Encenar as variáveis do seu discurso amoroso

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Ekuikui II  estreia Matias Damásio

Encenar as variáveis do seu discurso amoroso
Marido e esposa em cena no musical

À Celina Coluna, encenadora do musical “Três Histórias de Matias Damásio”, valeu-lhe a curiosidade e capacidade de leitura e construção das variáveis do discurso amoroso em Matias Damásio, ao criar a oportuna tarefa de tirá-lo dos discos para os palcos do teatro. Apresentado numa data à altura, 8 de Janeiro, dia da Cultura Nacional, o grupo de teatro Ekuikui II e a produtora musical ArcaVelha mostraram-nos que neste dia não vale a pena ficarmos presos a todo um fazer cultural já sabido, mas também desafiar-nos a novas construções que rompam clichés e limites ou barreiras estabelecidas no campo da construção estética do produto artístico. Apresentado na LASP, em homenagem aos 10 anos de carreira do consagrado compositor angolano, o musical é baseado totalmente nas músicas dos três álbuns de Matias Damásio ( “Amor e Festa na Lixeira”, “Por Amor” e “Por Angola”), tendo em todos o amor como denominador comum. As músicas, em jeito de rapsódia, são recortadas e adaptadas ao contexto da peça, sendo que os actores recorrem aos momentos musicais para fazer a trama e criar o clímax. Entretanto, a peça não escapa à redundância novelística de final feliz, uma escolha que espelha como a encenadora encara o desfecho. Os textos, as músicas, são tirados em falas em sequência, sem obedecer à ordem discográfica, mas sim às situações da trama. Essa forma de montagem da peça provou que a encenadora teve um grande trabalho de audição e selecção da discografia de Matias Damásio, que foi bem interpretado e interiorizado. Tudo pareceu assentar, embora nem todos os actores foram tão bons na experiência do canto e movimentação firme em palco, mas um problema inferior que não ofuscou a intenção e valor estético da peça. Também os actores estivem à vontade nos seus personagens, principalmente “O Marido”, aquele que faz a cantada às suas amantes, e que em termos de valor actancial pode ser identificado como o herói. Distorceu toda uma gravidade do canto de queixume a Matias Damásio, tornando ora mais dramático, ora mais sarcástico, permitindo assim outras interpretações, até mesmo cómicas, de assuntos que são formalmente usados para amenizar as pessoas ou concentra-las em questões puramente ligadas ao amor. Essa representação, feita com acentuada naturalidade pelo actor, trouxe vivacidade à peça, mas não chegou torna-la numa farsa.
Congrega as duas amantes, “A mulher” de casa, neste caso a heroína, e a amante, aquela por quem o marido abandona a mulher para viver um romance secreto com ela, neste caso “a outra”. Esses personagens fizeram os ingredientes, acrescentando duas vizinhas fofoqueiras, um padre, um pastor, um quimbanda.
O jogo e entendimento do público mostrou, e assim é normalmente, aquilo que a encenadora desenha. A peça veio mostrar uma certa repressão contra a “outra”, que Matias já chegou a consensualizar numa música com o mesmo título e que provocou debates acesos. Matias sentimentalizou a outra, deu-lhe dignidade humana, obrigando os maiores defensores fervorosos das conservadoras relações conjugais a pensarem mais vezes antes de destratarem quem se encontra nesta condição de outro/outra. Contudo, à esta outra da peça acrescentou-se a aparecedora e chuladora, que lava/cozinha (faz recurso à feitiçaria) o marido da esposa num quimbanda, para estar segura de que este não volta à mulher e aos filhos e que lhe obedecerá com caprichos caros. Antagoniza com a beata mulher de casa, que apaixonadamente espera o marido, sendo-lhe ainda a “raiz quadrado do seu coração”. Percebe-se assim que a encenadora tirou dos álbuns uma linha maniqueísta de bem e mal, para construir uma peça cujo valor moral assentaria no antagonismo dessas personagens, que às vezes, nos discos, Matias canta na condição de quem não só atenua mas também coloca em discussão como casos humanos, perfeitamente humanos. É assim que a peça, na mesma personagem de marido, traz o discutível homem da noite e do copo, motivos que o levam a devolver a mão da mulher ao pai desta, assumindo-se não ter responsabilidade para continuar uma relação mesmo que ela seja até uma mulher prendada no lar, sabendo de cor a arte de ser mulher do seu marido. Este tema - que exalta uma atitude pouco cómoda para muitos maridos e mulheres, pois da azo a homens justificarem o abandono das suas já boas mulheres, o que não é conjugalmente correcto - vê a sua absolvição no musical, com o arrependimento do marido, que volta aos braços da mulher que já tinha devolvido aos respectivos pais, criando assim o final feliz.
Estas e outras possibilidades que a peça traz, até a Matias Damásio, conforme disse nas suas palavras, não saltavam à vista, que apenas via o que cantava sem desconfiar quantos assuntos as letras carregavam.

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