgaram que o músico fosse o líder político que tinha engendrado a rebelião. Como morava próximo do local em que abordou os miúdos, não demorou muito e a tropa tuga estava logo em sua casa para busca-lo.
Ficaram aí no espaço do Hospital Prisão São Paulo e mais tarde foram recolhidos para sétima, depois para Marinha, rumo a São Nicolau. Ficou lá cerca de seis meses. Lá ocorreram muitas coisas que lhe marcarão por toda a vida, como a fama que veio a rolar de que o Rei da Música Angolana tinha aparecido morto numa das praias, arrastado pela correnteza do mar. Foi assim, um tanto a tentar quebrar este equívoco, dado que Elias continuava vivo e preso, que os tugas se viram obrigados a lhe darem soltara aos finsde-semana. Saia de São Nicolau e ia até ao Namibe. Regressava às segundasfeiras.
Os tugas agiram um pouco sob pressão da grande acutilância que o programa radiofónico Angola Combatente tinha dado ao caso. Lembra os nomes de angolanos que o estenderam a mão e que fazem parte desta odisseia, como Batalha, do Giro-Giro, que trabalhava no Caminho-de-ferro, um senhor identificado apenas como Tio da Riquita, outro era o Rui Boleto, o mais velho Loto e outros que o cuidadoso exercício da memória não iluminou oportunamente mas nem por isso menos herói, como fez questão de frisar, ao voltar a construir as memórias deste período. E continua o tecer desta epopeia dizendo-nos em acréscimo que não tinham água doce e que os alimentos eram cozidos com água salgada, naquela cadeia a beira-mar onde o vento causava muito frio mas mesmo assim a malvadez dos tugas era tanta que obrigavam os presos a tirarem a manta, tanto que estes, os angolanos presos, apelidaram o lugar de “tira a manta”. Desta memória lhe são claros os nomes Carlitos, que era cobrador de autocarro, e Duque, irmão do Ambrósio de Lemos.

Sambila
Foi no Sambizanga onde travou amizade com José Eduardo dos Santos, Mário Santiago, Zarga, mais velho Kito e outros, no final da década de 50. Elias já era músico de estima e estas figuras marcantes da história política angolana viram no músico uma mais-valia para o grupo que existia, o Ginásio, onde José Eduardo dos Santos era o violasolo, e contava com nomes como Pedro de Castro Van-Dúnem “Loy”, Faísca, Brito Sozinho, 59, Rufino, do Caminho-de-Ferro, e Mário Santiago.
Ginásio era o ponto de encontro dos conhecedores da política e que tinham a sagrada missão de despertar os demais. Lembra os nomes dos mais velhos Tchivenga, Franco, Rita Pitra. E a independência era estrategicamente chamada de camisa. Quando se dava encontro com pessoas que traziam as nonas de Brazzaville e outros pontos onde a intervenção da política angolana se fazia sentir, era imperioso perguntar:
“Como é, a camisa já coseram?”.
Diógenes Boavida, Beto Van-Dúnem, Rui de Carvalho, Zé Maria, do Ngola Ritmo, Mário Clington são alguns nomes que o conduziram para uma acção mais nacionalista e fizeram despertar no músico o ideário pátrio. É assim que ganha um certo desapego às músicas em português, fruto dos conselhos que estes dirigiam ao músico. Assim o kimbundu fica a língua de eleição para o seu canto. Beto Van-Dúnem e mais alguns nacionalistas já vinham de um desterro e já tinham os olhos bem abertos e coragem amadurecida para a luta clandestina pela independência. Foi neste sambila onde muitos encontros terminavam em reuniões e troca de ideias sobre a luta nacional, muitas vezes feitas em casa do pai de Mário Santiago, lá no lado de trás, onde havia uma casinha de chapa e tudo ficava despercebido. Estava tudo camuflado, num misto de jovens do desporto e da música. Lembra ainda os nomes de Justino Fernandes e Ambrósio de Lemos: “A malta do Ginásio era mais de cobertura e mensagem do acto político”, relembra Elias. “Mamã Kudilé N'go”, volta ao canto, com a sua a voz tocante, que era veículo de uma preparação psicológica para as mães que a qualquer altura podiam (e viam) os seus filhos partirem para a luta. Detalha que Maria Mambo Café chegou também a fazer parte do conjunto, um pouco para entender o casamento entre a luta e a música. Mas não foi só de histórias felizes: “Uns chegaram e outros ficaram pelo caminho”, recorda, já com semblante de tristeza impresso no rosto. E salteia para o agora: “O país já tem uma vida e é preciso encorajar as pessoas que estão na condução do país e pedir para que as pessoas que deram a vida por esta terra não sejam esquecidas”, aconselha.

Kissanguela
Antes passa pelos Ilundu, lá para os idos anos 60, onde trava amizade com a distinta dançarina Olga Baltazar, depois funda um conjunto de operários da Textang que tinham a sede no Braguês, no sambizanga, depois chega o Kissanguela, “Sociedade dos filhos de Angola”, que ajudou a fundar e sugeriu o nome e que fez da música um dos grandes trunfos da política de mobilização para a luta.
“São amizades que ficaram. Foram momentos de bonita coragem. Já morava no Marçal e era um bairro recheado de artistas: Fontinhas, Malé Malamba, Kim Jorge… Kilamba, Maxinde, Ginásio, Sunguila, Don Kixote foram casas que devem ficar sempre na nossa memória. Os grandes dias no Marítimo da Ilha e Dona Xica. Nos sábados estávamos todos virados para a Ilha, Braguês, Maxinde. Só havia duas grandes bailarinas: Olga Baltazar e Alba Clington”, refaz, em síntese, a fotografia de um período que antecedeu à independência.

Minha Mãe não chore…
Deste período, o registo Mua lunga lhe marca pela forma como a compõe. Foi composta em alto mar quando ia para Lisboa, em 1969. Fala da trajectória dos 12 dias passados em alto mar. Ficou desesperado por estar tanto tempo sem ver as árvores, terra e capim que estava habituado a ver. Foi pela primeira vez que viajara ao exterior. Ia numa caravana para fazer-se presente num festival em Santarém (Portugal), cumprindo um convite formulado pelo SITA para representar a Província de Angola. Integravam também a Rebita do Velho Geraldo, Os Homens do Hungo da Muxima, os Chinguvo do Moxico e a Marimba de Malange. Muitas músicas lhe deixaram no encalço da PIDE, era difícil entender, mas aquela que dizia “minha mãe não chore, que eu vou ao Maquis mas vou voltar, mesmo que voltar cego, só de tocar teus seios hei-de reconhecer que és a minha mãe”, é esta cuja ternura e intenção da mensagem fez questão de repassar durante a entrevista, nos dizendo que a música fez o papel de mobilizar, acautelar, encorajar e dizer verdades de episódios tristes que os angolanos estavam sujeitos a viver, mas também confortar às mães que perderam os seus filhos a lutar pela terra e liberdade.
Às vezes quem lhe acompanhava era o seu amigo “Próprio Nini”, de seu nome Alves Neto. Muitos contrafés eram deixados no bar Flor da Brigada.
Aí também neste bar teve bons momentos de conversa e música com Dominguinhos, do Dimba Dya Ngola, cujo pai era enfermeiro aí no Hospital Cadeia São Paulo e frequentava aquela área. Era vizinho aí próximo, num tempo em que recorda o semba ter sido o ritmo da mensagem, mas dividia espaço com a música brasileira, com Roberto Carlos, e congolesa, com Francó.

“Minha mãe não chore, que eu vou ao Maquis mas vou voltar, mesmo que voltar cego, só de tocar teus seios hei-de reconhecer que és a minha mãe”, trecho de uma das músicas de Elias Dyá Kimuezo, que o próprio fez questão de destacar durante a entrevista concedida ao CULTURA, que aconteceu em sua casa, no Bairro Nova Vida, em Luanda


Comentários

Newsletter


Colabore com o Jornal Cultura - Envie-nos os artigos da sua autoria.

Colaboradores Ver todos